Gotas d’água aprisionadas há milhares de anos dentro de uma estalagmite da Gruta Rei do Mato, em Sete Lagoas, – que mensura um período que vai de 22,5 mil a 9,3 mil anos atrás – revelaram o ritmo do aquecimento do Centro-Leste da América do Sul ao longo de cerca dos últimos 10 mil anos e tornam-se importante referência para comparar e analisar o atual padrão do aquecimento da região. A pesquisa inédita, publicada na prestigiada revista científica “Nature Communications”, responde à pergunta: “Qual era a temperatura no Centro-Leste da América do Sul ao final da última Era do Gelo (entre 19 mil e 22,5 mil anos atrás) e o início do Holoceno (entre 9,3 mil e 11 mil anos atrás)?” A temperatura média na Gruta Rei do Mato subiu, nesse período, de 14,4 °C para 20,1 °C (valores arredondados). Foi um aquecimento de cerca de 5,8 °C ao longo de toda a deglaciação, explicado por causas naturais: à época não havia atividade humana capaz de alterar o clima, nem agricultura em escala, nem indústria, nem queima de combustíveis fósseis.
A estação meteorológica de Sete Lagoas registra, desde a década de 1980, um aquecimento de 0,32°C por década, que é quase três vezes maior do que o aquecimento deglacial mais intenso já registrado, cujo limite superior alcançou 0,123ºC por década. “Nesse ritmo mensurado desde 1980, em menos de dois séculos alcançaremos o aquecimento que a natureza levou 10 mil anos para atingir", afirma Luiz Eduardo Panisset Travassos, professor do Departamento de Geografia, Programa de Pós-graduação em Geografia da PUC Minas, responsável pelo monitoramento das condições atuais da caverna, etapa essencial para validar o termômetro natural empregado na medição.
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A estalagmite estudada nesta pesquisa foi encontrada partida em 2009, perto do fim da trilha turística da gruta. Estalagmites crescem lentamente, gota a gota, ao longo de milhares de anos, à medida que a água da chuva se infiltra pelo solo e pinga no piso da caverna, depositando carbonato de cálcio. Enquanto crescem, elas aprisionam minúsculas gotas dessa água em cavidades microscópicas, as chamadas inclusões fluidas. Cada gota é, na prática, uma “cápsula do tempo”: uma fração de água fóssil, preservada exatamente como era no momento em que a estalagmite se formou.
O trabalho foi liderado pela pesquisadora peruana Angela Ampuero, da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Max Planck de Química, da Alemanha e reuniu, além do professor Luiz Eduardo Panisset Travassos, pesquisadores do Brasil, da Alemanha, da Noruega, dos Estados Unidos e da China.
Para “ler” a temperatura escondida nessas gotas, a equipe usou uma técnica de altíssima precisão denominada microtermometria assistida por nucleação. Em laboratório, sob um microscópio especial e com o auxílio de pulsos de laser, os pesquisadores resfriaram cada gota até formar uma bolha de vapor. Na sequência, a bolha foi aquecida até desaparecer. A temperatura em que isso ocorre revela o calor que havia na caverna quando aquela gota foi selada.
“Pela primeira vez o Centro-Leste da América do Sul tem um registro de temperatura terrestre com precisão suficiente para verificar mudanças ao longo do tempo”, explica o professor. Comparar os dados coletados da estalagmite, que funcionou como um termômetro do passado, com os dados do aquecimento presente, permite compreender a intensidade do agravamento do aquecimento na América do Sul.
“Diferentemente do aquecimento natural do período da deglaciação, o atual aquecimento tem origem e velocidades distintas. Entre 1980 e 2025, o CO2 subiu 18,9 partes por milhão por década. Essa taxa é incomparavelmente mais rápida do que qualquer aumento natural do passado profundo. A ação humana responsável é a queima de combustíveis fósseis, à qual se somam, no caso brasileiro, o desmatamento e as mudanças no uso do solo”, afirma o professor.
O valor da pesquisa está na possibilidade de comparação entre o ritmo do aquecimento natural e o atual aquecimento, acionado pela ação humana, que é quase três vezes mais rápido do que os últimos 22 mil anos. Quem governar Minas terá de administrar as consequências do aumento da temperatura sobre as cidades e a população. Até aqui, as candidaturas têm dedicado pouca atenção ao problema.
Três perguntas para
Luiz Eduardo Panisset Travassos
Geografo e professor
Como o futuro governador de Minas deve atuar para enfrentar as consequências do aquecimento global?
Nenhum governo estadual controla a concentração de CO2 na atmosfera. Isso se decide na escala global. Mas há aquilo que o estado efetivamente controla: a emissão que produz – matriz energética, transporte, desmatamento e uso do solo. Não porque Minas vá resolver o problema global sozinha, mas porque é o que está ao alcance do governo estadual, e porque a soma dessas decisões é o problema global. A agenda estadual é sobretudo de adaptação. O aquecimento das próximas décadas já está, em boa medida, contratado pelo carbono que já foi emitido. Quem governar Minas precisará administrar esse aquecimento: preparar cidades para calor extremo, rever a segurança hídrica e proteger quem tem menos condições de se defender do calor.
Que tipo de relação a pesquisa científica identificou entre as chuvas e o aumento da temperatura?
No registro da estalagmite da gruta Rei do Mato, o aumento da temperatura e a chuva andaram separados, ou seja, variaram de forma independente. Inclusive o aquecimento avançou justamente nas fases mais úmidas. Isso significa que não se pode contar com a chuva para compensar o calor: um período chuvoso não trouxe alívio térmico. Planejar como se um resolvesse o outro é um erro que os dados desautorizam. Segurança hídrica e calor extremo são dois problemas distintos, e Minas precisa de plano para cada um. A política de água e a política de calor não são a mesma política.
Que avaliação faz do debate em torno da flexibilização da proteção das cavernas?
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Como geógrafo, saliento que toda essa pesquisa e dados foram extraídos de um pedaço de estalagmite caído no chão da Gruta Rei do Mato, protegida pelo estado. Cavernas são arquivos climáticos, e o Brasil tem discutido flexibilizar a sua proteção. O que não for preservado hoje não poderá ser lido depois – e é justamente esse tipo de registro que nos permite saber onde estamos.
