Zona 2, VO2 máximo, variabilidade da frequência cardíaca. Termos que antes ficavam restritos aos consultórios médicos hoje aparecem no pulso de quem caminha, pedala, nada ou treina na academia. No Brasil, setembro é o mês de conscientização sobre as doenças cardiovasculares, o Setembro Vermelho. A escolha do mês vem do Dia Mundial do Coração, lembrado nesta terça-feira (29/9).

Para a data, que reforça a importância da prevenção de problemas cardíacos, a coordenadora do Serviço de Cardiologia da Rede Mater Dei, Patrícia Tavares, explica o que os números dos wearables (dispositivos eletrônicos vestíveis que integram tecnologia em itens do dia a dia, como relógios, pulseiras e anéis) mostram, onde costumam errar e quando o próprio corpo pede avaliação médica.

O cuidado com o coração tem peso nas estatísticas. Segundo o Cardiômetro, ferramenta da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), as doenças cardiovasculares respondem por 30% dos óbitos no país, e causaram mais de 299 mil mortes em 2026.

Para a SBC, grande parte dessas mortes poderia ser evitada com o controle dos fatores de risco, que a American Heart Association (AHA) - instituição sem fins lucrativos dedicada a combater doenças cardiovasculares - reúne em oito componentes, o Life's Essential 8: alimentação saudável, atividade física regular, não fumar, sono adequado e controle do peso, da pressão arterial, do colesterol e da glicemia.

É nesse conjunto de cuidados que os dispositivos inteligentes entram como ferramenta de acompanhamento. “Os wearables são aliados importantes da saúde, pois ajudam a acompanhar, fora do consultório, as tendências dos dados de atividade física, frequência cardíaca e sono. No entanto, a precisão varia conforme o aparelho, o algoritmo, o ajuste no pulso, o tipo de exercício e as características da pessoa. Esses números devem ser vistos como informações complementares, e não como diagnóstico”, orienta Patrícia.

O limite mais importante, segundo a cardiologista, é que o relógio não detecta infarto. Diante de sintomas, a orientação é procurar atendimento, independentemente do que a tela mostra.

Zona de treino não é igual para todo mundo

Entre os dados mais acompanhados estão as zonas de treinamento, faixas de frequência cardíaca que indicam diferentes níveis de esforço durante a atividade física. Relógios e aplicativos costumam calculá-las a partir de uma estimativa da frequência cardíaca máxima, muitas vezes pela fórmula “220 menos a idade”. A conta parte de uma média da população, e duas pessoas da mesma idade podem ter frequências máximas bem diferentes.

A resposta do coração ao exercício também muda com o condicionamento físico, o uso de medicamentos e as condições de saúde. Quem utiliza betabloqueadores, remédios comuns no tratamento da hipertensão e de arritmias, costuma ter a frequência cardíaca mais baixa durante o esforço, e a zona indicada pelo relógio pode não corresponder ao esforço real. Nesses casos, escalas que não dependem do batimento ajudam a controlar a intensidade, como a de percepção de esforço (escala de Borg), em que a pessoa dá uma nota ao próprio cansaço, e o teste da fala: se ainda consegue conversar em frases completas, o esforço está moderado.

Por isso, segundo a cardiologista, os dados do relógio precisam ser interpretados de acordo com o objetivo e as características de cada pessoa. “Não é simplesmente dizer ‘treine na zona 2’ ou ‘treine na zona 4’. Precisamos saber qual é o objetivo daquela pessoa: saúde cardiovascular, emagrecimento, melhora metabólica, corrida de longa distância, ganho de performance ou longevidade”, afirma.

A zona 2, uma das mais citadas, corresponde a um esforço moderado e contínuo. Pela fórmula do relógio, ela é uma faixa estimada. Para defini-la com precisão, a referência são os limiares ventilatórios medidos no teste cardiopulmonar de exercício. A zona 2 fica aproximadamente abaixo do primeiro limiar, o ponto em que a respiração começa a acelerar de forma desproporcional ao esforço.

