Após uma queda durante a pandemia, as internações por varicela e herpes-zóster voltaram a crescer no Brasil. Dados do DataSUS indicam que os registros passaram de cerca de 3,3 mil em 2021–2022 para mais de 5,4 mil em 2025–2026 — um aumento de aproximadamente 61% em poucos anos.

“O herpes-zóster é uma reativação do vírus da varicela, que permanece latente no organismo após a catapora e pode voltar anos depois, principalmente com o avanço da idade e a queda da imunidade celular”, explica a infectologista Rosana Richtmann, do laboratório Exame e consultora em vacinas na Dasa.

“Ele pode se manifestar em diferentes partes do corpo, mas quando acomete o nervo trigêmeo, na face, o risco de complicações é maior, sobretudo quando há envolvimento ocular”, alerta.

Quando o vírus atinge a face

A manifestação facial está longe de ser exceção. Estimativas da literatura médica — descritas em revisões clínicas como as publicadas no periódico científico The Lancet - indicam que entre 10% e 20% dos casos de herpes-zóster acometem o nervo trigêmeo, responsável pela sensibilidade da face.

Embora os dados públicos de saúde não detalhem com precisão quantos desses casos evoluem especificamente com acometimento facial, isso se deve, em grande parte, à forma como os registros são classificados. Bases como o DataSUS agrupam varicela e herpes-zóster dentro de uma mesma categoria e nem sempre distinguem o território nervoso afetado.

Ainda assim, a literatura clínica permite compreender a dimensão do problema e indica que o envolvimento da face representa uma parcela relevante dos casos, com maior potencial de complicações.

Quando o herpes-zóster atinge a face, o impacto pode ir além da fase aguda. Sem diagnóstico precoce ou tratamento adequado, o quadro pode evoluir com complicações como comprometimento ocular — com risco de perda de visão —, alterações na movimentação facial e dor persistente, conhecida como neuralgia pós-herpética, que pode durar meses ou até anos. Nesses quadros, sinais como lesões na ponta do nariz podem indicar maior probabilidade de comprometimento ocular.

Da dor inicial às sequelas

Na prática, o quadro costuma começar de forma pouco evidente. Há dor, formigamento ou uma sensação difícil de descrever — antes mesmo do aparecimento das lesões.

Foi assim que tudo começou para a enfermeira aposentada Maria do Socorro Villamarim. Aos 70 anos, ela enfrentava um período de desgaste emocional quando percebeu os primeiros sinais. “Era muita dor, uma agonia que não combinava com nada que eu já tinha sentido”, relembra. “Eu estava muito abalada. Foi uma fase difícil — e foi ali que tudo começou.”

O diagnóstico veio rapidamente: herpes-zóster. Segundo revisão publicada no New England Journal of Medicine, o vírus pode se reativar nos gânglios nervosos e, quando atinge o nervo trigêmeo, manifesta-se no rosto, seguindo um trajeto bem definido.

No caso de Maria do Socorro, o acometimento foi justamente nessa região. O tratamento foi intenso, com uso frequente de medicamentos, colírios e cuidados locais. Ainda assim, a evolução trouxe consequências. “Fiquei com o olho e a boca tortos. O neurologista disse que eu precisaria de fisioterapia. Fiz mais de dois meses.”

A recuperação veio, mas não de forma completa. Hoje, aos 74 anos, ela relata que o rosto ainda responde a variações emocionais. “Não ficou como antes. Tem dias que, se eu fico triste, parece que muda um pouquinho.”

Para o infectologista Guenael Freire, do São Marcos Saúde e Medicina Diagnóstica, também da Dasa, esse tipo de evolução reforça que a doença não deve ser subestimada. “Quando o vírus acomete nervos, especialmente na face, ele pode deixar sequelas que persistem mesmo após o tratamento. A principal delas é a neuralgia pós-herpética, uma dor crônica, contínua ou em crises, de difícil controle e que, muitas vezes, é mais intensa do que o próprio quadro inicial de zoster. Não é apenas uma lesão de pele — é um quadro neurológico que pode afetar profundamente a qualidade de vida.”

Já a infectologista Luisa Chebabo, dos laboratórios Sérgio Franco e Bronstein, destaca que o principal desafio hoje não está no diagnóstico, mas na prevenção. “Sabemos quem está mais exposto, entendemos o comportamento da doença e temos ferramentas eficazes para evitá-la. Hoje, inclusive, já é possível realizar a vacinação por meio de atendimento domiciliar, o que facilita o acesso, especialmente para pessoas com mobilidade reduzida ou rotina mais restrita.”

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A história de Maria do Socorro ajuda a traduzir esse cenário. A dor passou, mas o impacto permaneceu. “Hoje estou bem, graças a Deus. Mas não tem como esquecer aqueles dias.” Mais do que um episódio isolado, o herpes-zóster no rosto revela um padrão conhecido e ainda pouco antecipado. A doença não chega sem sinais. O risco é identificado. A prevenção existe, mas, seguimos reagindo, muitas vezes quando o processo já está em curso.

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