Há algo curioso acontecendo nas redes sociais. Uma parte da geração Z parece ter decidido voltar para 2016. De repente, fotos com filtros antigos, músicas que marcaram a década passada, celulares de modelos ultrapassados e referências à cultura pop daquela época reaparecem com força no TikTok, no Instagram e em outras plataformas.


Mais do que simples onda de nostalgia, o fenômeno revela a relação particular dos jovens com o passado recente. Para quem hoje tem entre 16 e 29 anos, 2016 pode parecer distante o suficiente para ser lembrado como uma época mais simples, embora próxima o bastante para ainda fazer parte da memória pessoal. Pode-se dizer que o ano ganhou status quase mítico nas redes.


Naquele momento, a internet já ocupava papel central na vida cotidiana, mas isso não era tão intenso como hoje. O TikTok não existia, os vídeos curtos não haviam conquistado o protagonismo absoluto e o Instagram tinha aparência muito diferente.


As redes eram mais espontâneas, pelo menos na percepção de quem olha para aquele período com os olhos de hoje. Havia menos preocupação em transformar cada publicação em conteúdo cuidadosamente produzido e menos pressão para acompanhar tendências em velocidade permanente.


Canções que foram sucesso naquele ano voltaram a circular em vídeos e montagens, muitas vezes acompanhadas por imagens de celebridades, festas, séries e acontecimentos culturais da época. O retorno dessas referências não significa necessariamente que a geração Z queira viver em 2016.

Em muitos casos, trata-se de uma tentativa de recuperar a sensação associada àquele período. Para adolescentes e jovens adultos, o ano pode representar a infância ou o início da adolescência, uma fase anterior a mudanças profundas provocadas pela pandemia, pela hiperconectividade e a transformação acelerada das redes sociais.


Existe um componente coletivo nessa lembrança. Quem cresceu conectado aprendeu a experimentar a nostalgia por meio de arquivos digitais. Fotos antigas, vídeos, memes e postagens continuam disponíveis e podem ser redescobertos a qualquer momento. O passado permanece armazenado na internet, pronto para ser reeditado.


A estética de 2016 também ajuda a explicar o fenômeno. Roupas, penteados, filtros, capas de álbuns, aplicativos e formatos de fotografia associados à época vêm sendo recuperados e reinterpretados. É uma espécie de arqueologia digital. Coisas relativamente recentes passam a parecer antigas porque a velocidade da internet tornou obsoleto o que antes durava anos. Há pouco tempo, referências de 2016 ainda eram consideradas contemporâneas. Agora, pertencem ao passado pop.


A obsessão por 2016 diz menos sobre o desejo de voltar ao passado e mais sobre a maneira como a geração Z negocia seu presente. Ao recuperar imagens, músicas e hábitos de uma década atrás, esses jovens estão construindo uma narrativa sobre quem eram e sobre o que mudou desde então.

No fundo, toda nostalgia é uma forma de comparar o passado com o presente. E talvez seja justamente por isso que 2016 tenha se tornado tão atraente agora. Não porque tenha sido necessariamente melhor, mas porque, visto de 2026, representa uma época suficientemente próxima para ser reconhecida e suficientemente distante para parecer perdida.


A internet transformou o passado em arquivo permanente. A geração Z transformou esse arquivo em matéria-prima para construir identidade, humor e pertencimento. O passado voltou a ser tendência porque, na internet, até 10 anos podem ser tempo suficiente para transformar memória em moda.

 

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* Isabela Teixeira da Costa/Interina

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