Anna Marina*
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MEMÓRIAS

As "viagens" de Roberto Drummond

Participantes de homenagem para Roberto, na Savassi, relembraram passagens com ele. Contei como fui vítima de uma de suas ideias mirabolantes

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Toda vez que encontro Lauro Diniz, ele fala que tenho de escrever sobre a viagem que fiz com meu amigo e colega, o saudoso jornalista e escritor Roberto Drummond (1933-2002). Tudo fruto da homenagem que um grupo de jornalistas fez para Roberto, na Savassi – claro –, onde cada um contou uma passagem com ele. Eu contei um caso que ninguém conhecia. Como foi bem intenso, terá de ser em mais de uma coluna.

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O ano era 1982. Nós na redação deste jornal, trabalhando. Ouço Roberto falando que ia para Juiz de Lançaria um livro no projeto literário da Fiat, que reuniria dois autores de regiões diferentes do país.

O carro da montadora iria levá-lo e voltaria no dia seguinte. Viagem bate e volta.

Como tinha amigos lá, pedi carona. Corri em casa, peguei a mochila e fomos, eu, Roberto Drummond e o músico Alexandre Salles.

Roberto tinha medo de estrada. Fomos a 40km por hora. Chegamos atrasados e, para piorar, chovia a cântaros em Juiz de Fora. Impossível alguém transitar na cidade. Com isso, não consegui subir para a casa das minhas amigas. Hotel lotado e Roberto sugeriu que eu me aprontasse para ir ao lançamento com eles. E assim foi.

Quando Roberto me viu arrumada, teve uma de suas ideias mirabolantes – ou malucas, chamem como quiserem. A partir daquele momento, eu não me chamaria Isabela, mas Caroline Cooper, jornalista do New York Times que veio ao Brasil fazer matéria sobre a Amazônia ou algo que o valha. Não me lembro bem.

Tentei demovê-lo da loucura, porque ninguém acreditaria, mas quando Roberto Drummond metia uma coisa na cabeça... E completou que meu inglês estava na ponta da língua, pois tinha retornado do intercâmbio há pouco tempo.

E assim foi, apesar de meus protestos. Ele apresentou Caroline Cooper para todo mundo, inclusive para o diretor da Fiat. Chega uma equipe da Globo para cobrir o projeto, que era muito legal, por sinal. Afinal, dois gênios da literatura brasileira estavam na cidade: Roberto Drummond e João Ubaldo Ribeiro, de quem falarei um pouco mais na coluna de amanhã.

Durante a cobertura, o repórter toma conhecimento da presença da “colega americana”. Veio conversar comigo para entender melhor a minha viagem ao país. Estranhou o sotaque, saí pela tangente alegando que minha família era de origem latina. Estava com ódio do Roberto e do aperto que me fez passar.

A coisa piorou. O tal repórter queria fazer entrevista comigo para o “Fantástico”. Socorro! Só pensava em meu pai vendo isso, o rapaz sendo demitido e eu matando o Roberto Drummond. Alexandre conseguiu tirá-lo da mesa de autógrafos e ele contou a verdade para o nosso colega, que não parava de rir, nos chamando de loucos. E não é que o Roberto conseguiu fazer com que ele mantivesse a farsa?!

Depois dos autógrafos, a cúpula da montadora nos levou para jantar e o tal diretor, que suava bicas tentando conversar comigo, perguntava em português para o Roberto: se ele me desse um carro, eu passaria a noite com ele? Tive ódio, sem poder me manifestar, só olhando para Roberto para ele me tirar dali. Ele respondeu que não tinha a menor chance, fomos embora.

Hotel lotado, eu sem lugar para dormir. A solução conto amanhã.

Só para fechar, o caso do diretor da Fiat: tempos depois, desço à sala do meu pai, no jornal. Ele tinha visita, não me lembro por que me deixaram entrar. Adivinhem quem estava lá dentro... O tal diretor da Fiat. Não dava mais para fugir: fui apresentada a ele pelo meu verdadeiro nome, filha do diretor executivo da empresa.

Quando me viu, antes mesmo de meu pai falar qualquer coisa, ele passou de branco para vermelho e roxo, em segundos.

Cumprimentei, pedi licença, alegando não saber que havia visita, e saí correndo antes que caísse no chão de tanto que as pernas tremiam.

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* Isabela Teixeira da Costa/Interina

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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