A menopausa representa uma transição profunda na vida da mulher. Além das mudanças hormonais e dos sintomas físicos, essa fase pode provocar transformações emocionais, questionamentos sobre identidade, receio do envelhecimento e uma sensação difícil de explicar: a solidão, que pode surgir mesmo quando existem familiares, amigos e parceiros por perto.


“A solidão muitas vezes vem da sensação de não ser compreendida, porque, mesmo com pessoas próximas, muitas mulheres sentem que ninguém realmente entende o que elas estão vivendo”, explica o ginecologista Igor Padovesi, especialista em menopausa certificado pela North American Menopause Society (NAMS) e idealizador do ‘Expert em Menopausa’, plataforma de educação médica em menopausa.





Essa sensação de isolamento não está relacionada a um único fator. “Alterações de humor, irritabilidade, sintomas depressivos, insônia, piora significativa da libido, cansaço, fadiga, dores no corpo e outros sintomas da menopausa podem afetar o comportamento social e a disposição da mulher”, explica o especialista.



Nessa fase, muitas mulheres também sentem que atividades antes prazerosas podem parecer menos interessantes e se afastam desses círculos. “Elas relatam redução da iniciativa e da disposição social. Isso pode ter relação com alterações em circuitos ligados à recompensa e motivação”, explica Nélio Veiga Junior, ginecologista pós-doutorando em Menopausa, com foco em saúde hormonal e qualidade de vida da mulher no climatério.


Igor acrescenta que também há uma questão de redefinição da identidade. “Muitas mulheres se veem em uma fase de reinvenção forçada e começam a questionar os seus papéis como mães, profissionais e esposas, além do medo de envelhecer, da queda da autoestima e da perda da fertilidade biológica que também despertam reflexões sobre o valor pessoal. Tudo isso acaba levando a um afastamento, isolamento e solidão”, detalha o ginecologista.



E embora a menopausa tenha conquistado mais espaço nas conversas nos últimos anos, o tema ainda é cercado por constrangimento e desinformação. “Hoje em dia isso tem mudado aos poucos, felizmente, com o tema sendo discutido abertamente. Mas por muito tempo falar sobre isso era algo impróprio, como se fosse vergonhoso, uma espécie de fraqueza, um momento de vulnerabilidade que não deveria ser compartilhado”, diz Igor.


E, segundo ele, falar abertamente sobre o assunto e ver outras pessoas compartilhando experiência é justamente o que mais alivia o sentimento de isolamento. “Quando a mulher sente que não pode falar sobre o que está vivendo, nem mesmo com o parceiro ou com as amigas, ela acaba se calando. E esse silêncio se transforma em solidão”, acrescenta o médico.


Nesse contexto, a rede de apoio faz toda diferença. “O primeiro passo é ouvir e acolher, sem minimizar os sintomas, o que frequentemente acontece. É importante evitar comentários como ‘é normal da idade’ ou ‘vai passar’. Esses comentários podem parecer inofensivos, mas invalidam a experiência da mulher”, afirma Igor Padovesi.


A falta de uma rede de apoio pode ser principalmente cruel para mulheres que são mães. “Mulheres que acumulam múltiplas funções, sem espaço para descanso físico ou emocional, frequentemente vivem em estado contínuo de alerta e exaustão. E isso acaba transbordando justamente nas relações mais próximas, especialmente com os filhos. A mulher pode reagir de forma mais ríspida em situações simples do dia a dia e, logo depois, sentir culpa intensa por acreditar que está se tornando uma ‘mãe pior’”, esclarece a ginecologista com Título de Especialista em Ginecologia e Obstetrícia (TEGO), Ana Paula Fabricio.



E esse sofrimento também costuma ser silencioso. “Muitas mulheres não verbalizam o que sentem por medo de julgamento, o que aumenta ainda mais a sensação de isolamento. É fundamental entender que isso não define quem ela é como mãe ou como mulher. Não é falta de amor, nem fraqueza emocional. É uma fase fisiológica de transição que precisa ser compreendida e acolhida”, ressalta a médica.


