Câncer de próstata: pesquisa brasileira usa ouro radioativo contra a doença
Ouro minúsculo pode "mirar" melhor no tumor; cientista cria programa de computador que simula as partículas antes de elas serem fabricadas
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O câncer de próstata é o mais comum entre os homens no Brasil, sem contar o de pele. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) calcula 77.920 novos casos por ano entre 2026 e 2028. Isso representa 30,5% de todos os diagnósticos em homens. Somando todos os tipos de câncer, o país deve ter cerca de 781 mil novos casos por ano.
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Quando o tumor é descoberto cedo, as chances de cura são altas. Segundo o urologista Gilberto Laurino Almeida, da Sociedade Brasileira de Urologia, tumores localizados tratados com cirurgia têm estimativa de cura de até 98%. Enquanto isso, cientistas testam formas mais precisas de tratar a doença. Uma delas usa partículas de ouro radioativo com tamanho na faixa de 30 a 50 nanômetros, conforme a literatura científica. Na tese desenvolvida no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), as partículas mediram cerca de 47 nanômetros, mais de mil vezes mais finas que um fio de cabelo.
Para entender a ideia, é preciso saber o que é o câncer. No HofIn Podcast, o pesquisador Matheus Farias, do Ipen-USP, explica com uma comparação do dia a dia: “como se fosse um carro, ele tem um acelerador”, um gene que manda as células se multiplicarem. Mas o corpo também tem “um freio que fala: ‘Opa, pera aí, tá se multiplicando demais’”. Quando esse controle falha, as células passam a se dividir sem limite e formam o tumor.
A proposta da pesquisa é levar a radiação para perto do tumor, em vez de irradiar o corpo de fora. As partículas de ouro são “bombardeadas por nêutrons” em um reator nuclear e ficam radioativas. Depois, “coloca na próstata e deixa lá”, resume Matheus. Esse tipo de pesquisa é feito no reator do Ipen, com testes em células de tumor de próstata e em camundongos.
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O ouro tem uma história curiosa. Os romanos já o usavam, sem saber, em um copo do século 4. O vidro fica vermelho com luz por trás e verde com luz pela frente. O efeito vem de partículas minúsculas de ouro e prata dentro do vidro. Séculos depois, o físico Michael Faraday criou por acidente, em 1856, uma solução vermelho-rubi ao trabalhar com folhas de ouro. Para Farias, o interesse do cientista era outro: “o negócio dele era luz”.
Tratamentos com radiação perto do tumor também têm história. Matheus lembra que as sementes de iodo usadas hoje são “do tamanho de caroço de arroz”. No começo, eram colocadas sem imagem para guiar e “ninguém sabia” se estavam funcionando. A técnica evoluiu e “inclusive tem no SUS”, comenta. A parte nova, com o ouro, ainda é experimental.
Aqui entra a matemática. Como o ouro é caro, Matheus criou um programa de computador que simula as partículas antes de elas serem fabricadas. “É para evitar perda de tempo. O gasto com ouro, o ouro é muito caro”, disse. Ele reconhece que o caminho até os pacientes é longo: são seis etapas, e a esposa dele, física médica, lembrou que nem 500 ratos foram testados no mundo.
Mesmo assim, ele mantém a confiança: “A ciência é feita de tijolinhos.” Enquanto isso, a orientação segue a mesma: converse com um urologista sobre sua situação. O Inca não recomenda exames em massa para homens sem sintomas.
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