ALÉM DOS 20 E POUCOS ANOS

Vacina para adultos: o que a ciência diz sobre a proteção contra o HPV

Recomendação é válida, pois os adultos continuam tendo vida sexual e podem se expor ao vírus

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Tomar a vacina contra o HPV na infância ou na adolescência faz diferença para proteção contra lesões graves e cânceres relacionados com o vírus. É o que comprova o estudo populacional publicado na revista JAMA Oncology, que acompanhou mais de 750 mil de mulheres na Suécia e revelou que aquelas que receberam a vacina quadrivalente entre os 10 e 16 anos tiveram uma redução de 55% no risco de desenvolver lesões de alto grau do que as que se vacinaram a partir dos 17 anos. Mas, com o avanço da idade e a entrada na vida adulta, será que tomar o imunizante ainda compensa?

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Segundo a infectologista Luisa Chebabo, dos laboratórios Sérgio Franco e Bronstein, da Dasa no Rio de Janeiro, a recomendação é válida, pois os adultos continuam tendo vida sexual e podem se expor ao vírus. “Os programas de vacinação em adolescentes visam à proteção individual contra o vírus, além de oferecer uma grande proteção indireta para toda a sociedade. Apesar de alguns adultos já terem tido contato prévio com algumas cepas do HPV, a vacina previne novas infecções, principalmente se for aplicada a nonavalente, que confere proteção contra nove tipos do vírus. Dessa forma, o paciente pode estar seguro contra tipos com os quais ele ainda não teve contato.”





Esquema vacinal atual contra o HPV no Brasil


Maria Isabel de Moraes-Pinto, médica infectologista e consultora em vacinas do Alta Diagnósticos no Rio de Janeiro e em São Paulo, explica que, no Brasil, a vacina HPV é oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para meninos e meninas de 9 a 14 anos, sendo estendida até o final deste ano para jovens de até 19 anos. O imunizante ofertado é em dose única e quadrivalente, que protege contra os tipos 6, 11, 16 e 18 do vírus.


Para grupos imunossuprimidos, pessoas que vivem com HIV/Aids, transplantados, pacientes oncológicos e vítimas de violência sexual, a faixa etária vai de 9 a 45 anos, com esquema de três doses.



Na rede privada, o imunizante é nonavalente, ou seja, amplia a proteção contra lesões e cânceres que podem ser causados por nove tipos do HPV (6, 11, 16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58). A Sociedade Brasileira de Imunizações recomenda que, até 20 anos, na ausência de condições de imunossupressão, sejam administradas duas doses da vacina HPV nonavalente. A partir de 20 anos, recomendam-se três doses.


A especialista ressalta que essa vacina é a única que tem potencial de eliminar o câncer de colo de útero. “Temos a grande oportunidade de acabar quase por completo com uma das neoplasias que mais impactam a saúde das mulheres no mundo.”


Benefícios da vacinação do HPV em adultos


Estudos científicos e especialistas debatem o tema. Uma revisão sistemática e metanálise publicada no Journal of Primary Care & Community Health em maio de 2026 mostrou evidências e os limites da vacinação em pessoas com mais de 26 anos. Os autores concluíram que, embora o imunizante continue sendo seguro e mantenha alta capacidade de estimular a produção de anticorpos nessa faixa etária, estender a recomendação como política pública de rotina não é considerado vantajoso em termos de custo-benefício.


“O Brasil tem uma das melhores estratégias de imunização pública do mundo e contra o HPV não é diferente. A vacina para os mais jovens é excelente, mas ainda pode trazer benefícios para adultos, principalmente para aqueles que apresentam um exame negativo para o vírus ou para os que correm o risco de se expor a novos tipos, por exemplo, pessoas que mudaram de parceiro sexual ou têm risco contínuo”, comenta Maria Isabel.



Uma revisão sistemática e metanálise publicada em agosto de 2026 na Social Science Research Network, com participação de pesquisadores da Organização Mundial da Saúde e da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, investigou a eficácia da vacina contra o HPV em mulheres adultas com 25 anos ou mais.


Analisando os dados de grandes ensaios clínicos, o estudo dividiu os resultados em dois grupos: o primeiro, de mulheres que testaram negativo para o HPV antes de tomarem a vacina, mostrou eficácia da vacina de 90% na prevenção de infecções duradouras e lesões precoces. Já no grupo de mulheres com status de HPV desconhecido (que não fizeram o teste antes), a eficácia de prevenção chegou a 64%.


“Isso mostra que, para mulheres adultas que ainda não pegaram o vírus, a proteção é tão alta quanto a observada em adolescentes. No caso de status de HPV desconhecido, a proteção é menor justamente pela chance de já ter tido contato prévio com o vírus, mas, ainda assim, a vacina confere uma ótima proteção adicional. E estimular a vacinação em adultos pode ajudar a desenhar programas de resgate e estratégias de rastreamento mais eficazes”, afirma Luísa Chebabo.



Para a infectologista, a vacina continua sendo uma excelente ferramenta de proteção individual, por isso, a política pública prioriza os jovens para obter o quanto antes o maior impacto coletivo. Mas a imunização tardia atua como uma camada extra de proteção. “Precisamos entender que, em termos coletivos, a imunização na vida adulta para indivíduos não previamente vacinados não substitui a prevenção na adolescência, mas atua como uma estratégia complementar valiosa.”

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Maria Isabel diz que, enquanto a vacinação em massa permanece como o pilar central de saúde pública, focando a adolescência, os adultos que mantêm novos parceiros sexuais, mudaram de estilo de vida ou buscam uma proteção individualizada encontram na avaliação médica e na vacinação pela rede privada uma forma de refletir e decidir se devem ou não se proteger contra o HPV. “A imunização é uma ferramenta de proteção ativa ao longo de toda a vida reprodutiva e adulta de homens e mulheres.”


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