Energia eólica sem torres
Suspenso a dois quilômetros de altura, o S2000 é uma proposta ousada, mas será que ousada demais?
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O crescimento da energia eólica é um importante elemento da transformação energética, mas à medida que avançou, alguns problemas foram se tornando mais importantes. As torres ocupam espaço e competem por ele com outras atividades econômicas, com comunidades ou povoados.
Do ponto de vista ambiental, a maioria das turbinas está na Caatinga, bioma que não tem o mesmo nível de proteção legal da Amazônia ou Mata Atlântica, e para piorar estima-se que até 2050 serão geradas 43 milhões de toneladas de lixo difícil de tratar. Além disso, os geradores geram ruído, sombra estroboscópica e matam centenas de milhares de aves e morcegos por ano.
Há também limites contextuais importantes, já que perto do solo o vento é lento e turbulento, normalmente fica longe dos locais de locais com consumo mais intenso, dependendo, portanto, de transmissão cara e demorada de licenciar.
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Na tentativa de resolver parte desses problemas, uma empresa chinesa teve uma ideia inusitada: ergueu um dirigível de hélio de 60 metros, com 12 turbinas eólicas, a 2.000 metros de altura, preso por cabos de aço. O gerador usa uma asa anular que acelera o vento, pode operar em área urbana, com baixo ruído e, segundo a empresa, tem potência nominal de até 3 megawatts, ou seja, energia suficiente para atender em torno de 12 mil residências.
A ausência de torre e fundação diminuiria a demanda por espaço e permitiria que a infraestrutura fosse alocada mais próximo das áreas onde a energia é consumida.
Doze rotores pequenos exigiriam uma fração do material compósito que uma pá de oitenta metros exige, reduzindo substancialmente a geração de resíduos. A dois quilômetros do chão, o ruído é menor, não tem geração de sombra estroboscópica e aproveita um fluxo de ar mais constante e com menos turbulência.
No entanto, operar nessa altitude também impõe desafios mecânicos relevantes.
Os cabos precisam suportar simultaneamente o peso da estrutura, esforços causados por ventos de diferentes direções, vibrações induzidas pela própria operação e descargas atmosféricas; o hélio, gás que faz o balão flutuar, só é produzido naturalmente, demanda milhões de anos para se formar ento radioativo de elementos e é, portanto, finito e insustentável; o material que compõe o dirigível não é necessariamente mais fácil de reciclar ou reutilizar; e um objeto permanente na camada de voo, ancorado por cabos, ocupa espaço aéreo controlado e pode gerar acidentes com impacto relevante, sem contar que não se sabe ainda quais seriam seus impactos para aves migratórias.
O precedente da Makani, empresa de eólica aerotransportada da Alphabet, encerrada em 2020 demonstra que viabilidade técnica e viabilidade econômica são desafios diferentes. Para ser bem-sucedida uma tecnologia precisa conciliar aspectos técnicos, econômicos, sociais e ambientais.
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Enquanto não houver respostas para essas questões, é importante tratar o S2000, nome dado ao dirigível chinês, com certa cautela. A história da energia mostra que demonstrar uma tecnologia é apenas o primeiro passo. Entre o conceito e a aplicação em larga escala há um longo caminho a ser percorrido.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
