Anna Marina*
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COMPORTAMENTO

Acidentalmente sem filhos

Muitas mulheres aprenderam a suprimir o anseio da maternidade, pois foram ensinadas a vê-lo como menos importante do que a realização individual

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Esta semana, me deparei com o depoimento muito bonito de uma mulher que lutou muito para alcançar sucesso na carreira – e conseguiu. Destacou-se no mundo dos restaurantes e cozinhas profissionais, dominado pelos homens. Ela afirmou que poderia, facilmente, ter se tornado o que chama de “acidentalmente sem filhos”.

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Ela teve o primeiro filho depois dos 37 anos e conseguiu ter mais três. Em seu depoimento, diz que tem visto mulheres conscientemente rejeitando ou adiando a maternidade. Carreira primeiro. Estabilidade primeiro. Viagem primeiro. Liberdade financeira e autodesenvolvimento em primeiro lugar. De repente, a janela de fertilidade começa a se fechar silenciosamente.

Alguns de seus amigos íntimos encontraram parceiros amorosos depois dos 40, mas as crianças nunca vieram. Outros se casaram no final dos 30, achando que teriam filhos facilmente, mas gastaram fortunas em tratamentos de fertilidade que falharam.

O que chamou sua atenção foi muitos dizerem que nunca quiseram filhos. Talvez para alguns isso seja verdade. Mas ela suspeitou de uma coisa que eu também penso: muitas mulheres simplesmente aprenderam a suprimir o anseio que foram ensinadas a ver como menos importante do que a realização individual.

Sei, como ela, que a maternidade não é possível para todos. Algumas mulheres, de fato, optam por não ter filhos de forma bem consciente, mas outras adiam o grande desejo até ter uma vida ideal ou bem-sucedida. Isso “empurra” a maternidade para a época em que a fertilidade já está em declínio.

Naturalmente, devido às mudanças da sociedade, a mulher está se casando mais tarde e quer aproveitar um pouco a vida de casada antes de engravidar. Isso tem levado à demora maior da gravidez quando ela opta por ter filhos.

A mulher que fez o depoimento afirmou que, para ela, nenhum sucesso ou riqueza se iguala à alegria de ter filhos, de ouvir alguém chamá-la de mãe. “Nada se compara a criar vida, carregá-la, alimentá-la, protegê-la e observar pedaços de si mesma se movendo pelo mundo em outro ser humano.”

Ela diz que, na verdade, a biologia não se curva inteiramente à ideologia, ao tempo de carreira, à prontidão financeira ou ao estilo de vida moderno. Nossas melhores chances, geralmente, ainda são encontradas na juventude, mesmo que nossa cultura trate a juventude como um tempo exclusivamente para autoexploração e independência.

Muitas vezes, sobretudo entre os amigos mais progressistas, ela vê que o instinto é redirecionado para o ativismo, causas sociais e proteção de vulneráveis. Não questiona que muitos desses esforços venham de genuína compaixão e boas intenções. Mas também acha que parte disso pode se tornar energia materna descabida, desvinculada da família e redirecionada para a própria sociedade.

Ela se pergunta se nossa cultura confundiu liberdade com realização apenas para muitas pessoas descobrirem, tarde demais, que as duas não são a mesma coisa.

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* Isabela Teixeira da Costa/Interina

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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