Com o processo de envelhecimento da população brasileira, cresce também a necessidade de o setor farmacêutico desenvolver medicamentos específicos para os idosos. Especialistas alertam que as fórmulas, dosagens e apresentações tradicionais, muitas vezes, não atendem às necessidades dessa parcela da população, que apresenta características fisiológicas próprias e, frequentemente, faz uso simultâneo de vários medicamentos.
- Como ajudar idosos a não esquecerem de tomar medicamentos
- Brasil envelhece, mas rede de cuidados ao idoso é pequena e restrita ao Sul e Sudeste
Segundo projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil terá, nas próximas décadas, uma população idosa maior do que a de crianças e adolescentes. O fenômeno do envelhecimento populacional já impacta diretamente o sistema de saúde, a indústria farmacêutica e as políticas públicas voltadas ao cuidado com a longevidade.
Segundo o geriatra Renato Veras, especialista em estudos sobre envelhecimento, o país ainda precisa avançar na criação de soluções farmacêuticas mais adequadas ao público idoso. “Os idosos têm necessidades específicas. Não se trata apenas de reduzir a dose de um medicamento desenvolvido tradicionalmente para adultos. O envelhecimento provoca alterações no organismo que mudam a forma como o corpo absorve, metaboliza e elimina os remédios”, afirma.
Outro ponto importante é a chamada polifarmácia — situação em que o paciente utiliza vários medicamentos ao mesmo tempo. De acordo com Renato, esse cenário aumenta o risco de interações medicamentosas, reações adversas e internações evitáveis. “Precisamos de uma maior integração da geriatria, indústria farmacêutica e realidade demográfica brasileira. O envelhecimento populacional não é um fenômeno futuro, ele já está acontecendo. Desenvolver medicamentos específicos para idosos é uma questão estratégica de saúde pública”, ressalta.
Leia Mais
O tema também vem ganhando espaço dentro da própria indústria farmacêutica nacional. Na avaliação de Renato Alves, presidente da Hipolabor, o Brasil precisa avançar na criação de uma legislação específica que estimule e regulamente o desenvolvimento de medicamentos voltados à população idosa.
“Hoje, ainda não existe no país uma regulamentação específica voltada aos medicamentos geriátricos. O envelhecimento da população exige uma atualização das políticas públicas e também das normas da indústria farmacêutica, para incentivar pesquisas, novas apresentações e soluções adequadas aos idosos”, defende.
Segundo Renato, além das questões clínicas, a discussão passa também pela acessibilidade e pela adesão ao tratamento. “É importante pensar em embalagens mais funcionais, formas farmacêuticas mais fáceis de administrar e medicamentos que contribuam para a segurança terapêutica desse público”, destaca.
Longevidade exige novo modelo de cuidado com a saúde
O geriatra argumenta que o envelhecimento acelerado da população brasileira exige uma transformação profunda na forma como a medicina e os sistemas de saúde compreendem o cuidado com os idosos. Segundo Renato, já não é mais possível enxergar a saúde apenas a partir do ato clínico individual ou do tratamento pontual de doenças. O avanço da longevidade tem como consequência a predominância das condições crônicas, como hipertensão, diabetes, demências, doenças cardiovasculares, fragilidade, sarcopenia, depressão, declínio cognitivo e multimorbidade.
“A doença aguda termina. A doença crônica exige gestão contínua”, resume o especialista. Nesse cenário, o médico defende que a prevenção da perda funcional deve ocupar papel central nas políticas de saúde pública e nos modelos assistenciais voltados à população idosa. “Prevenir perda funcional é muito mais eficaz do que intervir tardiamente nas crises. Precisamos acompanhar o envelhecimento antes que ocorram as grandes descompensações”, afirma.
- Há remédios que não devem ser tomados com café, chá ou chocolate quente
- Como relógio biológico pode indicar melhor horário para tomar remédio e vacina
O médico também destaca a importância da adoção do Modelo Assistencial Integral e Resolutivo (Mair), que propõe uma abordagem contínua, preventiva e multidisciplinar para o cuidado com os idosos. Esse modelo parte de uma constatação simples: na velhice, o objetivo central da medicina não pode ser exclusivamente a cura biológica. Em muitos casos, a cura não é possível.
O que se torna necessário é estabilizar doenças, acompanhar continuamente os pacientes, prevenir perdas funcionais, preservar a autonomia, reduzir danos e evitar agravamentos clínicos. “A medicina precisa sair da lógica da doença isolada e entrar na lógica da trajetória. Sair do evento agudo e entrar na continuidade”, defende.
O geriatra avalia que a longevidade representa uma das maiores conquistas da civilização contemporânea, mas também impõe novos desafios sociais e assistenciais. “Hoje, após décadas dedicadas ao envelhecimento humano, compreendo que a longevidade nos impõe uma responsabilidade inédita: aprender a cuidar de vidas mais longas sem transformar o envelhecimento em abandono, medicalização excessiva ou sofrimento evitável.”
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Para o especialista, o principal desafio das próximas décadas será construir sistemas capazes de garantir dignidade, autonomia e qualidade de vida à população idosa. “Porque viver mais é uma vitória biológica. Mas viver mais com autonomia, pertencimento, afeto, funcionalidade e sentido é uma conquista civilizatória.”
