É clássico, no planejamento familiar, questionar o impacto da idade da mulher, especialmente acima dos 35 anos, na qualidade dos óvulos e, consequentemente, dos embriões. Por muito tempo prevaleceu a ideia de que o homem seria fértil durante toda a vida, mas essa visão vem perdendo força diante de estudos e discussões recentes em congressos da área de reprodução humana.

Levantamentos recentes da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil) mostram que a paternidade após os 50 anos, embora ainda pouco frequente, é uma realidade crescente no país: em 2024, o Brasil registrou 3.214 nascimentos com pai reconhecido acima dessa idade, e o número segue relevante em 2025.

Ao mesmo tempo, o Brasil vive um movimento de maternidade e paternidade cada vez mais tardias: segundo as Estatísticas do Registro Civil do IBGE, de 2010 a 2022, o número de brasileiras que se tornaram mães após os 40 anos cresceu 60% (59,98%). O órgão não tem os dados de idade dos pais, por não serem cobrados nos registros de nascimentos.

O que a ciência diz sobre a idade paterna

Segundo a médica especialista em reprodução humana Maria do Carmo Borges de Souza, diretora médica da Fertipraxis, a literatura médica atual demonstra que a idade do homem também precisa ser ponderada quando há o desejo de postergar a paternidade, pois estudos têm mostrado que a idade paterna acima dos 40 anos influencia a quantidade e a qualidade dos espermatozoides.

“Homens com mais de 40 anos apresentam fatores de risco que podem interferir no desenvolvimento de uma gestação, como o aumento da fragmentação do DNA espermático, o que pode aumentar o risco abortamento no primeiro trimestre”, alerta a médica.

Riscos genéticos associados à idade paterna avançada

Membro do Conselho Consultivo da Associação Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) e da Rede Latino-Americana de Reprodução Assistida (Redlara), Maria do Carmo alerta para a maior incidência de transtorno do espectro autista, esquizofrenia, e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) associada à idade paterna avançada.

“Por isso, é importante orientarmos casais que têm um ou os dois genitores com idade avançada sobre os riscos do aumento de doenças em seus filhos, para que tomem as melhores decisões. Na reprodução assistida, é possível contar com exames genéticos do embrião antes da implantação para investigar doenças cromossômicas”, explica a médica.

“Para os homens que hoje pensam em ter filhos no futuro, uma opção é a criopreservação do sêmen, já que alterações nos espermatozoides ocorrem naturalmente com o envelhecimento. Entretanto, esse limite de idade masculina ainda não está completamente estabelecido, mas estima-se que as alterações ocorram a partir dos 40 e 45 anos”, complementa Maria do Carmo.

Alternativas para quem quer ser pai mais tarde

Assim como as mulheres, os homens que desejam ter filhos mais tarde podem recorrer ao congelamento de espermatozoides e, após, a tratamentos como fertilização in vitro, seleção avançada de espermatozoides e doação de espermatozoides.

“Esses tratamentos podem ajudar a superar certas dificuldades que podem surgir devido à idade avançada e a outros fatores que afetam a fertilidade”, explica Maria do Carmo.

A especialista reitera que, mesmo com os tratamentos disponíveis, é importante que o homem adote hábitos de vida saudáveis, de modo a não prejudicar a produção de espermatozoides e favorecer o desfecho desejado do tratamento.

“Fatores comportamentais e ambientais como consumo excessivo de álcool e de drogas, alguns medicamentos, dieta inadequada, poluição ambiental, exposição ao calor excessivo e doenças como a varicocele também podem prejudicar a qualidade dos espermatozoides”, finaliza a médica.

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