Se seu filho range ou aperta os dentes enquanto dorme, ele não é uma exceção. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2022, que reuniu 22 estudos e 13.076 crianças de diferentes regiões do Brasil, encontrou uma prevalência combinada de 25,8% de bruxismo do sono e em vigília.
O dado, no entanto, não significa que toda criança que range os dentes tenha um problema que precise de tratamento. Para a dentista Andréa Melo, mestre, doutora e especialista em odontologia do sono, o mais importante é entender quando o comportamento é apenas uma manifestação comum da infância e quando existem sinais que justificam uma investigação.
O assunto ganha destaque em outubro, mês das crianças e período que antecede o Dia Nacional da Saúde Bucal, celebrado em 25 de outubro.
“O ranger dos dentes é apenas uma das manifestações que podem ser observadas. Antes de pensar em tratamento, é fundamental compreender o que está acontecendo com aquela criança, como esse comportamento ocorre e quais outros sinais estão presentes.” explica Andréa.
O som produzido durante a noite costuma ser o primeiro sinal percebido pelos pais. Mas, segundo a especialista, não é suficiente para estabelecer sozinho um diagnóstico.
O bruxismo é um fenômeno multifatorial e pode estar relacionado a diferentes aspectos. Sono agitado, ronco, respiração pela boca, alterações respiratórias e fatores comportamentais estão entre os elementos investigados pela ciência.
“Não podemos olhar somente para os dentes e concluir que encontramos a causa. É preciso considerar o sono, a respiração, a rotina, aspectos comportamentais e outros fatores que podem estar envolvidos naquele caso”, afirma.
A literatura científica também aponta que a relação entre esses fatores é complexa e que ainda existem lacunas importantes sobre a melhor forma de avaliar e tratar o bruxismo em crianças.
5 sinais que os pais devem observar
Além do ranger dos dentes, alguns sinais podem indicar que vale conversar com um profissional:
1. Ranger ou apertar os dentes com frequência
Principalmente quando o comportamento acontece de forma recorrente durante o sono.
2. Desgaste ou alterações aparentes nos dentes
Mudanças na superfície ou na aparência dos dentes podem ser identificadas pelos pais ou durante o acompanhamento odontológico.
3. Dor de cabeça ao acordar
Quando ocorre repetidamente, pode ser uma informação importante para a avaliação.
4. Dor, cansaço ou desconforto na mandíbula
Queixas na região da face ou dos músculos da mastigação merecem atenção.
5. Sono agitado, ronco ou respiração pela boca
Esses sinais não confirmam o bruxismo, mas podem fornecer informações relevantes sobre a qualidade do sono e ajudar na investigação.
Atenção: a presença desses sinais não significa, isoladamente, que a criança tenha bruxismo. O diagnóstico depende de avaliação profissional.
Bruxismo não é simplesmente “uma mania”
Um dos principais desafios, segundo Andréa, é evitar que o comportamento seja tratado como um hábito isolado.
“A minha preocupação sempre foi entender como podemos tornar o diagnóstico mais preciso. Quando identificamos melhor o que está acontecendo, conseguimos tomar decisões clínicas mais conscientes e evitar que o paciente seja tratado apenas pelo sintoma”, explica.
Uma revisão sistemática sobre o tratamento do bruxismo do sono em crianças e adolescentes aponta que o quadro pode estar associado a consequências como desgaste dentário, dores de cabeça e dor ou fadiga dos músculos da mastigação. Os autores, entretanto, destacam a necessidade de mais evidências científicas para orientar tratamentos específicos nessa população.
O diagnóstico vem antes do tratamento
É nessa etapa que entra uma das principais frentes de pesquisa e atuação de Andréa Melo. A especialista desenvolveu o Exame da Placa Diagnóstica, ferramenta voltada à investigação dos padrões de atividade relacionados ao bruxismo durante o sono, e criou o Método DTC - Diagnóstico Diferencial, Tratamento e Controle, baseado na avaliação individual de cada caso.
A proposta é especialmente relevante quando se fala em crianças, já que a avaliação precisa considerar o estágio de desenvolvimento e as particularidades de cada faixa etária.
O que fazer se meu filho range os dentes?
Para Andréa Melo, o principal conselho aos pais é não entrar em pânico, mas também não ignorar sinais persistentes.
“Se os pais perceberem que o comportamento é frequente, que existe desgaste dos dentes ou que a criança apresenta algum desconforto ou alteração no sono, vale procurar um profissional para investigar. O mais importante é não tentar estabelecer sozinho se aquilo é ou não bruxismo e, principalmente, não iniciar um tratamento sem diagnóstico”, orienta Andréa.
O acompanhamento odontológico durante a infância permite observar o desenvolvimento da dentição e identificar alterações que podem precisar de investigação. A saúde bucal, nesse sentido, não se resume à prevenção de cáries: também envolve acompanhar hábitos, sono, respiração e possíveis sinais que interfiram no bem-estar da criança.
Informação ajuda a evitar diagnósticos precipitados
Para Andréa, ampliar o conhecimento sobre o bruxismo infantil é importante justamente porque o tema pode ser interpretado de maneira simplificada.
“Quando falamos de saúde bucal infantil, precisamos olhar para a criança como um todo. Informação de qualidade ajuda os pais a perceber os sinais e procurar ajuda no momento adequado, sem transformar um comportamento em diagnóstico ou, no sentido contrário, deixar uma alteração importante passar despercebida”, conclui.
Com mais de 2 mil profissionais formados e mentorados em 27 países, Andréa Melo atua na pesquisa e na educação em odontologia do sono. À frente da SIBX – Sociedade Internacional de Bruxismo, também desenvolve cursos, mentorias e conteúdos em português, inglês e espanhol.
Andréa alerta que ranger os dentes pode ser comum, mas compreender por que isso acontece é o primeiro passo para saber quando é necessário investigar.
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