Entre jovens que buscam ganho muscular rápido, definição corporal e melhora da performance estética, o uso de esteroides anabolizantes é visto como um atalho para alcançar o resultado desejado, sendo muitas vezes cercado por uma falsa ideia de controle e de que basta adotar certos cuidados para evitar riscos.

Mas, segundo o farmacêutico Maurizio Pupo, pesquisador, professor e diretor científico do IPUPO Pós-Graduações, essa noção é perigosa, porque não existe uso estético de anabolizantes isento de risco. “Muitos usuários acreditam que estão protegidos porque usam doses consideradas baixas, realizam exames esporádicos ou recorrem a produtos vendidos como ‘protetores’ hepáticos e renais. Mas esse raciocínio é perigoso”, diz o especialista.

De acordo com Maurizio, mesmo doses menores podem alterar pressão arterial, perfil lipídico, coagulação e resposta cardiovascular de forma cumulativa. “Isso porque os anabolizantes não atuam apenas sobre os músculos aparentes, mas também sobre tecidos sensíveis à ação hormonal, como vasos sanguíneos, rins e coração. Entre as possíveis consequências estão alterações cardiovasculares, arritmias, quadros de cardiomiopatia, insuficiência cardíaca, morte súbita, trombose, alterações no perfil lipídico e perda progressiva da função renal”, diz o especialista.

E ele alerta que os supostos “protetores” não neutralizam os efeitos sistêmicos dos anabolizantes nem eliminam o risco de sobrecarga e dano aos órgãos.

Por serem jovens, treinarem intensamente e apresentarem boa aparência física, esses usuários sentem-se ainda mais seguros para usar anabolizantes. E essa falsa percepção de controle ainda é agravada pelo fato de os efeitos colaterais dos anabolizantes nem sempre aparecerem de forma imediata.

“O usuário pode interpretar a ausência de sintomas ou alterações pontuais em exames como sinal de segurança, quando, na verdade, o organismo pode estar passando por adaptações prejudiciais”, afirma Maurizio. “O indivíduo se olha no espelho e enxerga uma imagem de força e vigor, mas não percebe que, por dentro, o organismo pode estar pagando um preço alto”, acrescenta.

Outro ponto de atenção é que, ao contrário do que muitos usuários pensam, a interrupção do uso nem sempre garante a reversão completa dos danos. “A reversibilidade depende crucialmente do tempo de exposição, das doses utilizadas e da rapidez da intervenção médica. Algumas alterações podem melhorar após a suspensão, especialmente quando há intervenção precoce. Mas, em casos de uso prolongado, podem permanecer cicatrizes e mudanças estruturais que exigirão acompanhamento pelo resto da vida”, diz o especialista.

É importante, no entanto, não confundir o uso de esteroides anabolizantes em doses suprafisiológicas com a reposição hormonal chamada de fisiológica, feita com hormônios bioidênticos. “A reposição hormonal é feita em pacientes que estão na menopausa, com insuficiência de determinado hormônio depois dos 40 anos. O objetivo é devolver aquilo que a paciente não está conseguindo produzir. Já o uso de esteroides anabolizantes em doses suprafisiológicas, acima do que é considerado o ideal para cada pessoa, é usado principalmente com finalidade estética e tem muitos efeitos colaterais”, esclarece a ginecologista formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF) Patricia Magier.

“Nas mulheres, o uso de esteroides anabolizantes em doses suprafisiológicas ainda pode causar virilização, com aumento do clitóris, mudança da voz, queda de cabelo, características masculinas”, alerta a médica.

Maurizio Pupo ressalta que é fundamental ampliar a conscientização sobre os riscos do uso estético dessas substâncias entre profissionais de saúde, educadores físicos, pacientes e familiares.

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“Os esteroides anabolizantes têm indicações médicas específicas e podem ser úteis em condições bem definidas, sempre com prescrição e acompanhamento médico. O problema está no uso abusivo e não terapêutico, especialmente quando motivado por estética, pressão corporal, performance ou busca rápida por massa muscular. A beleza física jamais deveria ser conquistada à custa da saúde.”

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