Câncer ginecológico: a conexão genética familiar que você desconhece
Histórico de tumores de próstata ou pâncreas na família pode indicar risco elevado para mulheres; saiba como o DNA atua no aparecimento da doença e como prevenir
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A campanha Setembro em Flor tem como objetivo ampliar a conscientização sobre os cânceres ginecológicos e reforçar a importância da informação, da prevenção, do acompanhamento médico regular e do diagnóstico precoce para a saúde das mulheres.
Entre os principais tipos de câncer ginecológico estão os tumores que acometem o colo do útero, endométrio, ovários, vulva e vagina. Embora façam parte do mesmo grupo, essas doenças apresentam características, fatores de risco, formas de prevenção e tratamentos distintos.
De acordo com Ângelo Bezerra, oncologista especialista em câncer ginecológico, conhecer os fatores de risco e os sinais que podem indicar alguma alteração é fundamental para que a mulher procure atendimento médico no momento adequado.
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“Quando falamos em câncer ginecológico, estamos nos referindo a diferentes tipos de tumores, que possuem características próprias. Por isso, não existe uma única estratégia capaz de prevenir ou rastrear todos eles. Informação, acompanhamento médico e atenção aos sinais do próprio corpo são fundamentais”, explica o especialista.
HPV e o câncer do colo do útero
Entre os cânceres ginecológicos, o tumor do colo do útero apresenta uma importante relação com a infecção persistente pelo papilomavírus humano (HPV), especialmente pelos tipos considerados oncogênicos, como os HPV 16 e 18.
Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca), órgão vinculado ao Ministério da Saúde, o câncer do colo do útero está entre os tumores mais frequentes entre as mulheres brasileiras. Para o período de 2026 a 2028, a previsão é de aproximadamente 19,3 mil novos casos por ano no país. A incidência é ainda mais elevada nas regiões Norte e Nordeste, que concentram as maiores taxas da doença.
O médico explica, porém, que ter HPV não significa ter câncer. A infecção é muito frequente e, na maioria dos casos, desaparece espontaneamente. O risco está principalmente na persistência de uma infecção por tipos de alto risco, que pode provocar alterações progressivas nas células do colo uterino ao longo dos anos.
A vacinação contra o HPV é uma das principais estratégias de prevenção. O rastreamento também exerce papel importante na identificação de alterações que podem ser tratadas antes que evoluam para um câncer.
Outros tumores possuem fatores de risco diferentes
No câncer de endométrio, por exemplo, obesidade, diabetes, exposição prolongada ao estrogênio sem oposição adequada da progesterona, menopausa tardia e síndrome dos ovários policísticos estão entre os fatores associados ao aumento do risco. Algumas condições hereditárias, como a síndrome de Lynch, também podem estar relacionadas ao desenvolvimento da doença.
Já no câncer de ovário, idade, histórico familiar e alterações genéticas hereditárias, especialmente nos genes BRCA1 e BRCA2, estão entre os fatores de maior relevância.
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“Conhecer o histórico familiar é uma parte importante da prevenção. Famílias com vários casos de câncer de ovário, mama, endométrio, próstata ou pâncreas, principalmente quando esses diagnósticos ocorrem em idades mais jovens, podem precisar de uma avaliação específica para identificar possíveis síndromes hereditárias”, destaca Ângelo.
Sangramentos e alterações persistentes merecem atenção
Alguns sintomas devem servir de alerta e motivar a procura por avaliação médica. Sangramento vaginal após a menopausa, por exemplo, nunca deve ser considerado normal e precisa ser investigado. Sangramentos entre as menstruações, após as relações sexuais ou mudanças persistentes no padrão menstrual também merecem atenção.
Outros sinais incluem corrimento vaginal persistente ou com sangue, dor ou pressão pélvica, aumento persistente do volume abdominal, sensação de estufamento, saciedade precoce, perda de peso sem explicação e alterações persistentes nos hábitos intestinal ou urinário.
“Não é preciso viver com medo de cada sintoma. O mais importante é conhecer o próprio corpo e procurar avaliação quando uma alteração é nova, persistente ou progressiva. A investigação médica é o que permite diferenciar sintomas comuns de situações que precisam de atenção”, orienta o oncologista.
Rastreamento
Um dos principais pontos de atenção é entender que não existe um único exame capaz de rastrear todos os cânceres ginecológicos.
No câncer do colo do útero, o rastreamento tem papel fundamental. Durante décadas, o principal método utilizado foi o exame citopatológico, conhecido como Papanicolau, capaz de identificar alterações celulares que podem preceder o desenvolvimento do câncer.
O Brasil passa por uma mudança importante nesse cenário, com a implantação progressiva do teste molecular para detecção do DNA do HPV oncogênico como método primário de rastreamento, conforme as novas diretrizes adotadas pelo Ministério da Saúde. Onde o teste molecular ainda não estiver disponível, o Papanicolau continua sendo utilizado.
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“É muito importante esclarecer que cada câncer ginecológico exige uma estratégia própria. O rastreamento do colo do útero, por exemplo, não deve ser confundido com a investigação dos ovários. Acompanhamento ginecológico e investigação adequada dos sintomas são medidas complementares”, destaca Ângelo.
Prevenção
A prevenção dos cânceres ginecológicos envolve diferentes estratégias. A vacinação contra o HPV é uma das medidas mais importantes para reduzir o risco de infecções pelos principais tipos do vírus relacionados ao desenvolvimento de câncer.
Além disso, manter um peso adequado, praticar atividade física, não fumar e controlar doenças metabólicas, como o diabetes, pode contribuir para a redução do risco de diferentes tipos de câncer. No câncer de endométrio, a obesidade é considerada um dos principais fatores de risco modificáveis.
Quando um câncer ginecológico é identificado em estágio inicial, as possibilidades de tratamento curativo tendem a ser maiores. Dependendo do tipo e do estágio da doença, podem ser indicados cirurgia, radioterapia, braquiterapia, quimioterapia ou uma combinação dessas estratégias.
Em situações específicas, também podem ser considerados tratamentos capazes de preservar a fertilidade ou evitar procedimentos mais extensos. Nos últimos anos, o tratamento dos cânceres ginecológicos também avançou com a utilização de cirurgias minimamente invasivas, técnicas modernas de radioterapia, terapias-alvo, inibidores de PARP para determinados casos de câncer de ovário e imunoterapia para alguns tumores de endométrio e colo do útero.
“O diagnóstico precoce pode mudar completamente a história de uma paciente. Nos estágios iniciais, muitos cânceres ginecológicos apresentam altas possibilidades de cura e, em algumas situações, o tratamento pode ser menos complexo. Precisamos falar sobre câncer ginecológico não apenas quando a doença aparece.
Precisamos falar sobre vacinação, prevenção, sintomas, rastreamento e diagnóstico precoce. Informação também é uma ferramenta de prevenção”, destaca.
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