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Por André Julião
O vírus sabiá (SABV), causador de uma síndrome hemorrágica e neurológica agudacom quatro casos fatais registrados desde 1990 no Estado de São Paulo, circula há 142 anos no Brasil. Análises recentes de dois casos registrados em 2019 e 2020 revelam que o vírus apresenta variação genética ao longo do tempo, e por isso não foi identificado pelos testes existentes.
Os resultados são parte de um estudo publicado na revista PLOS Neglected Tropical Diseasespor pesquisadores do Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (CADDE), apoiado pela Fapesp, sediado na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e no Imperial College, no Reino Unido. O grupo desenvolveuprimers, pequenos fragmentos de DNA usados para detectar o vírus em testes laboratoriais. O material foi encaminhado ao Instituto Adolpho Lutz, em São Paulo, referência no estado para esse tipo de teste.
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“A cepa-referência do vírus sabiá é de 1990, de um caso em Cotia. O método diagnóstico foi desenvolvido a partir desse genoma. Como se passaram mais de 30 anos, era mesmo provável que o vírus tivesse se modificado. Não temos tantas ocorrências para poder fazer novas validações desse método, mas ele pode ser utilizado para futuros casos suspeitos com mais precisão do que os testes usados até então”, afirma Ingra Morales Claro, que realizou o trabalho durante doutorado com bolsa da FAPESP na FM-USP e atualmente realiza pós-doutorado na Universidade do Kentucky, nos Estados Unidos.
Os genomas recuperados do sabiá apresentaram 89% de identidade genética em comparação com cepas previamente descritas em 1999, quando foi registrado o segundo caso da história. “Ao analisar o genoma dos casos novos, identificamos mutações em regiões-alvo dos primers que impediram a detecção pelos testes diagnósticos existentes. Modificamos essas regiões e agora é possível identificar as cepas circulantes”, explica Claro.
O CADDE é coordenado no Brasil por Ester Sabino, professora da FM-USP responsável pelo primeiro sequenciamento do Sars-CoV-2 no país, em março de 2020, e do vírus mpox, em 2022. No Reino Unido, o centro é coordenado por Nuno Faria, do Imperial College.
A equipe de Faria coordenou o projeto ZiBRA, que sequenciou o vírus zika, mapeou o surto de febre amarela e a sua dispersão no Brasil e em São Paulo, além de ter coordenado, junto com Sabino, a primeira caracterização da variante gama do SARS-CoV-2 em Manaus.
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Como o vírus interage com células humanas
O caso de 2020 de infecção pelo SABV foi identificado por meio de análise metagenômica, técnica que permite detectar diferentes microrganismos diretamente em uma amostra, sem precisar saber previamente qual vírus procurar. O sabiá estava presente no sangue de um paciente de 52 anos de Sorocaba, no interior de São Paulo. O método utilizado foi uma abordagem rápida de metagenômica desenvolvida durante o doutorado de Claro, permitindo a detecção ágil de patógenos emergentes em amostras clínicas.
Com histórico de caminhadas por áreas florestais, o homem buscou cuidados numa unidade básica de saúde em 30 de dezembro de 2019, foi transferido para o Hospital das Clínicas de São Paulo com suspeita de febre amarela e acabou morrendo em 11 de janeiro de 2020. Os testes iniciais deram negativo para febre amarela e sabiá.
Após detectar o vírus na amostra do paciente de Sorocaba, os pesquisadores decidiram analisar amostras de sangue de outros sete casos prévios de síndrome hemorrágica e neurológica aguda que haviam testado negativo para febre amarela. Foi então que encontraram o caso de um trabalhador rural de 63 anos de Assis, internado no Hospital das Clínicas em 10 de dezembro de 2019 e morto dois dias depois.
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Mapa dos municípios do Estado de São Paulo indicando os locais de detecção de infecções naturais pelo vírus sabiá (SABV). Caso 1 (1990), em Cotia; Caso 2 (1999) em Espírito Santo do Pinhal. Casos 3 e 4, de 2019 e 2020, pacientes de Sorocaba e Assis.
Em conjunto, os dados indicam a circulação silenciosa e a diversidade genética do SABV ao longo do tempo (imagem: Ingra M. Claro/FM-USP)
Nos dois casos, os pesquisadores observaram alterações na proteína de ligação do vírus com a célula humana. Análises filogenéticas, que permitem reconstruir a história evolutiva do patógeno, indicaram que ele circula há décadas no Brasil e possivelmente não se trata de uma introdução recente.
“Provavelmente houve outros casos no passado que não foram identificados. É importante conhecer o vírus, desenvolver os testes e estudar as alterações que ocorrem no seu genoma a fim de nos anteciparmos a futuros novos casos e mesmo surtos da doença”, alerta Sabino.
Reservatório desconhecido
Não se conhece ainda a espécie que serve de reservatório para o SABV, mas acredita-se que sejam roedores silvestres. As infecções se deram em áreas rurais, onde pode haver interação entre animais e seres humanos.
“Nesse contexto, abordagens de metagenômica têm se mostrado ferramentas essenciais para a detecção de patógenos raros ou inesperados, especialmente quando testes diagnósticos direcionados falham. Essa estratégia foi fundamental tanto na identificação de casos fatais de sabiá em humanos como em animais silvestres e destaca o papel essencial da vigilância genômica na detecção de riscos à saúde pública”, afirma Faria, do Imperial College, dando como exemplo um estudo recente do grupo sobre a evolução e a dinâmica de transmissão da febre amarela no Brasil.
O SABV é considerado um dos vírus brasileiros com maior risco de transmissão por aerossóis em ambiente laboratorial, o que demanda o nível máximo de biossegurança para manipulá-lo, algo ainda inexistente na América do Sul.
Está prevista para 2030 a inauguração do Orion, o primeiro laboratório no país capacitado para armazenar e manipular o vírus ativo, em construção no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas. Atualmente, a cepa de referência do sabiá está guardada nos Estados Unidos.
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O artigo Genomic characterization of sabiá virus in Brazil, 2019-2020: Implications for diagnostics, virus evolution, and receptor binding pode ser lido em: journals.plos.org/plosntds/article?id=10.1371/journal.pntd.0014008.