As brincadeiras ao sol na infância, os dias de piscina na adolescência e as férias na praia sem protetor solar podem parecer lembranças distantes. Para a pele, porém, parte dessa história permanece. Os danos provocados pela radiação ultravioleta (UV) se acumulam e podem se manifestar décadas mais tarde, com manchas, rugas e alterações de textura, além de aumentar o risco de lesões pré-cancerígenas e câncer de pele.

É nesse sentido que se diz que a pele tem “memória”. Segundo o dermatologista mineiro Lucas Miranda, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, a expressão ajuda a explicar o caráter cumulativo da exposição solar. “A exposição à radiação ultravioleta provoca alterações nas células da pele e no DNA. O nosso organismo consegue reparar parte desses danos, mas esse mecanismo não é perfeito. Então, ao longo dos anos, algumas alterações vão se acumulando”, explica.

Assim, o que aparece na pele aos 50, 60 ou 70 anos pode estar relacionado também ao sol recebido na infância e na adolescência. “A pele, de certa forma, carrega esse histórico.”

Dano pode ser silencioso

Não é preciso haver vermelhidão, ardência ou descamação para que o sol cause danos. A radiação ultravioleta pode provocar alterações celulares mesmo sem uma queimadura perceptível.





“A radiação UVA penetra mais profundamente na pele e participa de processos relacionados ao envelhecimento cutâneo, enquanto a UVB está muito associada às queimaduras e ao dano direto ao DNA. As duas têm participação no desenvolvimento do câncer de pele”, explica Lucas Miranda.

A exposição cotidiana também entra nessa conta. Manchas, rugas, perda de elasticidade e mudanças na textura e tonalidade estão entre os sinais do fotoenvelhecimento, sobretudo em áreas mais expostas, como rosto, colo, braços e mãos.

O problema não é apenas estético. “Podem surgir lesões ásperas, avermelhadas ou descamativas que não desaparecem, como as queratoses actínicas, que são lesões pré-cancerígenas. Também podem aparecer diferentes tipos de câncer de pele.”

Os efeitos de uma vida inteira de exposição

A odontóloga Maria Neusa da Rocha, de 75 anos, cresceu em uma época em que a proteção solar não fazia parte da rotina. “Quando criança, peguei muito sol. Jovem, ia à praia e à piscina sem nenhum protetor solar." Décadas depois, manchas, rugas e sinais de envelhecimento fizeram com que procurasse acompanhamento dermatológico. “Só quando procurei o médico com a pele manchada e envelhecida ele me informou sobre os danos provocados pelo sol”, lembra.





Os hábitos mudaram. “Só saio com protetor solar. Mudou por completo o cuidado que tenho com a pele. Sempre uso o protetor e os cremes indicados."

Mesmo depois de décadas de exposição, adotar medidas de proteção continua sendo importante. “Algumas pessoas chegam ao consultório pensando: ‘Já tomei muito sol, agora não adianta mais’. Não é verdade. Nós não conseguimos voltar no tempo e eliminar todo o dano que já aconteceu, mas conseguimos evitar que ele continue se acumulando”, afirma Lucas Miranda.

Tratamento começa pelo diagnóstico

Algumas manifestações do fotoenvelhecimento podem ser tratadas, mas uma mancha não deve ser encarada automaticamente como um problema estético. “Antes de tratá-la como uma questão estética, precisamos saber exatamente o que ela é. Feito o diagnóstico, podemos estabelecer um tratamento individualizado.” Dependendo do caso, podem ser utilizados medicamentos tópicos, retinoides, antioxidantes, lasers, tecnologias baseadas em luz e diferentes tipos de peeling.

Maria Neusa conta que realizou preenchimento, aplicação de toxina botulínica, laser para clareamento e APhen Peel®. Segundo Lucas Miranda, trata-se de um protocolo de peeling médico que pode ser indicado, após avaliação individual, para determinados sinais de fotoenvelhecimento, como manchas e alterações de textura. Ele explica que o procedimento promove uma renovação controlada da pele e que a indicação deve considerar as características e necessidades de cada paciente.

Em sua percepção, foi o tratamento que trouxe a mudança mais significativa. A experiência individual, entretanto, não permite prever resultados semelhantes em outras pessoas. O dermatologista ressalta que a avaliação é necessária para definir se esse ou outro recurso é adequado para cada caso.

Proteção continua sendo essencial

Nenhum procedimento substitui a fotoproteção. Além do filtro solar, os cuidados incluem evitar exposições prolongadas nos períodos de maior intensidade da radiação, procurar sombra e usar chapéus, roupas e óculos com proteção adequada. Dependendo da rotina, o protetor também precisa ser reaplicado.





Quem acumulou muita exposição solar, apresenta muitas manchas ou tem histórico pessoal ou familiar de câncer de pele deve conversar com o dermatologista sobre a frequência adequada das avaliações.

“Podemos tratar muitos dos sinais que o sol deixou ao longo dos anos, mas precisamos, ao mesmo tempo, impedir que novos danos continuem se acumulando. A exposição do passado não pode ser alterada, mas os hábitos daqui para frente, sim. Nunca é tarde para adotá-los."

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