O autismo nunca foi tão diagnosticado. Para se ter uma ideia, os dados divulgados em 2025 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base no Censo de 2022, revelaram que 2,4 milhões, ou 1,2% da população, apresenta diagnóstico para a condição. É por esse motivo que as campanhas, como Abril Azul, alertam sobre o transtorno para reduzir o preconceito, promover a inclusão e, claro, maior qualidade de vida.
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O transtorno do espectro autista (TEA) é definido como um transtorno do neurodesenvolvimento que compromete a comunicação, a interação social com padrões de comportamento repetitivos e interesses restritos. O TEA é classificado pelo nível de suporte necessário, variando entre o nível 1 - suporte leve - ao nível 3 - suporte intensivo.
A PHD em neurociências, psicanalista e psicopedagoga, Ângela Mathylde Soares, explica que o suporte trabalha as habilidades, envolvendo terapias de independência comportamental, questões psicológicas, fonoaudiólogo e planos de educação personalizados.
A mineira Ângela Mathylde Soares é PHD em neurociências, psicanalista e psicopedagoga
O maior conhecimento sobre o TEA e os benefícios da terapia permitem um crescimento no número de diagnósticos, ainda na infância, por volta dos três anos de idade - algo que apenas colabora para a evolução das habilidades.
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Normalmente, alguns comportamentos indicam aos pais e professores, a possível existência do transtorno. Alguns desses sinais são o atraso na linguagem, movimentos repetitivos, repetição de frases, falas desconexas, comportamento rígido, isolamento social, exagero de interesses, falta de reação ao ser chamado pelo próprio nome e a dificuldade em fazer contato visual, atraindo, principalmente, médicos oftalmologistas.
O autismo também pode ser identificado na visão. Conforme explica o diretor técnico do Hospital de Olhos de Minas Gerais, Ricardo Guimarães, a dificuldade para olhar diretamente nos olhos de outras pessoas costuma surgir ainda nos primeiros meses de vida, sendo uma característica ligada a uma ativação incomum do sistema subcortical do cérebro, área responsável por despertar a atenção dos bebês por rostos familiares.
Oftalmologista Ricardo Guimarães
Assim, é inevitável que oftalmologistas pesquisem para entender mais sobre a condição, surgindo hipóteses, como a do neurologista Rubber Jure. “Ele relacionou as alterações visuais no espectro com as disfunções no colículo superior, uma estrutura integradora dos estímulos visuais e que direciona o foco de atenção. As disfunções na estrutura culminam em sintomas visuais frequentes entre os portadores, como a sobrecarga sensorial, fotofobia, dificuldade para perceber movimentos e integração multissensorial alterada”, conta Ricardo.
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Na verdade, se trata de mais um dos vários indícios notados nos olhos. Muitos autistas apresentam o costume de olhar de lado, ou direcionam seu olhar para pontos próximos ao rosto e-ou objetos, em vez de focar diretamente na figura. Outras características são sensibilidade extrema à luz, visão distorcida, a percepção diferente de velocidade e de intensidade das luzes e estereotipias oculares, promovendo o piscar excessivo, girar os olhos, o olhar fixo para luzes ou a necessidade de mover os objetos para perto do campo de visão em busca de autorregulação.
O padrão de comportamento ocular pode ser medido pelo exame eye-tracking, uma tecnologia não invasiva para identificar os sinais precoces, antes dos comportamentos se tornarem tão evidentes. Contudo, não substitui o diagnóstico clínico especializado de um profissional da área da saúde mental, conforme recorda Ângela, sendo apenas, um apoio até o veredito.
O TEA não tem cura, porém, alguns de seus efeitos podem ser tratados para melhor qualidade de vida. Uma alternativa oftalmológica, promissora e de baixo risco, está nos filtros espectrais, defendidos pelo grupo de pesquisa Whittaker et al. ao definir que reduzem a sobrecarga visual e proporcionam maior conforto, ampliando ainda, habilidades, como a capacidade de leitura e as expressões faciais.
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Ângela enfatiza que os desafios de autistas são diversos, estendendo pela vida, seja no ambiente escolar ou até mesmo, no trabalho, variando conforme as particularidades de cada caso. É importante atenção aos sinais e buscar tratamento, permitindo aos pequenos, maior autonomia com um desenvolvimento saudável, acompanhando as carências e, consequentemente, assegurando bem-estar.
