Não estamos apenas lendo menos, estamos aproveitando menos o que lemos. Mas será verdade? A resposta, receio, é "sim" e "não", e as explicações para o que isso significa não são boas. E o pior é que o cenário é mundial.

Em um dos estudos mais abrangentes disponíveis, realizado ao longo de 20 anos (2003-2023), pesquisadores da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos acompanharam os hábitos de leitura de cerca de 230 mil americanos, com 15 anos ou mais.

O que eles descobriram foi que, nos últimos 20 anos, os americanos têm lido menos – muito menos, especialmente quando a leitura era por prazer e não por trabalho. Entre todos os entrevistados, o tempo médio gasto diariamente com leitura por prazer caiu de 25 minutos em 2003 para cerca de 15 minutos em 2023.

A queda no número total de indivíduos que leem ativamente por prazer é ainda mais preocupante: de 2003 a 2023, esse número despencou de 28% dos entrevistados para 17%. E o estudo revelou que o tempo médio que todos os participantes dedicavam à leitura para crianças era de cerca de um minuto por dia. Apenas 2% dos entrevistados no estudo disseram ler regularmente para uma criança, em média cerca de 28 minutos por dia.

A leitura e a escrita não são comportamentos naturais para nós, humanos. Ambas exigem a memorização de símbolos abstratos – letras e sinais de pontuação – e, em seguida, a reorganização intencional desses símbolos em outros símbolos – palavras e frases – que, por sua vez, representam conceitos. Ambas as habilidades exigem pensamento profundo e persistente e, dada a dificuldade cognitiva desses processos, é surpreendente que tenhamos nos dado ao trabalho de aprender a ler e escrever.

Nossa capacidade de nos alfabetizarmos e, em seguida, transmitirmos essa habilidade às gerações subsequentes foi um pré-requisito absoluto para o raciocínio avançado empregado na teologia, filosofia, história e, depois, na ciência. Disciplinas essas, pilares da nossa democracia ocidental contemporânea e da nossa sociedade avançada.

Segundo o professor de Filosofia da Emory University David Marriott, um dos nomes contemporâneos mais influentes nos EUA associados à literatura, se acabarmos com os hábitos de leitura e reflexão que sustentam esses alicerces, vai acontecer um retrocesso para um discurso público mais emotivo, irracional e tribal; ou seja, “todos os hábitos disruptivos que encontramos nas aldeias de sociedades analfabetas, bem como na maioria das plataformas de mídia social. Ambos são lugares onde o carisma estrondoso se sobrepõe ao pensamento lógico e racional”.

Infelizmente, o cenário no Brasil não é diferente. Apesar do sucesso da 28ª Bienal do Livro de São Paulo no início do mês – bateu recorde histórico com 760 mil visitantes –, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil mostrou que 53% da população não leu nenhum livro nos três meses anteriores à consulta.

Apesar dos corredores lotados na feira, levantamentos do Instituto Pró-Livro indicam um cenário de alerta. Mais da metade dos brasileiros não leem livros inteiros ou em partes. O país perdeu milhões de leitores em um intervalo de cinco anos, com redução do interesse motivada por falta de tempo, cansaço ou preferência por telas e redes sociais.

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Apesar do sucesso da Bienal, não podemos nos deixar enganar, porque o público que visita o evento é altamente engajado e não reflete a média geral da população brasileira.

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