Reabilitação pós-AVC: angiologista explica novas abordagens
Fotobiomodulação, fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e áreas da neurorreabilitação podem ajudar um paciente a voltar a ter uma vida normal
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Outubro é reconhecido como o mês de conscientização e prevenção ao acidente vascular cerebral (AVC), que reforça a importância de reconhecer rapidamente os sinais e buscar atendimento de emergência. A campanha deste ano da World Stroke Organization, “Every M1nute Counts”, chama atenção justamente para o impacto do tempo: diante de um AVC, cada minuto pode fazer diferença para preservar funções e aumentar as possibilidades de recuperação.
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Dados reunidos pela Sociedade Brasileira de AVC mostram que 89.490 pessoas morreram pela doença em 2025. Somente entre janeiro e março de 2026 foram registrados 20.461 óbitos, o que representa mais de nove mortes por hora, em média.
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Além da mortalidade, há o impacto sobre quem sobrevive. Estimativas baseadas em registros epidemiológicos brasileiros apontam para algo entre 232 mil e 344 mil novos casos por ano, o equivalente a aproximadamente 978 casos por dia, praticamente um novo AVC a cada 1,5 a 2 minutos no país.
Alterações de movimento, fala, linguagem, memória, atenção, equilíbrio e autonomia podem permanecer após o evento. Nesse processo, ganha importância a neuroplasticidade, capacidade do sistema nervoso de modificar e reorganizar suas conexões em resposta a estímulos e experiências.
“Quando conseguimos atender um AVC rapidamente, o primeiro objetivo é preservar a vida e reduzir a extensão da lesão. Depois começa outro desafio: recuperar, dentro das possibilidades de cada caso, as funções e a autonomia desse paciente. E a capacidade de reorganização do cérebro tem um papel importante nesse processo”, explica o angiologista Álvaro Pereira, doutor em cirurgia vascular pela Divisão de Bioengenharia do Incor-HCFMUSP e pós-doutor pelo B&H Hospital – Harvard.
Novas tecnologias entram no campo da neurorreabilitação
Além das terapias já utilizadas na reabilitação, pesquisadores estudam recursos capazes de atuar sobre processos biológicos relacionados ao funcionamento e à recuperação cerebral.
Entre essas abordagens está a fotobiomodulação transcraniana (FBMt), técnica não invasiva que utiliza luz vermelha ou infravermelha próxima em parâmetros específicos aplicada sobre a região da cabeça.
Pesquisas investigam sua ação sobre mecanismos como função mitocondrial, produção de energia celular, fluxo sanguíneo cerebral, resposta inflamatória, estresse oxidativo, fatores neurotróficos e neuroplasticidade. Uma revisão recente dedicada ao AVC reúne resultados de estudos experimentais e ensaios clínicos e discute o potencial da tecnologia nesse contexto.
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“A fotobiomodulação atua em mecanismos importantes para o funcionamento do tecido cerebral como metabolismo celular, circulação e modulação da resposta inflamatória. Quando integrada à reabilitação, pode ajudar a criar condições biológicas mais favoráveis para a resposta aos estímulos terapêuticos. A ideia é somar às estratégias já utilizadas por fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e outros profissionais, ampliando os recursos disponíveis durante o processo de recuperação do paciente”, explica Álvaro.
A forma de utilização, a frequência das aplicações e sua associação com outras abordagens devem ser avaliadas caso a caso pela equipe profissional responsável pelo acompanhamento do paciente, considerando o quadro clínico, os objetivos terapêuticos e sua evolução.
“Quando falamos em recuperação após um AVC, não existe uma estratégia única que sirva para todos os pacientes. A fotobiomodulação pode ser considerada dentro do processo de reabilitação levando em conta as características e os objetivos de cada pessoa. Essa decisão precisa ser individualizada pela equipe que acompanha o caso”, comenta Álvaro. “A neuroreabilitação é construída a partir da resposta de cada paciente. Quanto mais compreendemos os mecanismos envolvidos na recuperação cerebral, mais possibilidades temos de integrar diferentes recursos de maneira coerente dentro desse processo”, afirma.
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Fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e outras áreas da neuroreabilitação trabalham com estímulos direcionados às funções comprometidas. Movimentos, palavras, exercícios de linguagem e tarefas do cotidiano podem precisar ser repetidos diversas vezes para estimular processos de aprendizagem e reorganização das redes neurais.
“Na reabilitação, repetir não significa simplesmente fazer a mesma coisa várias vezes. Existe um objetivo por trás daquele estímulo. O profissional observa o que foi comprometido, o que está preservado e, a partir disso, constrói estratégias para estimular determinadas funções”, afirma o especialista.
A recuperação também varia de pessoa para pessoa, de acordo com fatores como localização e extensão da lesão, idade, tempo transcorrido desde o AVC e condições clínicas. “Não existe uma fórmula única para a reabilitação após um AVC. Cada paciente chega com uma história, uma lesão e necessidades diferentes. O acompanhamento precisa ser construído e ajustado conforme essa pessoa evolui”, acrescenta o médico.
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“Às vezes, recuperar autonomia significa voltar a caminhar. Em outro paciente, pode significar conseguir se comunicar, se alimentar sozinho, compreender uma conversa ou realizar novamente uma atividade simples da rotina. É preciso olhar para a pessoa como um todo”, diz.