O reservatório de uma hidrelétrica ocupa 2.360 km² na Amazônia, mas o que acontece sob suas águas desafia a ideia de energia limpa e expõe um dilema climático
Estudos revelam como a floresta submersa gerou descobertas cruciais sobre emissões; entenda o impacto real da hidrelétrica para o futuro sustentável
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A Usina Hidrelétrica de Balbina, concluída em 1989 no coração da Amazônia brasileira, foi projetada para abastecer Manaus e apoiar o desenvolvimento regional. A obra exigiu a inundação de 2.360 quilômetros quadrados de floresta tropical. Apesar da capacidade instalada de 250 megawatts no papel, a estrutura entrega em média apenas 109 megawatts, rendimento comparável ao de poucas turbinas eólicas modernas operando em boas condições.
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Decomposição submersa e geração de metano
Milhões de árvores e plantas ficaram submersos quando as comportas se fecharam. Essa biomassa apodrece lentamente em um ambiente privado de oxigênio. A decomposição anaeróbica favorece a formação de metano em vez de dióxido de carbono. Trabalhos do pesquisador Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, indicam que a vegetação submersa faz a usina emitir mais gases de efeito estufa do que uma central térmica equivalente.
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Dados de 2011, divulgados pelo pesquisador Alexandre Kemenes e sua equipe, mostram que as emissões anuais chegam a cerca de 3 teragramas de carbono. A quantidade representa quase a metade do total gerado pela queima de combustíveis fósseis em uma grande metrópole brasileira. Medições realizadas em 2005 detalham esse volume: 2.450 gigagramas foram emitidos a montante e 81 gigagramas a jusante, somando 2.531 gigagramas de carbono no ano.
Liberação acelerada nas turbinas
Cerca de 51 por cento das emissões a jusante ocorrem durante a passagem da água pelas turbinas. Ao agitar o líquido carregado de compostos dissolvidos, o maquinário libera bruscamente o metano acumulado no fundo da represa, em dinâmica similar ao movimento de agitar uma garrafa de refrigerante antes de abri-la.
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Um estudo ampliado identificou que entre 15 e 17 por cento das represas monitoradas superam usinas a carvão em emissões após duas décadas de operação. Também na Amazônia, o reservatório de Tucuruí registrou em 1990 índices poluentes várias vezes maiores que os de uma central térmica equivalente. Análises de cientistas da Universidade de São Paulo sobre a represa de Belo Monte confirmam que Balbina lança mais gases que estruturas térmicas de mesma capacidade produtiva.