SAÚDE DA MULHER

Teste de DNA-HPV no SUS democratiza o combate ao câncer do colo do útero

Aliada à vacinação e à quebra de barreiras, nova tecnologia permite detectar risco biológico do câncer de colo de útero com até 10 anos de antecedência

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O câncer do colo do útero ainda mata uma mulher a cada 90 minutos no Brasil, somando mais de 6,5 mil óbitos e 17 mil novos casos por ano, segundo dados do INCA (Instituto Nacional do Câncer). Para reverter esse cenário, a recente incorporação do teste de DNA-HPV ao Sistema Único de Saúde (SUS) representa um marco histórico. Na contínua luta contra a doença, o foco do ecossistema de saúde é prático: como o teste de DNA revelou o HPV e mudou a trajetória da saúde feminina, transformando um câncer letal em uma doença amplamente prevenível.

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Durante décadas, o rastreamento da doença baseou-se exclusivamente no exame citopatológico (Papanicolaou), que identifica alterações na morfologia das células apenas quando o dano biológico já está instalado sob o efeito da infecção viral. O avanço da biologia molecular mudou radicalmente esse cenário, permitindo a detecção direta do DNA do vírus e antecipando o reconhecimento do risco antes do surgimento das lesões.

Louise De Brot, patologista e diretora do departamento de anatomia e genômica do A.C.Camargo Câncer Center, destaca o impacto dessa evolução. "A introdução do teste de DNA para HPV representou uma das transformações mais profundas na história da prevenção do câncer do colo do útero", afirma a especialista. "Mais do que um avanço tecnológico, o teste molecular foi uma verdadeira mudança de paradigma, pois deslocou o rastreamento da observação microscópica da consequência celular para a identificação objetiva do risco biológico", explica a médica.

Avanço em dados: 10 anos de antecedência na detecção

A eficácia clínica desta nova abordagem traz resultados expressivos. Um estudo publicado na prestigiada revista Nature Scientific Reports apontou que o uso do teste de DNA-HPV aumenta a detecção de lesões pré-cancerosas em até quatro vezes, identificando 83% dos casos logo em estágio inicial. Na prática, isso significa que o diagnóstico pode ser feito com até 10 anos de antecedência em comparação com os testes de citologia tradicionais. No cenário nacional, a eficiência dessa inovação foi comprovada em um estudo realizado em Indaiatuba (SP) e desenvolvido em parceria com a Roche Diagnóstica, envolvendo mais de 20,5 mil mulheres, que demonstrou na prática o impacto positivo desse rastreamento para o diagnóstico precoce.

Desafios do SUS e o papel da vacinação


Em 2025, o teste de DNA-HPV foi oficialmente incorporado ao SUS, representando um passo gigante para a saúde feminina brasileira. No entanto, o desafio do sistema público agora é reestruturar o programa nacional de rastreamento para que ele funcione na prática. Atualmente, o país sofre com falhas na distribuição do acesso, onde mulheres fora da faixa etária recomendada realizam o exame repetidas vezes, enquanto outras mais vulneráveis ficam desassistidas. A mortalidade e incidência da doença estão diretamente atreladas a fatores socioeconômicos e à limitação de acesso aos serviços de saúde.

É nesse cenário de vulnerabilidade que a inovação do teste de DNA-HPV apresenta mais um diferencial: a possibilidade de autocoleta. Com esse método, a própria mulher pode colher a sua amostra utilizando um swab, muitas vezes na privacidade e no conforto de sua casa, sem a necessidade de deslocamento para a coleta ginecológica convencional em consultório médico. Essa quebra de barreiras é um divisor de águas para democratizar a saúde feminina, impactando diretamente as mulheres que vivem em áreas remotas com escassez de clínicas ou aquelas que, por vergonha do exame físico ou por carregarem traumas, evitam o rastreamento tradicional. Ao entregar autonomia à paciente, o método garante que o rastreamento preventivo chegue a quem antes ficava à margem do sistema.

Outro pilar fundamental é a prevenção primária. Embora a vacinação contra o HPV seja indispensável, ela não elimina o risco da doença de forma isolada, tornando essencial a sua associação com um programa de rastreamento eficiente baseado no teste molecular.

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"A genotipagem oferecida pelo teste molecular revelou que os tipos virais não têm o mesmo potencial oncogênico e distinguir os de maior risco permitiu a criação de algoritmos clínicos mais refinados, além do desenvolvimento de vacinas profiláticas muito bem direcionadas", ressalta Louise. "Essa vacinação, aliada ao rastreamento molecular de alta precisão, lançou uma era em que a eliminação do câncer do colo do útero passou a ser uma meta factível em saúde pública, algo já recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como método primário", conclui.

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