Estamos na era da ambiguidade estética
O fenômeno do luxo silencioso e a ascensão do estilo casual no trabalho embaralharam os velhos sinais emitidos pelas roupas que escolhemos usar
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A roupa sempre foi o primeiro bilhete de visita que entregamos ao mundo. A sua imagem é o seu cartão de visita, a forma como você se veste diz quem você é, e quem te vê leva apenas oito segundos para fazer um pré conceito de você, baseado em seu jeito de vestir, no seu cabelo e nos acessórios que usa.
Teve um tempo em que decifrar esse papel não exigia muito esforço. Bastava observar o corte de um casaco, o tipo de tecido ou o brilho de um sapato para saber a classe social, a profissão e até de onde era.
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Nessa época, a moda operava sob uma lógica rígida. A elite ostentava sedas, rendas e brocados. As classes trabalhadoras usavam panos pesados e funcionais, próprios para resistir ao desgaste do dia a dia. Era possível ver a hierarquia apenas observando quem andava pelas ruas e a margem para a dúvida era quase zero.
O século 20 começou a desmontar esse código preestabelecido. A industrialização da confecção e o surgimento do prêt-à-porter democratizaram o acesso às tendências e cortes sofisticados. De repente, a cópia rápida de um vestido de alta-costura permitia que pessoas de diferentes classes compartilhassem a mesma estética. A roupa deixava de ser apenas uma certidão de nascimento socioeconômica para se tornar um espaço de escolha.
A cultura jovem dos anos 1960 e 1970 transformou a moda em um manifesto de identidade e valores. Calças jeans, jaquetas de couro e camisetas estampadas eram sinal de adesão a movimentos socioculturais, gostos musicais e posturas políticas. Olhar para as roupas de alguém ainda permitia adivinhar quem essa pessoa era, seu pensamento e estilo de vida, mas não indicava sua conta bancária.
Hoje, estamos na era da ambiguidade estética. O fenômeno do luxo silencioso e a ascensão do estilo casual no trabalho embaralharam os velhos sinais. Um bilionário pode vestir uma camiseta genérica e um tênis esportivo simples, enquanto um jovem da periferia compra uma peça de streetwear com logotipo estampado. A aparência não entrega a renda nem o status social.
Em uma semana, uma pessoa pode alternar entre o estilo esportivo, o clássico e o minimalista. A roupa se transformou em uma “fantasia” que pode mudar dependendo do humor do dia ou da imagem que se quer passar em um determinado momento ou lugar.
Se no passado a posição social definia o que vestíamos, hoje o ato de vestir é uma tentativa de criar quem gostaríamos de ser. Usamos as roupas como uma camada de proteção ou como um palco, escondendo o que desejamos esconder atrás de peças que mudam ao nosso bel prazer.
Olhar para alguém na rua hoje e tentar deduzir sua vida somos fadados ao erro. A alfaiataria impecável pode ser alugada para um evento, e o casaco puído pode ser um item de brechó de alto valor conceitual. As aparências não apenas enganam; elas foram propositalmente desenhadas para misturar pistas e confundir o observador.
A roupa perdeu a função de espelho fiel da realidade socioeconômica, mas ganhou em liberdade narrativa. O guarda-roupa virou um território de invenção pessoal. Somos o que escolhemos parecer no intervalo entre uma peça e outra.
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* Isabela Teixeira da Costa/Interina
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
