Há momentos na vida em que precisamos parar, respirar e recalcular a rota. Isso vale para a maternidade, vale para a vida profissional e valeu, também, para o nosso coletivo. Em 2026, ano em que completamos 15 anos de uma história lindíssima e intensa, tenho a alegria de anunciar que as portas do nosso grupo no Facebook estão reabertas. O ‘Padecendo no Paraíso’ voltou.
O arquivamento do grupo, há algum tempo, não foi uma decisão fácil, mas foi necessária. Quem esteve conosco nas trincheiras da maternidade real ao longo da última década sabe como o ambiente digital se transformou. Fomos engolidos por uma voraz polarização política que contaminou até os espaços mais sagrados de troca. O que era para ser colo virou campo de batalha; o desabafo sobre a noite mal dormida dava lugar a disputas ideológicas que nos afastavam do nosso propósito inicial.
Sim, eu sempre achei importante falar sobre política, porque quando nos alienamos, damos chance para ditarem as regras por nós. E se mulheres não se envolvem na política, seguiremos sendo governadas por homens que perpetuam machismos. Naquele momento, fechar as portas foi um ato de preservação da saúde mental coletiva, e da minha também, afinal, além de tudo, eu estava em tratamento oncológico. Todas nós estávamos exaustas não só de criar filhos, mas de tentar mediar conflitos em um mundo que parecia ter esquecido como dialogar com amor.
No entanto, o silêncio que se seguiu ao arquivamento nos mostrou algo fundamental: a falta que faz um porto seguro. Recebi inúmeras mensagens de mães que se sentiam órfãs de um espaço onde pudessem confessar suas angústias sem julgamentos, onde o "filtro do Instagram" não existisse, e que não fosse regido por algoritmos, mas de necessidades e urgências femininas. A maternidade solitária é adoecedora, e a ausência da nossa aldeia digital deixou muitas mulheres vulneráveis novamente.
Nos últimos anos vimos a escalada da violência contra a mulher, o aumento do número de feminicídios, e isso gerou uma angústia muito grande em muitas de nós. A internet se contaminou pela misoginia, por mensagens de ódio, e se tornou um ambiente propício para o adoecimento psíquico. Decidimos voltar porque a necessidade de conexão genuína é maior do que o cansaço. Voltamos para celebrar nossos 15 anos resgatando a essência do que nos uniu lá em 2011.
Mas voltamos com um aprendizado crucial: para que a união pelo amor prevaleça, precisamos blindar nosso santuário. O cenário lá fora ainda é de muita divisão, e essa polarização continua atrapalhando a empatia. Por isso, o novo ‘Padecendo no Paraíso’ renasce com um pacto de retorno às origens. Seremos, novamente, o lugar para falar da febre na madrugada, da dificuldade com a amamentação, dos desafios com os adolescentes, da sobrecarga mental, dos problemas com os maridos, da falta de libido, e da solidão materna.
O lugar do post anônimo que salva vidas, do conselho prático, da risada compartilhada sobre nossos próprios "perrengues". Para que esse acolhimento seja pleno, a política partidária e as grandes disputas ideológicas ficarão da porta para fora. Não por alienação, mas por sobrevivência. Precisamos de um lugar onde o que nos une seja mais forte do que o que nos separa.
Convido todas vocês, as veteranas e as recém-chegadas, a ocuparem novamente este espaço. O paraíso reabriu. Vamos padecer (e ser felizes) juntas, mais uma vez.
Sejam bem-vindas de volta para casa.
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