Do ponto de vista estratégico eleitoral, o governador Mateus Simões (PSD) tem lá as suas razões para desejar – e buscar articular – uma concertação que afaste o senador Cleitinho (Republicanos) da sucessão estadual. Há franqueza e realismo no raciocínio de Mateus Simões: Cleitinho “pesca na direita e na esquerda”, tem um eleitorado cativo que não só o traciona para o segundo turno, como também estreita o rio de eleitores para a “pesca” do próprio Mateus.

À direita, Mateus Simões tem ainda um outro problema: diante da postergação de Cleitinho em formalizar o anúncio de sua pré-candidatura, o PL, que em princípio aguarda o senador para a coligação com o Republicanos que garanta o palanque de Flávio Bolsonaro (PL) em Minas, prepara o seu “Plano B”, com a pré-candidatura do ex-prefeito de Betim Vittorio Medioli (PL). Se não houver acordo entre PL e Republicanos, é Medioli quem vai se apresentar como um dos marcadores do campo bolsonarista. Nessa paisagem com Medioli e Cleitinho à direita, o rio de Mateus se afunila em um afluente.

Embora Mateus siga tentando a unidade do PL e do Republicanos com a sua própria candidatura, ele sabe que a perspectiva mais palpável do momento, dado o cenário de primeiro turno da disputa presidencial que coloca Romeu Zema (Novo) e Flávio Bolsonaro (PL) em rota de colisão, é que senador não eleja o palanque pessedista para a sua campanha no estado. Por isso, parece estruturado o “Plano A” de Mateus, em que estariam presentes na disputa Medioli e Cleitinho no campo da direita: faz-se urgente a abertura de canais à navegação junto ao eleitorado do centro moderado e da centro-esquerda, que estaria mais inclinado a apostar numa candidatura “independente” – nem lulista, nem bolsonarista.

Nessa linha, depois de se definir como um político da direita liberal, Mateus Simões avisa: “Eu nunca fui bolsonarista. Aliás, marco sempre as minhas divergências com o bolsonarismo”. Elencando na sequência as diferenças em relação à PEC da Blindagem, à defesa da Petrobras e dos Correios. “O bolsonarismo sempre foi a favor dessas bandeiras, eu sempre fui contra. E acho que o governador Romeu Zema tem posições nesses pontos parecidas com as minhas, com uma diferença: ele teve uma relação pessoal com o presidente Bolsonaro, ao longo de todos os anos, o que eu nunca tive”, afirma o governador.

Vittorio Mediolli, Cleitinho, Mateus Simões, Alexandre Kalil (PDT), Gabriel Azevedo (MDB), Jarbas Soares (PSB) e Patrus Ananias (PT), caso se confirme como o nome da Federação PT-PV-PcdoB, eis o hipotético quadro sucessório em que, conquistará a segunda vaga do segundo turno aquele que marcar entre 20% e 25% dos votos válidos. Com a máquina na mão e em campanha bem estruturada que segue a todo vapor em campo – enquanto o painel da disputa ainda não se define – é inegável que Mateus Simões é um dos concorrentes com grande chance de chegar ao segundo turno. Em entrevista exclusiva ao Estado de Minas, na quinta-feira, o governador exibe o seu otimismo, talvez excessivamente assertivo, neste momento em que precisa manter aliados em seu leque de apoios: “É muito difícil que eu não vá para o segundo turno”. Mateus Simões tem probabilidade razoável de saltar ao segundo turno, o que é um pouco diferente, como ele afirma, de ser “muito difícil” que não esteja lá.

É compreensível que o governador assim construa a defesa de sua candidatura, no momento em que, dos nove partidos que anuncia como aliados – os dois mais significativos sejam União Brasil e PP, federados, que juntos concentram 20% do tempo de antena e de recursos para distribuir aos seus deputados federais que lutam pela reeleição. Para que alcance o segundo turno, Mateus sabe que não pode prescindir, de forma alguma, da Federação União Progressista. Por isso, em meio ao tiroteio de vida ou morte entre o senador e pré-candidato à reeleição Carlos Viana (PSD) e o pré-candidato ao Senado, Marcelo Aro (PP), talvez decida sacrificar Viana. “A certeza que eu tenho nesse momento é que o meu candidato ao Senado é Marcelo e essa decisão é uma decisão conhecida pelo PSD inclusive”, reiterou Mateus Simões.

Como no cenário nacional, sobretudo após o episódio “Dark horse” e os áudios de Flávio a Daniel Vorcaro, nada indica, pelo momento, que Flávio Bolsonaro e Romeu Zema caminhem juntos no primeiro turno, é baixa a probabilidade de o PL estar com Mateus Simões, como em princípio pretenderam Nikolas Ferreira e outras lideranças da legenda no estado. Isso posto, boa parte dos outros obstáculos no caminho da reeleição de Mateus Simões, um ex-vice que sofre dos males de todo vice que se aventura à cabeça da chapa, poderia ser removida em um só passe: se Cleitinho desistir.

E aí que o governador incorre em infeliz argumento, que seria em princípio destinado a convencer o senador mineiro a deixar a disputa. As palavras são do governador, ao explicar por que acredita que Cleitinho não será candidato ao governo de Minas: “Cleitinho é um homem inteligente e muito verbal, ele não tem nenhum interesse em disputar uma eleição em que se for derrotado, para ele será muito ruim politicamente e, se ganhar, será para ele muito ruim politicamente”. Pelas redes sociais, Cleitinho tratou de retrucar, sinalizando a sua irritação com as palavras do governador marcando clara posição: “Será ruim para políticos e mineradoras se eu for eleito”.

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Depois de lançar o argumento da “inteligência” para afirmar a sua convicção de que Cleitinho não será candidato, Mateus considera que com as restrições orçamentárias de Minas, o senador teria dificuldade em colocar em prática medidas como o fim dos pedágios, a redução do IPVA, o reajuste real aos servidores públicos. Nesse caminho, eventual desistência de Cleitinho seria sinal de “inteligência”. Mas e se Cleitinho decidir concorrer, como político elegível e que lidera as pesquisas de intenção de voto?

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