Conviver com uma doença reumática crônica é, para milhões de pessoas, enfrentar um cotidiano no qual atividades simples, como abrir uma garrafa, subir escadas ou segurar um copo tornam-se tarefas desafiadoras de serem executadas. Mas estudos clínicos, revisões sistemáticas e diretrizes internacionais vêm indicando uma aliada fundamental no tratamento desses pacientes: a prática de exercícios físicos.
“Hoje sabemos que a inatividade é, na verdade, a maior estimuladora da dor nos pacientes com doenças reumáticas crônicas. É fato que já avançamos muito com o surgimento de terapias biológicas, mas a ciência já comprovou que a medicação, por mais avançada que seja, não caminha sozinha. Para resgatar a qualidade de vida e a autonomia plena desses pacientes, a atividade física prescrita de forma estratégica e individualizada, precisa ser integrada ao tratamento como um pilar tão vital quanto o próprio fármaco”, afirma a médica reumatologista e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), Licia Mota.
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A professora também ressalta um ponto importante: pessoas com essas condições de dor extrema são menos ativas. “O dado é preocupante. Menos da metade das pessoas com artrite reumatoide, por exemplo, consegue atingir o nível mínimo de atividade física recomendado para manter a saúde em dia, o que reforça a importância de estratégias que incentivem o movimento de forma segura e orientada”, alerta.
Como construir uma rotina ativa de movimento do corpo como parte do plano terapêutico
Segundo Licia, a partir do diagnóstico e da definição do plano terapêutico, deve-se incluir um programa estruturado de atividade física como parte da rotina de cuidado de quem sofre com dores crônicas provenientes de doenças reumáticas.
“O objetivo é recuperar o condicionamento físico perdido e melhorar a capacidade funcional no dia a dia. Evidências científicas mostram que o exercício atua em múltiplas frentes e, com efeitos anti-inflamatórios, metabólicos e hormonais, o que explica por que ele vem sendo comparado, em termos de impacto, a intervenções medicamentosas no controle das doenças reumáticas. Esse entendimento já está incorporado às recomendações de sociedades médicas do Brasil e do exterior”, afirma.
A pesquisadora também explica de que forma o movimento deve ser incorporado à rotina do paciente. “As atuais diretrizes das principais sociedades de reumatologia do mundo são claras: pessoas com doenças reumáticas devem praticar atividade física nos mesmos moldes recomendados para a população geral, com as devidas adaptações. E claro, preciso ressaltar que qualquer atividade física precisa ser realizada sob a orientação de um profissional especializado”, enfatiza.
Segundo a especialista, a prescrição do movimento estratégico varia conforme a patologia:
Fibromialgia, que se manifesta com dor generalizada e fadiga. O foco deve estar na sinergia entre aeróbicos moderados, fortalecimento leve e práticas mente-corpo (yoga/tai chi) para redução da dor e da fadiga. Essa combinação também melhora o sono e o humor, combatendo a ansiedade e a depressão.
Osteoartrite ou popularmente chamada de artrose, em que o desgaste da cartilagem é o vilão. A estratégia deve estar direcionada no fortalecimento de grandes grupos musculares e aeróbicos de baixo impacto para reduzir a dor mecânica, preservar a cartilagem e devolver a mobilidade.
Osteoporose, que fragiliza os ossos. A abordagem é diferente: treinamento combinado de força com carga e exercícios de impacto controlado para estimular a formação óssea e prevenir quedas e fraturas, que são as grandes preocupações.
Artrite reumatoide, uma doença inflamatória autoimune. Os pacientes se beneficiam de uma combinação que controla a inflamação, reduz a dor e protege o coração. A combinação de aeróbicos intensos e musculação protege o coração e combate a rigidez.
Lúpus. A fadiga é um sintoma debilitante. Por isso, exercícios combinados como aeróbico moderado, de resistência leve e respiratório, são excelentes para reduzir a fadiga, melhorar o humor e modular o sistema imune. Importante ressaltar que pacientes com lúpus precisam sempre recorrer a rigorosa fotoproteção no caso de atividades ao ar livre.
