O que o país destaque da Copa pode ensinar ao Brasil?
Enquanto Cabo Verde transforma a falta d'água em laboratório de inovação, o Brasil desperdiça seus recursos por comodismo
Mais lidas
compartilhe
SIGA NO
No dia 3 de julho, uma seleção que representava pouco mais de 500 mil pessoas levou a Argentina ao limite e vendeu caro, pelo placar de 3 a 2, um jogo que parou o mundo. Dois dias depois, o Brasil, um país de 215 milhões de pessoas, com um dos maiores orçamentos de futebol do planeta, perdeu para a Noruega por 2 a 1, deixando a sensação de que o time não tinha sequer entrado em campo. É tentador reduzir tudo a um resultado esportivo e seguir em frente. Mas essa combinação de organização, garra e disposição de enfrentar o impossível, que Cabo Verde mostrou em campo, é exatamente o que o arquipélago tem feito fora dos gramados nas últimas décadas.
Leia Mais
Cabo Verde não tem rios, não tem aquíferos significativos e apesar de possuir dez pedaços de terra circundados por água de todos os lados, sofreu na década de 1940 uma seca que matou 20% da população. Mas, depois dessa catástrofe humanitária, o país começou a construir uma das infraestruturas de dessalinização mais robustas do mundo.
O sistema é composto por plantas de osmose reversa, ou seja, a água do mar passa por uma captação e em seguida, é bombeada em alta pressão (em torno de 50 bar, o equivalente a quase 50 vezes a pressão atmosférica), através de membranas semipermeáveis com poros de 0,0001 mícron. Essas membranas deixam passar as moléculas de água, mas retêm sais, minerais, bactérias e vírus. O resultado é dividido em dois fluxos: água limpa de um lado, e uma salmoura concentrada do outro. O problema é que para executar esse processo é necessário superar a pressão osmótica da água do mar e isso consome uma quantidade significativa de energia. Para se ter uma ideia, um sistema convencional consome entre 7 e 10 kWh por metro cúbico produzido.
Em uma ilha, não é fácil produzir tanta energia. Por isso, durante quatro décadas toda essa energia vinha de centenas de navios carregados de diesel que ancoravam nas ilhas. Em 2018, um projeto piloto (50 mil litros por dia), na ilha de Santo Antão, começou a mudar esse cenário. Em 2022, na ilha de Maio, foi inaugurada a primeira usina de grande porte (800 mil litros por dia) para dessalinização movida a energia renovável.
Atualmente, 20% da rede elétrica do país é composta por renováveis, principalmente solar (quase 350 dias de sol pleno no ano) e eólica (diversas ilhas estão na faixa de ventos alísios que sopram continuamente). A meta nacional é atingir 50% de renováveis na matriz até 2030 e 100% até 2040 e para que isso seja possível todo sistema de dessalinização precisa avançar rapidamente, já que hoje 90% da população depende desse sistema para obter água potável. Outro ponto importante de notar é que embora os projetos continuem recebendo investimento estrangeiro, a tecnologia utilizada é própria do país.
Mas devemos pensar em dessalinização como solução mundial? E a resposta clara é não. O sistema é caro e complexo e para um país com a abundância hídrica do Brasil, o benefício dificilmente superaria os custos. Mas o que o sistema de Cabo Verde ensina é que a organização, determinação e vontade de enfrentar o impossível costuma gerar resultados muito importantes. Cabo Verde conseguiu garantir a sobrevivência dos seus cidadãos dominando uma tecnologia que poucos dominavam e que muitos consideravam impossível para um país pobre.
Do lado de cá do Atlântico, temos um país com água em abundância, sol o ano inteiro, ventos constantes no Nordeste, uma das maiores capacidades de geração renovável do planeta e mais de 30 bilhões de dólares em projetos de hidrogênio verde em desenvolvimento. Temos tudo o que Cabo Verde não tem, exceto a urgência e a vontade de vencer que fazem um país agir.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Na Copa do Mundo de 2026, Cabo Verde lembrou ao mundo o que a raça e a determinação de um povo podem fazer, enquanto o Brasil continua deitado eternamente em berço esplêndido. A letargia, o desinteresse e a preguiça não são traços apenas da seleção brasileira de futebol, eles estão presentes na maneira como o Brasil tem tratado seus recursos e o seu povo.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
