No último domingo, fomos convidados a refletir sobre o significado da Páscoa. Para além das tradições, ela nos lembra da passagem. Do hebraico Pessach, representa travessia, morte e renascimento.
O ser humano é um ser de passagem. Estamos em constante movimento. Mudamos de lugar, ambiente, fase, relações e estados internos. Essa é a nossa natureza. Ao longo da vida, deixamos para trás histórias, vínculos e versões de nós mesmos, enquanto abrimos espaço para o novo. Muitas vezes, o maior desafio não está na mudança, mas na resistência em permitir que ela aconteça.
- Quando educar deixou de ser intuitivo
- Não leve tudo a ferro e fogo, desenvolva sua escuta seletiva
- Quem somos nós diante da cadeira de juiz?
Diante dessa reflexão, lembro-me de Carlos Castaneda, que nos convida a ter a morte como conselheira. Quando olhamos para a finitude dessa forma, nossas escolhas ganham mais verdade. Vivemos com mais consciência e mais presença. Essa percepção reorganiza o olhar e amplia o valor do que antes parecia simples. A companhia de quem amamos, o descanso ao final do dia, um novo aprendizado, os pequenos gestos que, na pressa, passam despercebidos.
Vivemos em uma sociedade que valoriza o acúmulo e sustenta a ideia de que tempo é dinheiro. No entanto, diante da brevidade da vida, o que permanece é o que foi vivido, sentido e experimentado, e não os bens acumulados.
Aceitar a finitude também é aprender a lidar com as perdas, sejam elas de pessoas, de sonhos ou de formas antigas de quem fomos. Como aponta Freud, o luto faz parte do processo. É ao elaborar a perda que nos tornamos disponíveis para o novo.
Ao longo da vida, habitamos diferentes ciclos. Infância, juventude, carreira, relações. Em cada etapa, algo em nós se encerra para que outra forma de vida possa surgir. Crescemos a partir dessas despedidas, que ampliam nossa consciência e fortalecem nossa identidade.
Para mim, essa compreensão não é apenas teórica. A perda precoce da minha mãe transformou profundamente o meu olhar. A dor deu um novo sentido ao meu caminho e me ensinou a valorizar o que foi vivido, ao mesmo tempo em que me convida a honrar cada instante. Como ensina Bert Hellinger, honrar aqueles que vieram antes de nós é parte essencial de viver bem. É dessa fonte que recebemos a vida, a força e os recursos para seguir.
Hoje, às vésperas de celebrar meu aniversário, reconheço esse marco como expressão desse movimento contínuo da vida.
O aniversário deixa de ser apenas uma contagem de tempo e se torna um convite à consciência. Um convite para reconhecer o que já não faz mais sentido sustentar e abrir espaço para aquilo que pede renovação.
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É o momento de deixar ir o que pesa e permanecer com o que sustenta. Sair do automático e escolher com mais presença.
Não cheguei até aqui sendo a mesma pessoa.
A vida foi retirando excessos.
Expectativas.
Padrões.
Ilusões.
Nesse processo, fui me aproximando de quem sou.
Nem sempre foi simples sustentar escolhas.
Nem sempre foi confortável enxergar o que precisava ser visto.
Mas foi necessário.
Hoje existe mais clareza.
Sei o que faz sentido.
Reconheço o que não faz mais.
Respeito meu ritmo.
Escuto minha intuição.
Escolho com mais verdade.
Não sou a mesma de antes.
Ainda bem.
Sigo mais leve.
Mais consciente.
Mais inteira.
Se há algo que esse caminho me ensinou
é que crescer não é chegar.
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