Uma diferença discreta na altura dos ombros, uma escápula mais saliente ou a impressão de que o corpo está "torto" podem parecer apenas características posturais. No entanto, esses sinais podem indicar escoliose, uma deformidade da coluna vertebral que afeta entre 2% e 4% dos adolescentes e que, quando diagnosticada precocemente, apresenta melhores possibilidades de controle e tratamento.
A estudante Catherine Manella Emery, hoje com 14 anos, percebeu ainda na infância que havia algo diferente em seu corpo, embora não imaginasse que estivesse relacionado à coluna. "Desde que eu tinha uns oito anos, sempre via que eu tinha um ombro mais alto que o outro, mas nunca pensei que fosse algo ligado à minha coluna", relata.
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A suspeita surgiu durante um passeio à praia. "Minha mãe me viu de costas e reparou que eu estava muito torta. Foi aí que procuramos um médico e fizemos um raio-X", conta.
Segundo o ortopedista especialista em coluna vertebral Daniel Oliveira, sócio do Núcleo de Ortopedia e Traumatologia (NOT), esse tipo de observação feita pelos familiares é frequentemente o primeiro passo para o diagnóstico.
“A maioria dos adolescentes não apresenta sintomas nas fases iniciais da doença. Por isso, alterações na simetria corporal, como um ombro mais alto que o outro, diferença na posição das escápulas ou desalinhamento da cintura, são sinais que não devem ser ignorados.”
Uma doença silenciosa
A escoliose é caracterizada por uma curvatura lateral da coluna associada à rotação das vértebras. A forma mais comum é a escoliose idiopática do adolescente, que surge durante o período de crescimento acelerado e não possui causa definida.
De acordo com Daniel Oliveira, a condição merece atenção especial porque pode evoluir rapidamente durante a fase de crescimento.
"Existe uma verdadeira janela de oportunidade terapêutica nessa fase da vida. Quando identificada precocemente, a escoliose pode ser acompanhada e tratada de forma mais eficaz, reduzindo o risco de deformidades mais importantes e de tratamentos mais complexos no futuro.”
O especialista alerta ainda que atrasos no diagnóstico podem fazer diferença significativa na evolução do quadro. "Durante a adolescência, alguns meses podem ser decisivos. Em determinadas situações, uma deformidade que poderia ser apenas acompanhada ou tratada com colete pode evoluir para graus que exigem tratamentos mais complexos, incluindo cirurgia", destaca.
Os desafios do tratamento
Entre as estratégias terapêuticas mais utilizadas está o colete ortopédico, indicado para determinados casos durante o período de crescimento. Para Catherine, porém, a adaptação não foi simples.
"Usei o colete por mais ou menos um ano. Foi um período bem difícil porque me incomodava muito e eu ficava desconfortável na escola", lembra.
Ela relata que o dispositivo impactava diretamente sua rotina. "Eu tinha dificuldade para ficar muito tempo em pé ou sentada, sentia a respiração mais difícil, tinha câimbras no braço que ficava mais alto e o colete chegou a machucar minha coxa."
Segundo Daniel Oliveira, essas dificuldades são comuns e exigem acompanhamento próximo da equipe médica. "O tratamento com colete exige adaptação física e emocional, especialmente porque ocorre em uma fase da vida marcada por intensa interação social e escolar. Sabemos que sua eficácia está diretamente relacionada ao tempo de uso diário, por isso é fundamental investir na adesão ao tratamento e realizar ajustes sempre que necessário.”
O especialista ressalta que o suporte multidisciplinar, incluindo fisioterapia e, em alguns casos, acompanhamento psicológico, pode contribuir para melhorar a aceitação do tratamento.
Exercícios ajudam, mas não corrigem a deformidade
Após interromper o uso do colete, Catherine passou a realizar acompanhamento médico e fisioterapia para estabilização da curva. Apesar disso, afirma que continua convivendo com desconfortos. "Os maiores desafios são as dores constantes. Quando faço exercícios ou fico muito tempo em pé ou sentada, elas pioram.”
Embora a atividade física seja importante para a saúde geral dos adolescentes, Daniel Oliveira esclarece que modalidades como natação, musculação, pilates ou esportes recreativos não corrigem sozinhas a escoliose estrutural.
"Muitos pacientes recebem a orientação de praticar natação, mas é importante entender que nenhuma atividade física isolada corrige a deformidade. Hoje existem programas específicos de fisioterapia para escoliose que podem auxiliar no controle da progressão e na melhora da qualidade de vida.”
Sobre as dores relatadas por alguns pacientes, o médico faz uma ressalva. "A escoliose idiopática do adolescente geralmente não está associada a dores intensas. Quando a dor é persistente, progressiva ou interfere significativamente nas atividades diárias, merece uma investigação mais aprofundada para identificar outras possíveis causas."
Informação e acompanhamento especializado
Após o término do crescimento, o foco do acompanhamento passa a ser a manutenção da função da coluna, o monitoramento da estabilidade da deformidade e a prevenção de sintomas futuros.
Para famílias que recebem o diagnóstico pela primeira vez, Daniel Oliveira reforça uma mensagem de tranquilidade. "A grande maioria dos pacientes pode ser acompanhada e tratada com excelentes resultados quando existe diagnóstico precoce e seguimento especializado. Cada caso é único e deve ser avaliado individualmente."
Catherine também deixa um conselho para quem está iniciando essa jornada. "Buscar tratamento o mais rápido possível para ter mais chances de controlar a curva."
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A recomendação de especialistas é que pais e responsáveis observem regularmente o desenvolvimento corporal dos filhos, principalmente durante a adolescência. Pequenas assimetrias, quando identificadas a tempo, oferecem melhores perspectivas de tratamento e qualidade de vida.
