Por que o cabelo cai durante o tratamento oncológico?
Da quimioterapia ao impacto emocional, médicos explicam como ocorre a queda capilar, quais estratégias podem ajudar a preservar os fios e por que o suporte tricológico tem ganhado espaço no cuidado ao paciente oncológico
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Receber um diagnóstico de câncer já impõe uma ruptura profunda na vida do paciente. Mas, para muitas pessoas, existe um momento simbólico que torna a doença ainda mais difícil: quando o cabelo começa a cair.
“A queda capilar relacionada ao tratamento oncológico é um dos efeitos colaterais mais conhecidos da quimioterapia, mas ainda cercada de dúvidas, medo e sofrimento emocional. Embora nem todos os tratamentos provoquem perda dos fios, determinados quimioterápicos atuam justamente sobre células de rápida multiplicação, característica típica das células tumorais. O problema é que o folículo piloso também apresenta intensa atividade celular, especialmente na fase de crescimento do cabelo. Como consequência, os fios acabam sendo afetados”, explica o oncologista do Centro Médico Paulista High Clinic Brazil (São Paulo) e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia, Ramon Andrade de Mello.
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“O cabelo possui uma matriz folicular altamente proliferativa. Muitos quimioterápicos não conseguem diferenciar completamente as células tumorais dessas células saudáveis de rápida divisão, e isso leva à interrupção temporária do ciclo capilar”, explica a médica Lilian Brasileiro.
Segundo Lilian, a queda costuma começar entre duas e quatro semanas após o início da quimioterapia, podendo variar conforme o tipo de câncer, protocolo utilizado, dose dos medicamentos e características individuais do paciente. “Em alguns casos, a perda é parcial; em outros, pode envolver couro cabeludo, sobrancelhas, cílios e pelos corporais”, diz a médica.
Do ponto de vista da saúde capilar, a principal forma de queda associada ao tratamento oncológico é o eflúvio anágeno, quadro em que os fios se desprendem ainda na fase de crescimento por interrupção abrupta da atividade da matriz capilar.
“A velocidade da queda costuma chamar atenção. Diferentemente de outros tipos de eflúvio, em que o cabelo entra precocemente na fase de repouso, aqui o dano ocorre diretamente na fase de crescimento ativo do fio”, explica a médica.
Segundo Ramon, além da quimioterapia, outros tratamentos também podem impactar os cabelos. “Radioterapia em regiões da cabeça, imunoterápicos, terapias-alvo e até alterações nutricionais associadas ao próprio câncer podem contribuir para enfraquecimento capilar. Existe ainda um componente inflamatório local e microvascular que pode alterar temporariamente o funcionamento do folículo, embora a intensidade varie conforme o tratamento e o organismo de cada paciente”, diz o oncologista.
É possível evitar a queda?
Embora nem sempre seja possível impedir completamente a perda capilar, algumas estratégias podem reduzir a intensidade do quadro. Uma das mais conhecidas é a crioterapia capilar, popularmente chamada de “touca gelada”.
“O método consiste no resfriamento do couro cabeludo durante a infusão da quimioterapia. A baixa temperatura promove vasoconstrição local, reduzindo temporariamente a chegada do medicamento aos folículos pilosos”, diz Lilian.
“Hoje já existem evidências mostrando benefício da crioterapia capilar em protocolos específicos, principalmente em alguns tipos de câncer de mama. Mas a resposta depende do esquema quimioterápico utilizado e da adesão adequada ao método”, afirma o oncologista.
Além da touca gelada, o acompanhamento médico pode incluir estratégias de proteção da fibra capilar e do couro cabeludo antes, durante e após o tratamento. Segundo a médica, o suporte especializado não tem apenas função estética.
“O objetivo é preservar a integridade do couro cabeludo, reduzir desconfortos e auxiliar na recuperação mais saudável dos fios após o término da terapia oncológica. O paciente oncológico frequentemente apresenta sensibilização do couro cabeludo, ressecamento, fragilidade da haste e alterações importantes na autoestima. O suporte médico ajuda tanto na orientação quanto no manejo dessas alterações”, explica Lilian.
Segundo ela, entre as medidas normalmente recomendadas estão: evitar procedimentos químicos agressivos; reduzir fontes excessivas de calor; utilizar produtos suaves e específicos para couro cabeludo sensível; monitorar deficiências nutricionais; avaliar precocemente alterações persistentes após o tratamento.
“Em alguns casos, dependendo da avaliação médica e do momento do tratamento, podem ser considerados recursos como loções estimuladoras do crescimento, terapias regenerativas, LED de baixa potência e protocolos de recuperação capilar no pós-quimioterapia”, explica a médica.
Quando os fios voltam?
Na maioria dos pacientes, o crescimento capilar recomeça entre um e três meses após o término da quimioterapia. “Inicialmente, é comum que os fios nasçam com textura, cor ou espessura diferentes. Essas alterações geralmente são temporárias”, comenta o oncologista.
“O folículo piloso possui uma capacidade importante de regeneração. O mais importante é que o paciente tenha acompanhamento adequado para diferenciar um processo transitório de situações em que pode haver persistência da rarefação capilar”, explica a médica.
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A queda de cabelo durante o câncer não deve ser tratada como uma questão superficial. “Sabemos que a alopecia relacionada à quimioterapia pode afetar autoestima, identidade, relações sociais e até adesão ao tratamento. Para muitos pacientes, preservar parte dos fios ou receber orientação adequada durante esse processo ajuda a recuperar alguma sensação de controle em meio a um período marcado por incertezas. O cuidado oncológico moderno também passa pela qualidade de vida. E isso inclui olhar para sintomas e efeitos adversos que impactam diretamente a saúde emocional do paciente”, comenta o oncologista.