O Brasil, em especial a região Sudeste, já está em situação de alerta para as doenças respiratórias. Com as vacinações contra Influenza já iniciadas, o público idoso é um dos prioritários e já pode ser imunizado contra o vírus, além de se proteger contra complicações de doenças crônicas e infecções. Essa indicação faz parte de uma leva de estudos que reconhecem a vacinação como uma medida preventiva não apenas contra infecções, mas também para a prevenção de doenças cardiovasculares em pacientes de alto risco, com destaque para os idosos.

Um estudo recente, publicado em 2025, intitulado “Vacinação como uma nova forma de prevenção cardiovascular: uma declaração de consenso clínico da Sociedade Europeia de Cardiologia”, destaca como vacinas contra influenza, SARS-CoV-2, vírus sincicial respiratório (VSR), herpes zoster e outros vírus reduzem significativamente a incidência de eventos adversos maiores em indivíduos vacinados.

O cardiologista José Carlos da Costa Zanon, membro da Comissão de Vacinas da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e professor da Escola de Medicina da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), aponta que o estudo coloca a vacinação como uma nova forma de prevenção cardiovascular, sendo o quarto pilar junto ao tratamento da hipertensão, da dislipidemia e do diabetes.

“Temos, sim, evidências claras de que vacinar pode reduzir eventos. Por exemplo, os estudos colocam a vacinação contra influenza em comparação com fatores clássicos, como o uso de anti-hipertensivos, estatinas e o combate ao tabagismo, e mostram uma redução adicional no risco de infarto com a vacinação, em comparação ao controle dos principais fatores de risco”, destacou durante o 2º Congresso de Departamentos da SBC, nesta sexta-feira (10/4), em Belo Horizonte.

A pneumonia também está associada a eventos cardiovasculares: maior risco de infarto, de arritmia, principalmente fibrilação atrial e de insuficiência cardíaca, além da descompensação dessa condição. O estudo “Efeito da Vacina Pneumocócica na Mortalidade e Desfechos Cardiovasculares”, com metanálise de 15 estudos e mais de 320 mil pacientes, mostra que a vacina pneumocócica foi associada à diminuição de 24% na mortalidade por todas as causas e de 27% na incidência de infarto do miocárdio, quando comparada ao grupo não vacinado.

“Vimos, na pandemia, um aumento importante no risco de eventos cardiovasculares, como na COVID-19. Um estudo da Nature mostra uma redução de 29% de MACE [eventos cardíacos adversos maiores] em pacientes vacinados, em comparação com os não vacinados, além de uma redução de 68% na mortalidade entre aqueles que se vacinaram contra a COVID, apesar de toda a polêmica e discussão que ainda existe sobre a vacinação”, explica.

O infarto agudo do miocárdio (IAM) é uma das principais causas de morte do mundo

Nara Santos/EM/D.A Press

O ensaio “Efeitos dinâmicos da vacinação contra a COVID-19 nos principais eventos cardiovasculares agudos e mortalidade após a infecção por SARS-CoV-2” destaca que, embora a vacinação seja direcionada para diminuir o agravamento e a mortalidade da infecção aguda por COVID, a longo prazo ela proporciona um efeito protetor significativo contra complicações cardiovasculares graves.

O estudo utilizou dados de registros médicos eletrônicos globais de abril de 2021 a março de 2023. Foi avaliado o efeito da vacinação prévia à infecção por COVID-19 sobre o risco de eventos cardiovasculares agudos maiores e mortalidade por todas as causas em indivíduos de 40 a 85 anos durante um ano após a infecção por SARS-CoV-2.

Herpes Zoster

Também em relação ao herpes zoster, há um aumento importante na incidência de infarto na primeira semana do quadro agudo. “Sabemos que esse risco pode aumentar por até três meses após a fase aguda. E, no caso do acidente vascular cerebral (AVC), podemos ter um aumento de até 40% no risco por até um ano após o quadro agudo de herpes zoster.”

E por que ocorre esse aumento de risco cardiovascular? Segundo José Carlos, isso se deve ao quadro inflamatório. “Quando temos a cascata inflamatória de uma doença infecciosa, há liberação de citocinas pró-inflamatórias, que desestabilizam placas e podem levar a AVC e infarto. Há também um ambiente pró-trombótico, que aumenta o risco de doença sistêmica. Além disso, ocorre desequilíbrio entre oferta e demanda de oxigênio, podendo levar ao infarto tipo 2 e à descompensação de insuficiência cardíaca prévia. Ainda há a lesão direta do vírus, que pode acometer o miocárdio e levar a miocardite aguda”, informa.

VSR

A situação em relação ao VSR também é clara: um em cada quatro pacientes internados por VSR apresenta um evento cardiovascular agudo, com quase 16% de insuficiência cardíaca e 7,5% de doença coronariana isquêmica associada à internação pelo vírus sincicial respiratório.

Um estudo apresentado em fevereiro mostrou também uma redução importante de MACE em pacientes vacinados contra o VSR. “Ou seja, as infecções respiratórias, principalmente, mas também outras infecções, são gatilhos importantes para eventos cardiovasculares agudos. Ao seguirmos o protocolo de vacinação, podemos não apenas reduzir a doença infecciosa, mas também o risco cardiovascular.”

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Quais vacinas são essenciais para os idosos?

O cardiologista destaca algumas vacinas que fazem parte do calendário vacinal do idoso e que podem, inclusive, ser administradas juntas, caso o paciente não esteja com elas atualizadas. “As vacinas inativadas, que não contêm vírus vivo, podem ser coadministradas sem risco. É muito comum que pacientes acima de 50 anos cheguem ao consultório com mais de uma vacina em atraso”, afirma.

  • Influenza (anual)
  • Vacina pneumocócica
  • Herpes zoster (a partir dos 50 anos)
  • Vírus sincicial respiratório (VSR)
  • Hepatite B
  • DTP (difteria, tétano e coqueluche)
  • Febre amarela - única com ressalvas, pois é de vírus atenuado, exigindo avaliação médica
  • COVID-19 - com indicação de reforço a cada seis meses, segundo o Ministério da Saúde
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