Uso excessivo de analgésicos piora enxaqueca e compromete saúde do cérebro
A automedicação pode agravar a doença e prender pacientes no ciclo da dor
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Dados do Ministério da Saúde revelam um cenário preocupante: entre janeiro e abril de 2025, o Sistema Único de Saúde (SUS) realizou 109 mil atendimentos relacionados à enxaqueca. No mesmo período de 2024, foram menos de 70 mil atendimentos. Ao longo de todo o ano de 2024, foram registrados 258 mil atendimentos, número muito superior aos cerca de 40 mil registrados em 2014.
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"A enxaqueca é uma doença neurológica complexa e não deve ser tratada somente como uma dor de cabeça ou apenas durante as crises. O uso frequente de medicamentos para aliviar dores pode fazer com que as crises se tornem cada vez mais frequentes e intensas", alerta a neurologista Thais Villa, especialista no diagnóstico e tratamento da enxaqueca.
Segundo a médica, utilizar mais de três doses de analgésicos por semana já é considerado um sinal de alerta. O consumo repetitivo de analgésicos, anti-inflamatórios e medicamentos específicos para enxaqueca, como os triptanos, pode levar à chamada dor de cabeça por uso excessivo de medicamentos, atualmente considerada a principal causa de cronificação da doença.
"O organismo vai perdendo, progressivamente, a sua capacidade natural de controlar a dor. O paciente entra em um ciclo vicioso: quanto mais remédio toma, mais dor sente e a necessidade de novas medicações aumenta", explica a médica.
O uso contínuo de medicamentos para aliviar as crises não potencializa apenas o risco de cronificação da doença. A especialista explica que muitos efeitos colaterais, como a perda progressiva da resposta aos analgésicos ou alterações no funcionamento do intestino, relatados por alguns pacientes, podem estar relacionados ao uso excessivo dos medicamentos utilizados para controlar as crises da doença.
"Quando há dor de cabeça por excesso de medicamentos, o tratamento exige uma desintoxicação, com a suspensão das medicações utilizadas de forma recorrente e o início de uma estratégia preventiva individualizada para que o cérebro volte a responder adequadamente", afirma a neurologista.
Embora a dor de cabeça seja o sintoma mais conhecido, a enxaqueca é uma doença que afeta diversas funções do cérebro. As crises costumam provocar dor unilateral, pulsátil e de intensidade moderada a forte, frequentemente acompanhada de náuseas, vômitos, sensibilidade excessiva à luz (fotofobia), aos sons (fonofobia) e cheiros (osmofobia), irritabilidade extrema, alterações de humor, déficit de atenção, insônia, ansiedade e dor na região cervical, entre outras.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 15% da população mundial convive com a enxaqueca. No Brasil, são cerca de 30 milhões de pessoas com a condição.
Diagnóstico precoce é fundamental
A enxaqueca é uma doença de causa hereditária, sem cura e um dos principais desafios ainda é a baixa visibilidade da doença. Muitas pessoas continuam recorrendo à automedicação para manter a produtividade, evitar afastamentos do trabalho e seguir a rotina, adiando a procura por atendimento especializado.
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Esse comportamento pode mascarar a doença e favorecer sua evolução para formas crônicas, comprometendo significativamente a qualidade de vida.“Reconhecer a enxaqueca como uma doença neurológica, buscar diagnóstico precoce e adotar o tratamento preventivo adequado são medidas essenciais para interromper o ciclo da dor, reduzir o risco de cronificação e evitar as consequências da automedicação”, alerta Thais Villa.