Uma das condições endócrinas mais frequentes entre mulheres em idade reprodutiva passa por uma mudança histórica de nomenclatura. Consenso global publicado nesta terça-feira (12/5), no The Lancet, propõe que a síndrome dos ovários policísticos (SOP), Polycystic Ovary Syndrome, em inglês, passe a ser chamada de síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP), ou Polyendocrine Metabolic Ovarian Syndrome.

A alteração é resultado de um processo internacional construído em várias etapas, com participação de pacientes, profissionais de saúde de diferentes especialidades e organizações científicas de várias regiões do mundo.

Segundo a endocrinologista Poli Mara Spritzer, subcoordenadora do Departamento de Endocrinologia Feminina, Andrologia e Transgeneridade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o objetivo da mudança é corrigir uma limitação antiga do termo “ovários policísticos”. A expressão, explica a médica, induz à ideia de que a síndrome se resume à presença de cistos nos ovários.

Poli Mara representou o Brasil, por meio da SBEM, no Global Name Change Consortium, grupo formado por lideranças internacionais que participaram da atualização. “Este processo de troca de nome foi uma iniciativa global de grande magnitude e, por isso, representativa de pacientes, clínicos e agentes de políticas públicas. A denominação antiga era errônea porque focava apenas nos chamados cistos, que na verdade não são cistos, mas folículos com crescimento interrompido. Além disso, algumas mulheres com o diagnóstico nem apresentam esse aspecto nos ovários”, explica a endocrinologista.

Sem diagnóstico

De acordo com o artigo, a SOMP afeta mais de 170 milhões de mulheres no mundo. Apesar da alta prevalência, muitas ainda permanecem sem diagnóstico ou recebem a confirmação apenas após anos de investigação. A mudança de nome busca ampliar a compreensão sobre a síndrome, que envolve alterações hormonais, metabólicas, reprodutivas, dermatológicas e impactos psicológicos.

“A síndrome tem causas genéticas, endócrinas e metabólicas, com o comprometimento de vários hormônios, como insulina, androgênios, hormônio luteinizante (LH) e hormônio antimülleriano (AMH). O novo nome é mais abrangente e inclusivo para as mulheres que convivem com a condição”, afirma a endocrinologista.

A mudança de nomenclatura, no entanto, não altera os critérios diagnósticos. A SOMP continua sendo identificada a partir da avaliação de alterações como:

  • Irregularidade menstrual
  • Disfunção ovulatória
  • Hiperandrogenismo clínico ou laboratorial (excesso de hormônios masculinos no organismo da mulher)
  • Achados ovarianos compatíveis

O que muda é a forma de nomear e comunicar a síndrome

Para a vice-presidente da SBEM, Karen de Marca, a atualização reflete o que já é observado na prática clínica. “A adoção de uma nova nomenclatura vem de um processo de reconhecimento da complexidade desta síndrome, tanto na sua etiologia quanto na sua apresentação clínica e em suas complicações cardiometabólicas. O novo nome deixa mais claro que o diagnóstico vai muito além da aparência dos ovários e que o tratamento pode exigir uma abordagem multidisciplinar e suporte farmacológico diverso”, afirma.

A mudança foi construída por meio de um processo de consenso global que incluiu mais de 14 mil respostas em pesquisas internacionais, oficinas com representantes de diferentes regiões e participação de 56 organizações científicas, clínicas e de pacientes. Entre os princípios considerados para a escolha do novo nome estão precisão científica, clareza na comunicação, redução de estigma, adequação cultural e viabilidade de implementação.

A transição para a nova nomenclatura deve ocorrer de forma gradual, ao longo de três anos, com desenvolvimento de materiais educativos, atualização de diretrizes, incorporação em sistemas de saúde, prontuários eletrônicos, classificações de doenças e ações de comunicação voltadas a profissionais de saúde e pacientes.

A expectativa é que a SOMP ajude a acelerar o diagnóstico e melhorar o cuidado. “O novo nome deverá melhorar a compreensão desta condição para médicos, outros profissionais da saúde e, principalmente, para as mulheres que convivem com a SOMP. Isso pode facilitar a investigação e tornar o diagnóstico mais ágil. Muitas mulheres passam anos sem ter a confirmação diagnóstica e, em consequência, sem o tratamento adequado”, afirma Poli Mara.

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A especialista também avalia que a mudança pode ter reflexos além da prática clínica, ao dar mais visibilidade à condição em políticas públicas e no financiamento de pesquisas. “A SOMP ainda é subfinanciada, apesar de sua elevada prevalência. A mudança de nome também pode contribuir para melhorar políticas de saúde e estimular novas pesquisas, já que ainda há questões relevantes não resolvidas”, destaca.

 

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