Depois da eleição de 2024, em Belo Horizonte, do vereador Lucas Ganem, pelo Podemos, a “máquina Ganem” de eleger parlamentares digitalmente e à distância se instalou em Minas Gerais e irá lançar, neste pleito, o advogado Thiago Ganem para deputado federal pelo PL. Diferentemente de Lucas, agora pré-candidato a deputado estadual no MDB, que vacilou nos preparativos da transferência de seu título eleitoral de São Paulo para Belo Horizonte – e acabou denunciado por fraude em domicílio eleitoral –, Thiago Ganem planejou com mais cuidado a sua candidatura. Há um ano e meio transferiu o título eleitoral também de São Paulo e já está de posse de sua carteira suplementar da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Minas Gerais.

Segundo quadro mais forte na hierarquia da Executiva Nacional do Podemos, Thiago, em princípio, concorre pela própria legenda. Mas em acordo de cúpulas entre o PL de Valdemar da Costa Neto e o Podemos de Renata Abreu, ele disputará pelo PL, aproveitando-se da carona da esperada votação de Nikolas Ferreira (PL), que entregará facilidades para as candidaturas da chapa.

Também o Podemos de São Paulo abriga um candidato liberal. Se ambos se elegerem, logo após o pleito terão a autorização das direções nacionais para “destrocar” de partidos. O acordo também envolve provável apoio do Podemos à candidatura ao Planalto do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em política, todavia é de mão dupla. Não existe caridade.

 

Em meio ao balcão de negócios em que se transformou o processo de montagem das chapas proporcionais, não só Thiago Ganem foi importado para concorrer por Minas. O fluminense e ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha será candidato a deputado federal pelo Republicanos de Minas. Cunha desembarcou em Minas para não comprometer a base eleitoral de sua filha, a deputada federal fluminense Dani Cunha (PL).

A diferença entre Cunha e Ganem é que o primeiro usa a política tradicional de pesados investimentos em rádios de perfil religioso e em lideranças vinculadas a igrejas em diferentes regiões do estado. Já a “família Ganem” está imersa na era da política digital: mais vale o nome das urnas associado às causas animal, contra a pedofilia, em apoio às pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e segurança pública. Todos temas de forte apelo social.

O vereador Lucas Ganem é, por nascimento, Lucas do Carmo Navarro. Rodolfo Ganem, eleito vereador de Sorocaba em 2024, chama-se Rodolfo Antonio Lima de Oliveira. Hebert Ganem, eleito vereador por Campinas no último pleito, tem como nome de batismo Hebert Garagnami. Simone Ganem, mãe do deputado federal Bruno Ganem (Podemos-SP), tem o sobrenome que carrega nas urnas: foi eleita vereadora de São Paulo em primeiro mandato em 2022. Todos pelo Podemos. Todos com a mesma estratégia, desenvolvida pelo engenheiro Bruno Ganem que iniciou a carreira como vereador de Indaiatuba (SP), foi deputado estadual e, em 2022, elegeu-se para a Câmara dos Deputados.

Assim opera o marketing digital: inúmeros perfis temáticos recrutam, em abaixo-assinados divulgados entre eleições, apoio às causas, apresentadas com cenas que sensibilizam e despertam a empatia do eleitorado com vivências nessas áreas. As informações são coletadas e é mantida a coesão da rede, permanentemente alimentada com histórias associadas ao “defensor” e futuro candidato. Às vésperas do pleito, é reforçado o contato direto, por meio de canais digitais, com esses eleitores.

Thiago Ganem foi batizado como Thiago Milhim. Foi secretário municipal de Esportes e Lazer de São Paulo e ex-secretário de Esporte Amador, Educação, Lazer e Inclusão Social do Ministério do Esporte no governo Lula. No Instagram, o perfil de Thiago Ganem já conta com 42,5 mil seguidores, sob o bordão “Coordenador do Movimento Prisão para Maus Tratos dos Animais”. Toda a narrativa e conteúdo postados são padronizados.

O primeiro ensaio em Minas dessa estratégia eleitoral de plataforma aconteceu antes de Lucas Ganem ser lançado candidato a vereador de Belo Horizonte em 2024. Nas eleições de 2022, três meses antes do pleito, Amanda Beatriz Foltran, natural de Indaiatuba (SP), à época com 30 anos e formação superior incompleta, foi confirmada pelo Avante para concorrer a deputada federal por Minas Gerais.

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O propósito: testar pela primeira vez no estado a estratégia eleitoral de plataforma. Se por um lado há dúvidas se sequer esteve em Minas Gerais, por outro, é inegável que o método tenha dado resultado: obteve 19.261 votos. Fundador do realismo político moderno, o florentino Nicolau Maquiavel ganhou a posteridade por seus ensinamentos que separam a moral da política como método para se manter a coesão do Estado. Se, para Maquiavel, o objetivo final era a estabilidade do Estado e o interesse coletivo, na atualidade os políticos mantêm política e moral separadas, focando, contudo, em interesses pessoais. “Poucos veem o que somos, mas todos veem o que aparentamos”, registrou o florentino.

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