O uso das canetas emagrecedoras, baseadas em agonistas do GLP-1, tem transformado o tratamento da obesidade e acelerado a perda de peso de milhões de pessoas no mundo. Mas, enquanto o corpo emagrece, uma pergunta começa a surgir: por que o medo de engordar continua e, em alguns casos, até aumenta?

Para a neurocientista do comportamento alimentar Sophie Deram, o fenômeno revela um ponto pouco discutido: o emagrecimento não reprograma automaticamente o cérebro. “O corpo pode mudar rápido com o medicamento, mas o cérebro continua operando com base em memórias antigas de peso e fica assustado com a restrição, gerando estresse, medo e culpa”, explica.

“É como se a ameaça da perda de peso e a necessidade de reganho trouxesse essa dualidade interna. O medo do reganho de peso continua ativo, e é realidade, mesmo quando o peso já diminuiu”, comenta Sophie.

Sophie Deram, nutricionista e pesquisadora em neurociência do comportamento alimentar

Vincent Bosson Photography/Divulgação

Do ponto de vista da neurociência, a relação com a comida é construída com paz e autorregulação e os ciclos de dieta, restrição e compensação que levam ao efeito sanfona alteram essa relação.

Estudos recentes mostram que os medicamentos à base de GLP-1 atuam diretamente em áreas cerebrais ligadas ao apetite e à recompensa, reduzindo a chamada “food noise” (o pensamento constante sobre comida) . Além disso, há evidências de que eles alteram a resposta do cérebro a estímulos alimentares e circuitos de recompensa ligados à dopamina.

Mas há um ponto-chave: reduzir o apetite não significa reconstruir a relação com a comida “Se a pessoa passou anos vivendo em restrição, o cérebro aprende que comida é um recurso escasso. Esse registro não desaparece só porque a fome diminuiu com o medicamento”, afirma Sophie.

Embora muitos pacientes relatem alívio por “pensar menos em comida”, os profissionais da saúde começam a observar um efeito paralelo: uma vigilância constante sobre o corpo e o peso.

Uma revisão científica recente, publicada no Journal of Diabetes & Metabolic Disorders destaca que, além dos efeitos metabólicos, esses medicamentos também impactam comportamento, humor e percepção alimentar, podendo alterar a forma como o indivíduo se relaciona com a comida. “Quando o controle vem de fora, neste caso do remédio, e não de uma reconexão com os sinais internos, o risco é trocar a compulsão por rigidez. A pessoa come menos, mas pensa mais sobre isso”, explica.

Outro fenômeno observado é a dissonância entre o corpo real e a percepção interna. Mesmo após perder peso, muitos pacientes continuam com medo de comer certos alimentos, evitam situações sociais com comida e sentem culpa ao comer “normalmente”. Isso acontece porque o cérebro ainda está condicionado por experiências anteriores.

“O emagrecimento resolve o sintoma visível, mas não necessariamente a raiz emocional e comportamental. Sem esse trabalho, o medo de engordar continua”, destaca Sophie.

A especialista destaca 3 sinais de que a relação com a comida ainda precisa de atenção (mesmo após emagrecer)

  • Você sente medo constante de voltar a engordar
  • Comer “fora do planejado” gera culpa ou ansiedade
  • Você depende de controle externo (remédio, regras rígidas) para se sentir seguro

O uso de medicamentos pode ser um avanço importante no tratamento da perda de peso na obesidade, mas não encerra a conversa sobre comportamento alimentar e saúde.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Para Sophie Deram, o ponto central é que o cérebro não acompanha a mesma velocidade das mudanças no corpo. “Quando não olhamos para a relação emocional com a comida, corremos o risco de tratar o peso, mas manter intacto o sofrimento. E é isso que mantém o medo de engordar vivo, mesmo quando o peso já mudou”, conclui.

compartilhe