Espondiloartrites, grupo de doenças que afetam especialmente a coluna. Neste quadro, a combinação a se considerar são exercícios de extensão da coluna, fortalecimento do core (centro do corpo), aeróbicos e práticas mente-corpo (yoga/tai chi) para mobilidade global. Essa combinação é crucial para prevenir a fusão vertebral, melhorar a postura e aliviar a dor, garantindo uma melhor qualidade de vida.
Como romper o ciclo da inatividade?
Apesar das evidências em prol do movimento físico, Licia sinaliza um ponto de atenção importante. Para quem convive diariamente com a rigidez, a inflamação e a dor extrema, como é o caso de pacientes com fibromialgia, a ideia de iniciar uma rotina de exercícios pode soar como uma afronta. “Um dos principais desafios que encontro no consultório ainda é a adesão à prática de atividade física pelo paciente. A dor, o receio de piora dos sintomas e até a falta de orientação adequada dificultam a manutenção de uma rotina regular de exercícios”, reconhece.
Porém, ela reforça que esse é um ciclo que precisa ser rompido. "Nosso papel como reumatologista é guiar esse avanço, transformando o medo em confiança e a dor em progresso. É um processo de reeducação do corpo e da mente, em que cada pequeno movimento – ancorado em uma abordagem segura, individualizada e humanizada - é uma vitória.”
Como diferentes exercícios protegem e regeneram as juntas
Estudos mostram que programas combinados (aeróbico + fortalecimento + mobilidade) são mais eficazes do que exercícios isolados na redução da dor e melhora da função. “Não existe um exercício único que resolva tudo. O benefício está na combinação e na dose. É como uma prescrição medicamentosa: tipo, intensidade e frequência precisam ser ajustados para cada paciente e cada doença”, explica a médica reumatologista da Universidade de Brasília (UnB), Licia Mota.
Veja como cada tipo de movimento contribui para o controle inflamatório e para a regeneração da funcionalidade articular:
Exercícios aeróbicos (caminhada, natação, bicicleta)
Controle inflamatório: melhora a oxigenação e estimula a liberação de endorfinas e substâncias anti-inflamatórias naturais, reduzindo a percepção da dor e a fadiga crônica.
Funcionalidade articular: o movimento contínuo de baixo impacto "lubrifica" as juntas com o líquido sinovial, o que diminui a rigidez matinal e facilita os movimentos do dia a dia.
Musculação e treino de força
Controle inflamatório: ao estimular os músculos, o corpo libera miocinas — proteínas com forte efeito anti-inflamatório sistêmico que ajudam a acalmar o sistema imunológico.
Funcionalidade articular: músculos fortes agem como amortecedores, retirando a sobrecarga das juntas doentes e garantindo a estabilidade necessária para, por exemplo, caminhar ou subir escadas sem sentir dor.
Pilates
Controle inflamatório: o foco na respiração e no controle reduz os níveis de cortisol (hormônio do estresse), um fator que costuma agravar as inflamações em doenças autoimunes.
Funcionalidade articular: fortalece o core (centro do corpo) e promove o alongamento junto com o ganho de força, devolvendo a flexibilidade e a amplitude de movimento sem forçar as articulações.
Yoga e tai chi chuan (práticas mente-corpo)
Controle inflamatório: a conexão mente-corpo reduz a atividade do sistema nervoso, diminuindo marcadores inflamatórios no sangue e aliviando a ansiedade ligada à dor crônica.
Funcionalidade articular: melhora o equilíbrio e a consciência corporal através de posturas suaves, o que é fundamental para evitar quedas e recuperar a confiança em movimentos antes limitados.
As doenças reumáticas autoimunes (DRAIs) são doenças crônicas nas quais o sistema imunológico do corpo ataca seus próprios tecidos, causando inflamação, dor e danos em diversas partes do organismo, como articulações, músculos, pele e órgãos internos.
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No Brasil, essas enfermidades afetam mais de 15 milhões de pessoas, segundo dados da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), impactando significativamente a qualidade de vida das pessoas devido a sintomas como dor persistente, inchaço, rigidez, fadiga extrema e, em muitos casos, incapacidade funcional, podendo levar a aposentadoria precoce e limitações severas nas atividades diárias.
