Barriga estufada, gases, fadiga constante, acne, dificuldade para perder peso, alterações de humor e até compulsão alimentar. Nos últimos meses, a palavra disbiose virou praticamente sinônimo de qualquer desconforto do corpo, repetida em vídeos curtos como explicação quase automática para sintomas que, até pouco tempo atrás, ninguém associava ao intestino. O termo existe, tem respaldo científico e descreve um desequilíbrio real na microbiota intestinal. O problema é o uso que se faz dele.
Um caso recente ajudou a colocar o tema em evidência. A influenciadora Viih Tube contou publicamente que passou por um exame de microbiota intestinal como parte do acompanhamento que fez antes de emagrecer, e que o resultado apontou um quadro de disbiose, levando a equipe responsável a priorizar o equilíbrio intestinal antes de qualquer outra mudança na alimentação.
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O relato ilustra bem os dois lados da história: a microbiota pode, sim, influenciar o processo de emagrecimento e o bem-estar geral, mas isso não significa que todo sintoma parecido tenha a mesma origem ou peça o mesmo tratamento.
O que a ciência já confirma sobre a microbiota
A microbiota intestinal é formada por trilhões de microrganismos, entre bactérias, fungos e vírus, que vivem naturalmente no intestino e participam de funções que vão muito além da digestão, incluindo a modulação do sistema imunológico e a produção de neurotransmissores ligados ao humor.
Quando esse equilíbrio é rompido, com redução da diversidade microbiana e crescimento excessivo de microrganismos oportunistas, o corpo pode de fato apresentar sinais como inchaço, alteração no trânsito intestinal e cansaço.
"A microbiota realmente participa de praticamente tudo o que acontece no organismo, da digestão à imunidade, passando pelo humor. Isso é ciência consolidada. O problema é quando qualquer sintoma isolado passa a ser tratado como prova automática de disbiose, sem nenhuma investigação por trás", explica o médico integrativo e CEO do Instituto Aeon, Rodolfo Gusmão.
Quando o autodiagnóstico vira o problema
Para o médico, o maior risco da onda em torno da disbiose não é falar sobre saúde intestinal, e sim tratar um vídeo de poucos segundos como se fosse um exame. "Ver alguém se identificar com sintomas nas redes sociais e sair comprando probiótico ou cortando grupos inteiros de alimentos por conta própria é o cenário que mais me preocupa. Isso pode mascarar outras condições que precisam ser investigadas e atrasar um diagnóstico que, muitas vezes, é bem mais simples do que parece", afirma.
Rodolfo reforça que sintomas persistentes, aqueles que se repetem por semanas e não apenas em dias isolados de má digestão, merecem avaliação profissional, incluindo exames complementares quando há indicação clínica. Já sintomas ocasionais, ligados a uma refeição pesada ou a uma noite maldormida, não precisam necessariamente de rótulo.
"Nem todo desconforto pede um diagnóstico. Às vezes o corpo só está reagindo a um dia ruim de sono ou de alimentação, e isso não é disbiose, é o organismo respondendo a um estresse pontual", pontua.
Individualização como caminho
O que muda, segundo o especialista, é a forma de investigar quando o sintoma é persistente. Testes genéticos e análises de microbiota, cada vez mais acessíveis, ajudam a entender características metabólicas e o comportamento intestinal de cada paciente, mas funcionam como ferramentas de apoio, não como veredito.
"Os exames não determinam se alguém tem disbiose de forma isolada. Eles oferecem informações que, combinadas ao histórico clínico e aos hábitos de vida, ajudam a construir um diagnóstico e um plano muito mais precisos do que qualquer autoavaliação feita em casa", diz Rodolfo.
Ele lembra ainda que hábitos simples seguem sendo a base de uma microbiota equilibrada: alimentação rica em fibras, frutas, verduras e grãos integrais, prática regular de atividade física, sono adequado e redução do consumo de ultraprocessados.
"Não existe alimento ou suplemento milagroso capaz de resolver sozinho qualquer alteração intestinal. O intestino responde ao conjunto dos hábitos, não a uma solução isolada", aponta o médico.
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