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A dificuldade para sentir o aroma do café, o perfume de alguém próximo ou até mesmo o cheiro de fumaça e do gás pode parecer um problema “pequeno” à primeira vista. No entanto, a perda do olfato é uma condição que afeta milhões de pessoas e pode comprometer de maneira significativa a qualidade de vida, a alimentação e até a segurança doméstica.
De acordo com Deusdedit Brandão, otorrinolaringologista e fellow de Cirurgia Endoscópica Endonasal e da Base do Crânio pelo Hospital das Clinicas da USP, a perda do olfato pode se manifestar de diferentes formas. Ele explica que a pessoa pode deixar de sentir completamente os cheiros, condição chamada de anosmia, ou apresentar apenas uma redução da capacidade olfatória, conhecida como hiposmia.
Além disso, também existem situações que os odores são percebidos de forma distorcida, chamadas de parosmia. “Um exemplo clássico é sentir cheiro de fumaça quando, na verdade, está cheirando café.”
O fato é que muitas vezes essa alteração é confundida com perda do paladar. Segundo o especialista, isso acontece porque grande parte da percepção dos sabores depende diretamente do olfato. “É comum os pacientes relatarem que a comida ficou sem gosto, mas, na verdade, o principal problema está na capacidade de perceber os aromas dos alimentos”, atesta o também membro da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF)
Súbita ou gradual?
A alteração do olfato pode ocorrer repentinamente, após infecções virais, como gripes, resfriados e COVID-19, ou ainda após traumatismos cranianos. Em outros casos, a perda acontece gradualmente devido à rinite, à rinossinusite crônica, aos pólipos nasais, ao tabagismo, ao envelhecimento e às doenças neurológicas.
De acordo com Deusdedit, o olfato depende de um sistema complexo, onde o cheiro precisa alcançar os receptores localizados na parte superior do nariz e essas informações devem ser transmitidas corretamente ao cérebro. “Qualquer falha nesse percurso pode gerar perda ou alteração na percepção dos odores.”
Segundo o otorrinolaringologista, a perda do olfato pode acontecer em qualquer faixa-etária. Em crianças, por exemplo, costuma estar associada à rinite, à sinusite, ao aumento da adenoide e às obstruções nasais e infecções respiratórias. Já em jovens e adultos, as causas mais comuns incluem:
- Alergias
- Sinusites crônicas
- Pólipos (massa de tecido que surge na superfície interna de órgãos)
- Traumas cranianos
- Infecções virais
“Com o envelhecimento, o problema se torna mais frequente, pois a partir dos 60 anos, a perda olfatória tende a aumentar progressivamente”, relata, ao comentar que além do envelhecimento natural do sistema olfatório, é importante investigar possíveis doenças neurológicas, uso de medicamentos e outras condições associadas.
Pontos de atenção
O otorrinolaringologista revela que mesmo a pessoa não sentindo cheiro, no geral, algumas continuam percebendo odores específicos. Ele explica que nem toda perda é total e que alguns cheiros possuem moléculas mais intensas ou estimulam outras terminações nervosas, além do nervo olfatório.
“O cheiro de barata, por exemplo, costuma ser muito marcante e associado a memórias emocionais, o que facilita seu reconhecimento, mesmo em pessoas com redução importante do olfato.”
Embora nem todos os casos possam ser evitados, de acordo com o especialista, algumas medidas ajudam a reduzir os riscos, como o tratamento adequado de rinite e sinusite, além de:
- Evitar o tabagismo
- Diminuir a exposição a produtos químicos irritantes
- Manter a vacinação em dia
- Procurar atendimento médico
“O sintoma não deve ser ignorado"
Quando a perda do olfato dura mais de algumas semanas, surge de forma repentina, sem explicação, ou ocorre após um trauma na cabeça, é fundamental procurar avaliação especializada”, orienta, ao comentar que o tratamento varia de acordo com a origem do problema. Segundo ele, em crianças geralmente envolve o controle de alergias, lavagem nasal e tratamento de obstruções. Já em adultos, podem ser utilizados medicamentos para controle da inflamação nasal, tratamento de pólipos e, em alguns casos, cirurgia.
“Para as perdas relacionadas a infecções virais, uma das estratégias mais utilizadas é o treinamento olfatório, técnica que consiste em estimular repetidamente a percepção de odores específicos durante vários meses.”
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Também existem terapias promissoras em estudo, como aplicação de laser e insulina na região olfatória. Para o otorrinolaringologista o mais importante é identificar precocemente a causa para aumentar as chances de recuperação e minimizar os impactos na vida do paciente.