Estou assistindo à série “Younger”, disponível na Netflix. Na série, acompanhamos a trajetória de Liza Miller, uma mulher de 40 anos que, após um longo hiato profissional dedicado à criação da filha e um divórcio, vê-se obrigada a mentir a idade e fingir ter 26 anos para conseguir uma vaga de entrada no concorrido mercado editorial de Nova York. Embora a trama utilize o humor e o romance como pano de fundo, a premissa de Liza revela uma ferida aberta na estrutura social contemporânea: a "penalidade da maternidade".
Na vida real, o abismo provocado pelo hiato no currículo é visto com profunda desconfiança pelas empresas, que raramente valorizam as competências de gestão, resiliência e visão estratégica desenvolvidas no ambiente doméstico. Dados da Fundação Getulio Vargas indicam que quase 50% das mulheres brasileiras perdem o emprego em até dois anos após o fim da licença-maternidade, o que demonstra que a exclusão não é uma falha individual, mas um padrão sistêmico de um mercado que ainda enxerga a parentalidade como um custo exclusivo da mulher.
O etarismo retratado na série também encontra eco em dados concretos, mostrando que as barreiras para as mulheres começam muito antes do que imaginamos. Segundo a consultoria Robert Half, o preconceito geracional é sentido pelas mulheres já na faixa entre os 40 e os 45 anos, enquanto para os homens essa percepção costuma ser adiada para após os 50.
Essa discriminação se soma à persistente desigualdade salarial que, de acordo com o IBGE, aponta que as mulheres ganham, em média, 20% menos que os homens, mesmo com maior escolaridade, uma lacuna que se torna ainda mais profunda após a maternidade.
O "teto de vidro" é outra realidade estatística brutal: enquanto Liza precisa se esconder em um cargo de assistente, os registros mostram que apenas 3% dos cargos de CEO nas 500 maiores empresas do Brasil são ocupados por mulheres brancas, e menos de 1% por mulheres negras, evidenciando que a maturidade e a experiência feminina são sistematicamente subestimadas ou invisibilizadas em prol de um ideal de juventude e disponibilidade integral.
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Para que essa narrativa mude, é fundamental a existência de políticas corporativas que acolham a parentalidade de forma genuína e não apenas discursiva. São poucas as organizações que têm implementado programas de "Re-entry" para mulheres que fizeram pausas na carreira, além de oferecerem auxílio-creche robusto e ambientes de flexibilidade real.
A verdadeira virada de chave depende da divisão equânime do cuidado, no qual a ampliação da licença-paternidade desempenha um papel crucial. Em março, foi sancionada a lei que amplia a licença-paternidade de 5 para 20 dias. A ampliação será gradual, sinalizando que o cuidado com os filhos é uma responsabilidade familiar e social.
Quando o pai assume um papel ativo desde o início, a percepção de "risco" na contratação de mulheres diminui, combatendo a ideia de que a ausência para cuidar de um filho deve recair apenas sobre um dos gêneros.
Diante das portas fechadas e da rigidez do mercado tradicional, o empreendedorismo surge como uma estratégia de sobrevivência e reinvenção. De acordo com o Sebrae e a Rede Mulher Empreendedora (RME), cerca de 75% das mulheres brasileiras que decidem abrir um negócio próprio o fazem após a chegada dos filhos, motivadas pela necessidade de gerar renda após demissões ou pela busca de uma flexibilidade.
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Assim como Liza Miller descobre que seu valor real reside na maturidade que tentou esconder, a sociedade precisa compreender que a maternidade e a experiência acumulada ao longo dos anos não são hiatos de produtividade, mas sim fontes de inovação e liderança essenciais para qualquer economia que se pretenda sustentável e justa.
