Por Claudia Izique
Uma molécula capaz de relaxar os vasos e restaurar o fluxo de sangue logo após um infarto pode reduzir drasticamente as sequelas e o tamanho da lesão no músculo do coração. É o que indica um estudo liderado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) publicado em março de 2026 na revista Scientific Reports.
Em experimentos com roedores, o grupo testou a S-nitrosoglutationa (GSNO), que atua no organismo liberando óxido nítrico (NO) – um gás naturalmente produzido pelo corpo e que tem ação vasodilatadora. Os achados, contudo, trazem um alerta importante para o desenvolvimento de futuros tratamentos: a eficácia do composto depende de se administrar a dose exata, pois o excesso anula o efeito protetor e pode ser tóxico às células.
“Coletivamente, essas descobertas demonstram um efeito cardioprotetor da GSNO dependente da dose, provavelmente mediado pela biodisponibilidade sustentada de óxido nítrico e pela melhora da vasodilatação coronariana”, destacam os autores no artigo.
O Brasil registra entre 300 mil e 400 mil casos de infarto agudo do miocárdio por ano, segundo estatísticas do Ministério da Saúde. A taxa de sobrevivência é de 80% a 86%, mas há o risco de sequelas. Até 50% do tamanho final do infarto pode ser atribuído ao dano causado pela lesão que ocorre quando o fluxo sanguíneo é restabelecido na área afetada, processo conhecido como isquemia e reperfusão (I/R) miocárdica.
“Quando há uma isquemia e o fluxo é restabelecido, o coração sofre um surto de estresse oxidativo e inflamação que agrava a morte do tecido cardíaco”, explica Marcelo Ganzarolli de Oliveira, professor do Instituto de Química (IQ) da Unicamp. Na prática, isso significa que o retorno abrupto do sangue e do oxigênio à área bloqueada desequilibra o metabolismo das células.
Como resultado, ocorre uma superprodução de moléculas nocivas, como os radicais livres de oxigênio. Esse excesso – que caracteriza o estresse oxidativo – sobrecarrega as defesas naturais do órgão e acaba destruindo as estruturas celulares saudáveis, o que amplia de forma irreversível a lesão inicial do infarto.
Por esse motivo, o grupo de pesquisa liderado por Oliveira busca alternativas para atenuar essas lesões pós-infarto e tem obtido resultados promissores com o uso de biomateriais para carrear óxido nítrico no organismo. O trabalho conta com apoio da Fapesp e envolve a colaboração de Andrei Carvalho Sposito, professor da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, além de bolsistas de pós-doutorado. Também participam pesquisadores das universidades de Twente e de Eindhoven, dos Países Baixos.
Direto no coração
No estudo recém-publicado, os pesquisadores produziram a GSNO no laboratório e a aplicaram de forma contínua em corações de ratos que tiveram a circulação de sangue interrompida por 35 minutos, simulando um infarto. Os cientistas testaram o tratamento com duas dosagens diferentes da molécula: uma moderada – 200 micromolar (µM) – e outra mais que o dobro da primeira – 500 µM.
Em seguida, avaliaram como o coração reagiu, observando a facilidade com que o sangue voltou a circular (fluxo coronariano e resistência vascular), a força e a saúde dos batimentos (parâmetros hemodinâmicos), o tamanho da lesão deixada pelo infarto, quantas células do tecido continuaram vivas (viabilidade celular) e a capacidade de os vasos sanguíneos relaxarem e voltarem a se abrir (resposta vasodilatadora).
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O resultado foi que tanto o grupo que recebeu GSNO 200 µM como o que recebeu GSNO 500 µM tiveram o fluxo sanguíneo aumentado e a resistência vascular reduzida, demonstrando o efeito vasodilatador da GSNO. Mas apenas o grupo que recebeu a concentração de 200 µM teve redução significativa da área do infarto e melhora na recuperação funcional do ventrículo. “A concentração de 500 µM não conferiu proteção adicional e ainda apresentou risco de citotoxicidade”, comenta Oliveira.
Já a GSNO em concentração de 200 µM manteve a biodisponibilidade de óxido nítrico na área infartada, promoveu a vasodilatação e preservou a função das mitocôndrias – as organelas produtoras de energia para as células –, reduzindo o estresse oxidativo durante a reperfusão. Ou seja, o tratamento preservou a capacidade das artérias coronarianas de se dilatarem logo após o infarto, melhorando a oferta de oxigênio ao tecido fragilizado.
Como explica Oliveira, a GSNO transfere óxido nítrico para proteínas críticas da mitocôndria, limitando a produção de espécies reativas de oxigênio. Com isso, o fornecimento de energia para as células do coração se mantém estável. “Ao diminuir os níveis de apoptose [morte celular] e fibrose tecidual [substituição do músculo saudável por tecido de cicatriz] na fase pós-isquêmica [período que se segue ao infarto], a GSNO ajuda a evitar a hipertrofia [aumento anormal e prejudicial do coração] e a perda de função sistólica [capacidade de o órgão bombear o sangue] a longo prazo”, diz o pesquisador.
O artigo conclui que a GSNO é uma candidata promissora para atuar como um tratamento complementar após o infarto. Com base nos benefícios do óxido nítrico, a molécula tem grande potencial para reduzir os danos no coração causados pelo bloqueio e retorno repentino do fluxo de sangue, desde que as doses sejam rigorosamente ajustadas para evitar efeitos adversos.
Prova de conceito
Para Oliveira, o trabalho é um primeiro passo importante para provar que a entrega direcionada do óxido nítrico consegue frear as lesões no coração após o infarto. É o que os cientistas chamam de “prova de conceito”.
O próximo passo será incorporar a GSNO em hidrogéis a serem aplicados sobre o epicárdio – a camada externa do coração – durante procedimentos cirúrgicos. “O gel tem ação local: libera o óxido nítrico e é absorvido pelo organismo”, conta.
Também estão em curso pesquisas para incorporar a GSNO em hidrogéis injetáveis e em stents – confeccionados por meio de impressão 3D – utilizados em cirurgia de revascularização. “A grande maioria dos stents disponíveis no mercado tem revestimentos poliméricos para liberação de fármacos. O que nós estamos desenvolvendo são stents inteiramente poliméricos, absorvíveis e liberadores de óxido nítrico”, diz.
As novas etapas da investigação também são apoiadas pela Fapesp.
O artigo "S-nitrosoglutathione preserves vasodilation and attenuates myocardial ischemia-reperfusion injury" pode ser lido em: nature.com/articles/s41598-026-45498-x.
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