Além de terem empatia e paciência, Igor Padovesi recomenda que as pessoas próximas incentivem a mulher a buscar informação e cuidado. “O parceiro também pode se informar junto, entender as mudanças significativas que acontecem com a mulher do ponto de vista físico, hormonal, psíquico, e participar ativamente do processo. Já os amigos e familiares podem contribuir ao lembra-la que essa fase não é o fim, na verdade é uma transformação, o início de uma nova etapa”, acrescenta o ginecologista.


Ele ressalta que a menopausa pode se tornar uma oportunidade de autoconhecimento, de reflexão e de reconexão. “Atividades que promovem prazer, movimento, como exercícios físicos, meditação, terapia, grupos de conversas, novos hobbies e aprender coisas como línguas ou música podem ajudar a mulher a reconstruir o sentido, se reconectar com ela mesma e passar por esse momento de transformação. Trocar experiências com mulheres que também estão passando por essa fase também é algo que pode ser muito importante, pois possibilita que a mulher seja ouvida e se identifique com outras pessoas, o que traz senso de pertencimento”, recomenda.


Mas é fundamental que a mulher também procure ajuda médica. Segundo Nélio Veiga Junior, o tratamento da menopausa deve ser individualizado, considerando histórico clínico, sintomas predominantes, fase da menopausa e objetivos de cada paciente. “Entre as opções, temos a terapia hormonal individualizada. Quando bem indicada, pode ajudar no controle de sintomas vasomotores, qualidade do sono, humor, cognição e bem-estar geral. É importante pontuar que a reposição hormonal não é uma questão estética. Em pacientes selecionadas, pode representar uma estratégia importante para qualidade de vida e prevenção de perdas funcionais”, explica o médico.


Quanto ao estilo de vida, a ginecologista formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Patricia Magier, destaca quatro pilares essenciais com alto retorno. “Força muscular (treino resistido) para preservar massa magra e proteger articulações; atividade aeróbica regular para saúde cardiovascular e humor; nutrição com foco em proteína adequada, fibras, controle de ultraprocessados e equilíbrio glicêmico; e um plano de sono consistente, com higiene do sono e, quando indicado, terapia cognitivo-comportamental para insônia”, diz a médica.


Manejo de estresse, redução de álcool, atenção ao consumo de cafeína e estratégias de recuperação (respiração, relaxamento, rotina) também fazem diferença real. "A menopausa não deve ser um ‘período de sobreviver’. Com orientação correta, é possível atravessar essa fase com vitalidade, clareza mental, força e bem-estar”, acrescenta a médica.


Por fim, é importante diferenciar a sensação de isolamento da menopausa de quadros depressivos, uma confusão bastante comum, pois os sintomas dessas condições se sobrepõem, incluindo, além do afastamento social, desânimo, fadiga física e mental, perda de interesse nas atividades habituais e desesperança. Isso acontece porque o estrogênio tem muitos receptores no cérebro.


“A queda do estrogênio e da progesterona influencia neurotransmissores como serotonina e dopamina, podendo gerar sintomas de irritabilidade, ansiedade e tristeza ou depressão. E as ondas de calor, insônia e fadiga intensificam ainda mais essas alterações”, diz Ana Paula Fabricio.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia


“Quando há tristeza persistente na maior parte dos dias, perda de prazer, apatia, isolamento, desesperança, alterações importantes de apetite e energia, queda significativa de produtividade, crises de ansiedade recorrentes, sintomas físicos intensos (taquicardia, falta de ar, sensação de catástrofe), ou qualquer pensamento de autoagressão, isso ultrapassa o esperado e precisa de avaliação clínica completa. Também é essencial considerar o contexto. Muitas mulheres chegam ao climatério acumulando sobrecarga, estresse, mudanças de vida e responsabilidades, e isso pode somar aos efeitos biológicos. A avaliação médica é fundamental para diferenciar”, reforça Patricia Magier.


compartilhe