A estranha competitividade do ser humano
As "competições" envolvem doenças, filhos, família e até desgraças. Parei de jogar buraco com amigos depois de presenciar brigas na mesa, até entre duplas...
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Que o ser humano é competitivo, todos nós sabemos. Uns mais, outros menos. Percebemos isso muito claramente nos atletas. Eles quase morrem, mas não desistem de uma prova, e quando isso é inevitável, sofrem profundamente. Parei de jogar buraco com amigos por ter presenciado várias brigas na mesa, inclusive entre a própria dupla. E jogo sem valer nada, só para distrair.
Estou acompanhando o torneio de tênis Australian Open. De alguns jogos vejo poucos sets, por serem de madrugada, acabo caindo no sono. Mas fiquei com pena do italiano Lorenzo Musetti, que estava ganhando do Novak Djokovic – dois sets para o italiano. Porém, teve de abandonar o terceiro set no meio porque sentiu dores na perna direita.
Se ganhasse o jogo, e tudo levava a crer que ganharia, seria a primeira vez que disputaria a semifinal do Grand Slam. Preferiu preservar a saúde, porque a dor poderia levar a uma lesão grave caso insistisse na partida. Deve ter sido duro para ele.
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Passei dos 60 anos e, como eu, a maioria das minhas amigas. Nessa idade, é raro não sentirmos uma dorzinha aqui e outra ali. Faz parte da vida, mas levamos tudo na boa; se não for nada grave, nem comentamos. Afinal, nada mais chato do que uma pessoa reclamando, todo dia, de algo.
Infelizmente, tenho ido a muitos velórios nos últimos meses. Na maioria das vezes, o falecido partiu por causa de alguma doença, e no velório sempre se comenta o que ocorreu, como foi, como ele estava.
Comecei a observar que algumas pessoas, assim que ouvem o relato de alguém sobre qualquer doença, sentem a necessidade vital de contar algum caso – geralmente, sobre elas mesmas –, sugerindo que o que passaram foi muito mais grave, prolongado e delicado do que o problema do outro. Agora estão bem, mas em tratamento. Sinceramente, disputar doença é demais para mim.
Tenho uma amiga que é dessas, tudo dela é melhor. Os filhos, os netos e as doenças. Quando o grupo se reúne, conversa vai, conversa vem, fico só esperando e observando. Se o assunto cai em filhos, é batata. Alguém conta que o filho foi promovido, conseguiu emprego novo, vai se casar. A filha está grávida.
Não importa o que seja, positivo ou negativo, assim que tem oportunidade, ela começa a exemplificar o caso, tomando como modelo superior – claro – seu rebento.
Se o assunto for doença, ela nada de braçada. Qualquer uma que for, ela já teve outra mais delicada, mais grave e com consequências maiores. Só não serão maiores se for caso de morte.
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Fico pensando: que necessidade é essa de ser mais do que o outro? Tão grande que até em situação negativa está valendo. Essa competição eu realmente não consigo entender. Alguém me explica?
* Por Isabela Teixeira da Costa
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
