Nariz entupido constante, crises de rinite, dor de garganta frequente, sinusites repetidas e até ronco costumam ser tratados como problemas isolados, especialmente em épocas de frio, mudanças de clima ou aumento de doenças respiratórias. O otorrinolaringologista Bruno Netto, especialista em medicina funcional integrativa, esses sintomas muitas vezes fazem parte de um processo inflamatório mais amplo, que envolve diretamente o funcionamento do sistema imunológico e a saúde intestinal.
Segundo o médico, um dos principais erros é olhar apenas para o local onde o sintoma aparece, sem investigar o que pode estar sustentando a inflamação no organismo ao longo do tempo. “A medicina convencional foi construída sobre a especialização por órgão. Cada especialista trata a sua parte, e o paciente fica no meio, sem que ninguém olhe para o conjunto. O problema é que o organismo não funciona em compartimentos. Quando existe um terreno inflamatório de base, ele se manifesta em múltiplos sistemas ao mesmo tempo”, afirma.
Na prática clínica, Bruno observa que muitos pacientes passam anos tratando rinite, congestão nasal ou crises respiratórias sem uma melhora duradoura. Para ele, isso pode indicar que o problema não está apenas na via respiratória. “A rinite crônica é, muitas vezes, o sintoma mais visível de um processo inflamatório que está acontecendo em outro lugar. Quando o paciente apresenta crises recorrentes que não respondem bem aos tratamentos convencionais, associadas a fadiga, névoa mental,intestino instável, dermatite ou enxaqueca, eu começo a pensar em um terreno biológico desregulado, não em um problema isolado no nariz”, explica.
O especialista destaca que o nariz é revestido por mucosas, estruturas que fazem parte da linha de defesa do organismo e respondem diretamente ao estado do sistema imune. “O nariz é recoberto por mucosa. E mucosas são a primeira linha de defesa do organismo. Quando o sistema imune está cronicamente ativado, essa mucosa entra em estado de alerta permanente. Qualquer estímulo como cheiro, poeira, mudança de temperatura ou até determinados alimentos passa a desencadear uma resposta inflamatória exagerada. Não é fraqueza. É um sistema imune que perdeu a capacidade de calibrar sua resposta”, diz.
Dentro dessa visão integrada, o intestino ganha protagonismo. Isso porque grande parte das células de defesa do organismo está concentrada justamente na região intestinal. “Cerca de 70% do sistema imune está localizado no intestino. Existe um eixo chamado intestino-pulmão, e ele funciona de forma bidirecional. Quando há desequilíbrio da microbiota intestinal, o sistema imune inteiro sofre impacto”, afirma Bruno Netto.
Segundo ele, alterações intestinais podem reduzir a produção da IgA secretória, principal anticorpo responsável pela proteção das mucosas do corpo. Com isso, nariz, garganta e seios da face ficam mais vulneráveis. “Quando a IgA está baixa no intestino, ela também tende a estar baixa nas mucosas respiratórias. O nariz, os seios paranasais e a garganta ficam mais desprotegidos. Infecções de repetição, sinusites recorrentes e crises alérgicas mais frequentes podem surgir como consequência desse desequilíbrio”, explica.
Além disso, o médico afirma que alterações na microbiota favorecem um estado inflamatório persistente de baixo grau, capaz de sensibilizar células do sistema imune chamadas mastócitos, presentes em diferentes tecidos do corpo, inclusive nas mucosas nasais.
Outro ponto frequentemente observado nesses pacientes, segundo Bruno Netto, é a chamada permeabilidade intestinal aumentada, condição em que a barreira de proteção do intestino perde parte da sua capacidade seletiva. “A parede intestinal funciona como uma barreira inteligente: ela permite a passagem de nutrientes, mas impede a entrada de substâncias que não deveriam alcançar a circulação sanguínea. Quando essa barreira é comprometida, fragmentos bacterianos, toxinas e proteínas alimentares parcialmente digeridas conseguem atravessar essa proteção. O sistema imune entende isso como uma ameaça e ativa uma resposta inflamatória sistêmica”, explica.
Quando investigar além do sintoma
Para Bruno Netto, um dos principais sinais de alerta é justamente a repetição frequente dos sintomas, especialmente quando eles deixam de responder de forma duradoura aos tratamentos convencionais. “Quando o paciente trata rinite, sinusite ou dor de garganta repetidamente e os sintomas sempre voltam, é importante investigar além do quadro local. Muitas vezes existe um estado inflamatório sistêmico mantendo o organismo em alerta constante”, explica.
Segundo o especialista, alguns sinais merecem atenção especial, como fadiga persistente, dificuldade de concentração, alterações intestinais recorrentes, sensibilidade alimentar, dermatites, dores musculares frequentes e piora dos sintomas em períodos de estresse intenso. “Os sintomas respiratórios podem ser apenas a ponta mais visível do problema. Quando o corpo perde a capacidade de regular adequadamente a resposta inflamatória, diferentes sistemas começam a manifestar sinais ao mesmo tempo”, afirma.
Para Bruno Netto, tratar apenas o sintoma local pode até gerar alívio temporário, mas dificilmente resolve o quadro de forma duradoura quando existe uma inflamação sistêmica por trás. “Tratar a rinite com corticoide nasal sem investigar o que está mantendo a inflamação é como secar o chão enquanto a torneira continua aberta. O alívio é real, mas temporário”, diz.
Segundo ele, a investigação clínica deve ir além da pergunta “qual remédio controla esse sintoma?” e passar a buscar o que está mantendo o organismo em estado inflamatório constante. Isso inclui avaliar fatores como microbiota intestinal,qualidade do sono, estresse crônico, alimentação, perfil hormonal e hábitos de vida.
“O sono de qualidade é fundamental para a regulação do sistema imune. A alimentação anti-inflamatória reduz a carga inflamatória do organismo, o manejo do estresse ajuda a reduzir a ativação exagerada do sistema imune e a atividade física tem efeito imunomodulador importante. Nenhuma dessas medidas substitui a investigação individualizada, mas todas criam um terreno mais favorável para que o tratamento funcione”, explica o médico.
PERFIL
Bruno Netto é médico pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde também concluiu mestrado em Ciências Cirúrgicas, com ênfase em Otorrinolaringologia. Atua principalmente no diagnóstico e tratamento de rinites alérgicas, sinusites, zumbido,distúrbios respiratórios do sono e imunidade.
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