SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "'Puxei' o nariz do meu pai. O que me incomodava não era a curvatura, mas o tamanho e o formato. Não combinava muito com o meu rosto", afirma o gerente de comunicação em redes sociais Civis Emanuel, 30. Em 2024, ele decidiu aproveitar uma cirurgia de correção de desvio de septo para fazer uma rinoplastia, procedimento estético para remodelar o nariz.

Falar sobre procedimentos estéticos como esse já foi tabu entre os homens, mas essa lógica vem mudando. O número de intervenções cirúrgicas realizadas em homens no mundo dobrou em sete anos, saindo de 1,4 milhão em 2018 para 2,8 milhões em 2024, um aumento de 95,7%, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS, na sigla em inglês).

Já os tratamentos estéticos sem cirurgia, como aplicações de botox, ácido hialurônico, bioestimuladores de colágeno e remoção de pelos, mais que dobraram em pacientes masculinos no período, saindo de 1,5 milhão em 2018 para 3,2 milhões em 2024, um aumento de 116,6%.

A ISAPS estima que os homens já representam cerca de 15% a 20% de todos os procedimentos estéticos realizados no mundo.

De 2018 a 2024, o crescimento de procedimentos cirúrgicos entre as mulheres foi de 59,2%, de 9,1 milhões para 14,6 milhões. No mesmo período, as intervenções não cirúrgicas tiveram um aumento de 54,8% entre as mulheres, de 11,1 milhões para 17,2 milhões.

Segundo a ISAPS, o Brasil foi o país com mais procedimentos cirúrgicos feitos em 2024, cerca de 2,3 milhões naquele ano. Somando os não cirúrgicos (769,2 mil), o número de intervenções estéticas chegou a 3,1 milhões naquele ano. Tanto a entidade internacional quanto a SBCP não têm um recorte de gênero da população brasileira desses tratamentos.

"Sou cirurgião plástico há 12 anos. Neste período vi crescer enormemente a busca de cirurgia estética por homens", afirma o cirurgião plástico Jairo Casali, membro da ISAPS e da SBCP (Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

Durante a especialização, Casali conta que até a linguagem usada era apenas no feminino. "Falávamos em cirurgias para mulheres, como se os procedimentos fossem voltados exclusivamente para elas."

Mas esse cenário vem mudando. Em seu consultório, Casali diz que pelo menos 30% dos pacientes são homens. "Hoje, ampliamos a abordagem de gênero para garantir uma comunicação mais inclusiva, capaz de atender todo o público e não apenas um segmento específico."

Na perspectiva de André Maranhão, diretor de eventos científicos da SBCP, há uma redução do estigma em relação ao autocuidado masculino acontecendo.

"Quando me especializei, há pouco mais de 20 anos, a cirurgia plástica estética era majoritariamente associada às mulheres. Havia um componente cultural forte de resistência e até preconceito em relação ao homem que buscava cirurgia estética", diz.

Segundo Maranhão, o avanço das técnicas cirúrgicas e não cirúrgicas oferecem resultados mais naturais, recuperação mais rápida e menor impacto na rotina. "O cuidado com a aparência passou a ser entendido como parte da saúde, do bem-estar e também da inserção social e profissional."

Para o cirurgião plástico Tárik Nassif, o aumento da presença masculina nos consultórios é resultado de uma combinação de fatores, como a influência das redes sociais, mudanças culturais e até características do clima, que favorecem uma exposição maior do corpo e do rosto ao longo do ano.

"Com as redes sociais, vemos homens se expondo mais, como influenciadores e atores com corpos malhados. O Brasil é um país de clima quente, então as pessoas acabam usando pouca roupa. Em cidades litorâneas, também há um apelo maior pelo corpo considerado ideal. Isso tudo gera uma pressão maior", afirma.

O médico Anderson José, 32, conta que viu nas redes sociais padrões de beleza que o fizeram questionar seu próprio corpo.

"Hoje em dia, você vê uma galera no Instagram e na internet com narizes muito bonitos e começa a ver defeitos em você mesmo que nem existiam", afirma.

Influenciado por esse "looping" constante nas redes sociais, ele decidiu investir em procedimentos estéticos sutis. Para o nariz, que achava "meio caído ao sorrir", fez preenchimento com ácido hialurônico. Para o abdômen, que concentra uma gordura localizada que persiste mesmo com academia, suplementação e dieta, usa bioestimuladores. A cada seis meses também tem aplicado botox no rosto, uma vez que, segundo ele, "após os 30, tudo cai".

Na perspectiva dos especialistas ouvidos pela Folha, o alinhamento de expectativas é um dos pontos centrais para o sucesso da cirurgia ou do procedimento, especialmente no atendimento a pacientes homens, que buscam resultados mais naturais e sutis.

Isso significa deixar muito claro, antes da intervenção, o que é possível alcançar, quais são os limites técnicos, como será o processo de recuperação, os riscos e quais resultados não devem ser esperados.

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"Quanto mais transparente e didática é essa conversa, menor a chance de frustrações no pós-operatório", diz Nassif.

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