O que o relógio estima e o exame mede

A frequência cardíaca de recuperação, que merece atenção depois do treino, mostra quanto os batimentos caem no primeiro minuto após o fim do esforço. Em geral, uma queda rápida indica boa resposta do coração ao exercício, e uma recuperação lenta que se repete em treinos parecidos é um dado para levar à consulta. A frequência cardíaca de repouso, número de batimentos por minuto com o corpo parado, é outro dado que os relógios registram de forma contínua.

A variabilidade da frequência cardíaca, usada por muitos relógios para sugerir se a pessoa está recuperada, mede as pequenas diferenças de tempo entre um batimento e outro. Ela reflete o equilíbrio entre as duas vias do sistema nervoso autônomo: a simpática, que acelera o coração, e a parassimpática, que o desacelera. Álcool, noites mal dormidas e infecções costumam reduzir esse valor. “O dado serve para observar tendências ao longo de semanas, e não para avaliar um dia isolado”, diz a cardiologista.

Os wearables também apresentam estimativas de VO2 máximo, a quantidade máxima de oxigênio que o corpo consegue utilizar durante o esforço máximo. Para a cardiologista, o dado deveria ser tratado como um sinal vital. “A aptidão cardiorrespiratória está entre os preditores mais fortes de mortalidade, e melhorá-la reduz o risco”, afirma.

O número do smartwatch, calculado a partir da frequência cardíaca e dos dados do treino, é impreciso, mas a tendência ao longo do tempo merece acompanhamento. A medida direta vem do teste cardiopulmonar de exercício (ergoespirometria), em que a pessoa faz esforço na esteira com uma máscara que analisa o ar expirado. O exame também permite definir zonas de treino individualizadas.

O gasto calórico segue a mesma lógica, com uma diferença: é a métrica menos precisa dos wearables. O relógio combina algoritmos com dados do usuário e da atividade, e o resultado não deve ser usado como medida exata para decidir quanto comer ou compensar depois do treino. Quando esse número importa, como em um acompanhamento para emagrecimento, cada situação tem seu exame. A calorimetria indireta de repouso mede a taxa metabólica basal, a energia que o corpo gasta parado para se manter funcionando. O gasto durante o esforço é medido no teste cardiopulmonar de exercício.

Alguns dispositivos identificam irregularidades no ritmo e registram um traçado semelhante ao de um eletrocardiograma simples, recurso pensado principalmente para apontar sinais de fibrilação atrial, a arritmia sustentada mais comum. O traçado ajuda na análise de arritmias, mas tem derivação única: registra o coração por um só ângulo, enquanto o eletrocardiograma convencional usa 12. O relógio não detecta infarto nem isquemia, e um traçado normal não exclui a doença cardíaca. O risco é a pessoa se sentir segura com o resultado e chegar tarde demais ao pronto-socorro.

“Se a pessoa sente palpitações, desmaia, apresenta falta de ar ou dor no peito durante o exercício, ela precisa ser avaliada independentemente do que o relógio está mostrando. O dispositivo pode levantar uma dúvida, mas não confirma a causa”, orienta a cardiologista.

Essa investigação pode incluir diferentes exames, indicados conforme o caso:

  • O eletrocardiograma registra a atividade elétrica do coração em repouso
  • O Holter faz esse registro por 24 horas, durante a rotina, e ajuda a investigar palpitações e arritmias que não aparecem em uma consulta
  • O teste ergométrico avalia a resposta do coração ao esforço controlado na esteira, e o ecocardiograma mostra a estrutura e o funcionamento do coração
  • O Mapa acompanha a pressão arterial ao longo de 24 horas
  • Já o teste cardiopulmonar de exercício é um exame de esforço que analisa parâmetros respiratórios, como consumo de oxigênio, produção de gás carbônico, ventilação pulmonar e circulação e respiração em nível mitocondrial. É realizado em uma esteira rolante até que o paciente atinja a exaustão

De acordo com a médica, a principal contribuição desses dispositivos é permitir que a pessoa acompanhe o próprio comportamento ao longo do tempo. Observar a frequência cardíaca em treinos parecidos, perceber mudanças no desempenho e registrar alterações que se repetem ajuda a levar informações mais organizadas para a consulta.

“A questão não é perseguir um número perfeito. É construir bons hábitos de forma sustentável e controlar fatores de risco com avaliação profissional quando necessário”, resume.

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