Anna Marina*
Anna Marina*
ANNA MARINA

Estamos na era da ambiguidade estética

O fenômeno do luxo silencioso e a ascensão do estilo casual no trabalho embaralharam os velhos sinais emitidos pelas roupas que escolhemos usar

Publicidade

Mais lidas

A roupa sempre foi o primeiro bilhete de visita que entregamos ao mundo. A sua imagem é o seu cartão de visita, a forma como você se veste diz quem você é, e quem te vê leva apenas oito segundos para fazer um pré conceito de você, baseado em seu jeito de vestir, no seu cabelo e nos acessórios que usa.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover


Teve um tempo em que decifrar esse papel não exigia muito esforço. Bastava observar o corte de um casaco, o tipo de tecido ou o brilho de um sapato para saber a classe social, a profissão e até de onde era.


Nessa época, a moda operava sob uma lógica rígida. A elite ostentava sedas, rendas e brocados. As classes trabalhadoras usavam panos pesados e funcionais, próprios para resistir ao desgaste do dia a dia. Era possível ver a hierarquia apenas observando quem andava pelas ruas e a margem para a dúvida era quase zero.


O século 20 começou a desmontar esse código preestabelecido. A industrialização da confecção e o surgimento do prêt-à-porter democratizaram o acesso às tendências e cortes sofisticados. De repente, a cópia rápida de um vestido de alta-costura permitia que pessoas de diferentes classes compartilhassem a mesma estética. A roupa deixava de ser apenas uma certidão de nascimento socioeconômica para se tornar um espaço de escolha.


A cultura jovem dos anos 1960 e 1970 transformou a moda em um manifesto de identidade e valores. Calças jeans, jaquetas de couro e camisetas estampadas eram sinal de adesão a movimentos socioculturais, gostos musicais e posturas políticas. Olhar para as roupas de alguém ainda permitia adivinhar quem essa pessoa era, seu pensamento e estilo de vida, mas não indicava sua conta bancária.


Hoje, estamos na era da ambiguidade estética. O fenômeno do luxo silencioso e a ascensão do estilo casual no trabalho embaralharam os velhos sinais. Um bilionário pode vestir uma camiseta genérica e um tênis esportivo simples, enquanto um jovem da periferia compra uma peça de streetwear com logotipo estampado. A aparência não entrega a renda nem o status social.


Em uma semana, uma pessoa pode alternar entre o estilo esportivo, o clássico e o minimalista. A roupa se transformou em uma “fantasia” que pode mudar dependendo do humor do dia ou da imagem que se quer passar em um determinado momento ou lugar.


Se no passado a posição social definia o que vestíamos, hoje o ato de vestir é uma tentativa de criar quem gostaríamos de ser. Usamos as roupas como uma camada de proteção ou como um palco, escondendo o que desejamos esconder atrás de peças que mudam ao nosso bel prazer.


Olhar para alguém na rua hoje e tentar deduzir sua vida somos fadados ao erro. A alfaiataria impecável pode ser alugada para um evento, e o casaco puído pode ser um item de brechó de alto valor conceitual. As aparências não apenas enganam; elas foram propositalmente desenhadas para misturar pistas e confundir o observador.


A roupa perdeu a função de espelho fiel da realidade socioeconômica, mas ganhou em liberdade narrativa. O guarda-roupa virou um território de invenção pessoal. Somos o que escolhemos parecer no intervalo entre uma peça e outra.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

* Isabela Teixeira da Costa/Interina

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay