A Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) divulgou, nessa terça-feira (31/3), a nova Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade, documento que, de forma inédita e específica, organiza as recomendações para o uso de medicamentos no cuidado da doença. A publicação reúne 32 recomendações e define com clareza o papel da farmacoterapia no cuidado da obesidade, condição crônica que hoje afeta mais de 41 milhões de adultos no Brasil.

O texto, elaborado por um grupo multidisciplinar formado por endocrinologistas, clínicos gerais e nutricionistas, traz as orientações organizadas por classes de recomendação e níveis de evidência, no intuito de evidenciar o grau de respaldo científico por trás de cada conduta. 

O lançamento ocorre em um momento em que o excesso de peso e a obesidade seguem avançando no país. De acordo com dados do Atlas Mundial da Obesidade, da Federação Mundial de Obesidade (WOF), 68% dos adultos brasileiros convivem com excesso de peso e 31% vivem com obesidade. Mantida a tendência, a estimativa é que o Brasil chegue a cerca de 119 milhões de adultos com excesso de peso em 2030. No recorte das crianças e adolescentes (de 5 a 19 anos), já são 16,5 milhões convivendo com sobrepeso ou obesidade. 

Para a Abeso, a nova publicação marca uma mudança de patamar na forma como o tema é tratado no Brasil. Até então, o tratamento farmacológico da obesidade aparecia como capítulo dentro de documentos mais amplos, como as Diretrizes Brasileiras de Obesidade, de 2016, ou em posicionamentos específicos. “Nos últimos anos, a discussão sobre obesidade ficou mais complexa.

O médico passou a lidar com um cenário terapêutico mais amplo e com decisões que exigem avaliação cada vez mais individualizada. Esta diretriz transforma esse avanço científico em orientação prática, oferecendo mais subsídio para a conduta clínica e mais segurança para o cuidado dos pacientes”, ressalta Fábio Trujilho, presidente da entidade.

Entre os pontos centrais do novo documento está a recomendação de que o tratamento farmacológico nunca seja usado isoladamente, mas associado a mudanças de estilo de vida, com aconselhamento nutricional e estímulo à atividade física. Também define como principais critérios para indicação da farmacoterapia o IMC maior ou igual a 30 kg/m² ou IMC maior ou igual a 27 kg/m² com complicações relacionadas à adiposidade.

Em situações específicas, o texto ainda admite considerar tratamento mesmo independentemente do IMC, quando há aumento da circunferência da cintura e/ou da relação cintura-altura associado a complicações. Para a maioria dos indivíduos, a diretriz recomenda considerar metas de 10% ou mais de perda de peso, sempre ponderando benefícios e riscos.

A mudança aparece também na forma como as recomendações passam a dialogar de maneira mais direta com situações clínicas concretas, que vão além da perda de peso isolada. “O documento traz direcionamentos para cenários como risco cardiovascular, pré-diabetes, doença hepática gordurosa, osteoartrite, câncer, deficiência de testosterona masculina, apneia do sono, perda de massa magra e muscular, o que aproxima a recomendação científica das perguntas reais do consultório”, diz Fernando Gerchman, um dos coordenadores da nova diretriz.

A diretriz também reforça os alertas sobre quando um medicamento não é indicado e chama a atenção para o uso de substâncias sem evidências robustas de eficácia e segurança demonstradas em ensaios clínicos randomizados ou metanálises. Em relação ao uso off-label, a orientação é de cautela. “Essa conduta deve ser considerada apenas quando os tratamentos aprovados não puderem ser utilizados e desde que haja boa evidência de eficácia e segurança”, acrescenta Trujilho. “Elaboramos um capítulo dedicado para orientar quem se dedica ao tratamento da obesidade”, explica Fernando Gerchman.

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O documento faz ainda um alerta importante sobre fórmulas magistrais e/ou produtos manipulados para o tratamento da obesidade, incluindo formulações com diuréticos, hormônios tireoidianos, esteroides anabolizantes, implantes hormonais ou gonadotrofina coriônica humana (hCG), entre outros.

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