Um estudo retrospectivo realizado no A.C. Camargo Cancer Center, em São Paulo, revelou um aumento significativo na incidência do câncer colorretal no Brasil ao longo de 23 anos, tanto entre adultos jovens, com menos de 50 anos, quanto entre pessoas com 50 anos ou mais.

A pesquisa analisou 5.559 casos diagnosticados entre 2000 e 2023 e identificou um crescimento anual médio consistente em todas as faixas etárias avaliadas, principalmente entre 30 e 39 anos, com 8,5% de aumento de casos. Abaixo dos 50 anos, grupo tradicionalmente considerado de baixo risco, o aumento anual de casos foi de 7,6% e na população com 50 anos ou mais foi de 8,1%.

Os resultados reforçam a necessidade de repensar estratégias de prevenção, rastreamento e diagnóstico precoce da doença no país.

Campanha Março Azul

Neste contexto, a Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP), Sociedade Brasileira de Endoscopia e Endoscopia Digestiva (Sobed) e a Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG) realizam pelo quarto ano consecutivo a campanha Março Azul.

A mobilização nacional chama a atenção para a importância da informação, da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de intestino, que pode ter altas chances de cura quando identificado nas fases iniciais.

Além de conscientizar a população, a campanha terá um mutirão de exames para detectar a doença. A ação acontece em Seabra (BA) e foi organizada em parceria com o Governo do Estado da Bahia, a Prefeitura de Seabra, o Hospital Regional da Chapada/Fabamed e a Secretaria de Saúde (Sesab).

Ao todo, serão realizados oito mil testes FIT, distribuídos por agentes comunitários previamente capacitados. O paciente que apresentar alteração no resultado do exame será encaminhado para o mutirão de colonoscopias, que ocorre até 7 de março na cidade. A expectativa é realizar 500 exames.

“Entre as principais estratégias para a detecção precoce do câncer colorretal está o teste FIT, realizado por meio de um exame de fezes. Ele é capaz de identificar a presença de sangue oculto, geralmente imperceptível a olho nu, um dos sinais iniciais mais comuns da doença. Em caso de resultado positivo, o paciente é encaminhado para a realização da colonoscopia”, conta Olival de Oliveira Júnior, presidente da SBCP.

“Simples e eficaz, o teste FIT é uma importante ferramenta de rastreamento do câncer de intestino. E, uma vez detectado um câncer colorretal, o coloproctologista deve ser procurado o mais breve possível, pois é o especialista que fará o tratamento cirúrgico com maiores chances de cura para o paciente”, alerta Olival.

Tendência do estudo difere de países de alta renda

O crescimento simultâneo do câncer colorretal em adultos jovens e mais velhos observado no estudo contrasta com o cenário de muitos países de alta renda, onde a incidência da doença tem diminuído em pessoas acima de 50 anos, em grande parte devido a programas consolidados de rastreamento.

“O crescimento consistente do câncer colorretal em pessoas com menos de 50 anos reforça que essa doença não pode mais ser considerada exclusiva da população mais velha. É um alerta para profissionais de saúde e para a população em geral de que é preciso prevenir”, avalia um dos autores do estudo, Samuel Aguiar, membro titular da SBCP e cirurgião oncológico líder do Centro de Referência em Tumores Colorretais do A.C. Camargo Cancer Center.

No Brasil, os achados sugerem que falhas na cobertura de rastreamento, diagnóstico tardio e desigualdades no acesso à saúde ainda representam barreiras importantes. “No Brasil, cerca de 65% dos casos de câncer colorretal no SUS ainda são diagnosticados em estágio avançado. A campanha anual do Março Azul mostra que é possível rastrear a população de forma eficiente e com baixo custo, usando o exame de sangue oculto nas fezes e encaminhando para colonoscopia apenas quem realmente precisa”, afirma Olival.

“O aumento observado em faixas etárias que deveriam se beneficiar do rastreamento indica oportunidades perdidas de prevenção e diagnóstico precoce”, destacam os autores no estudo.

Sobrevida maior em jovens, mas impacto do estágio da doença permanece

Apesar do aumento da incidência, pacientes com menos de 50 anos apresentaram maior sobrevida global em cinco anos (72,7%) em comparação com aqueles com 50 anos ou mais (64,1%). No entanto, o estágio da doença no momento do diagnóstico foi um fator decisivo para o prognóstico.

“Embora os pacientes mais jovens apresentem melhores taxas de sobrevida, isso não reduz a gravidade do problema. Muitos ainda são diagnosticados tardiamente, quando as opções de tratamento são mais complexas”, pontua Samuel.

Pacientes diagnosticados em estágios iniciais (I e II) tiveram taxa de sobrevida em cinco anos de 84,4%, enquanto aqueles com doença avançada (estágios III e IV) apresentaram sobrevida significativamente menor (52,7%). Mesmo nesse cenário, adultos jovens mantiveram melhores desfechos do que os mais velhos, tanto em doença inicial quanto avançada.

Relevância para o contexto brasileiro

Os resultados reforçam evidências nacionais recentes que apontam para o crescimento do câncer colorretal entre adultos jovens no Brasil, mas avançam ao demonstrar que o aumento também é expressivo entre indivíduos acima de 50 anos, grupo que deveria apresentar tendência de estabilização ou queda.

Por se tratar de uma análise com mais de duas décadas de acompanhamento, o estudo chama atenção para a urgência de:

  • Ampliar e qualificar programas de rastreamento
  • Aumentar a conscientização sobre sinais e sintomas da doença, inclusive entre adultos jovens
  • Reduzir desigualdades no acesso ao diagnóstico e ao tratamento oncológico

Próximos passos

Embora o estudo tenha limitações por se tratar de uma coorte de um único centro, os autores ressaltam que os achados refletem tendências observadas em outros estudos brasileiros e internacionais. Os dados reforçam a necessidade de políticas públicas direcionadas, especialmente em países de renda média como o Brasil, onde o impacto do câncer colorretal tende a crescer nos próximos anos.

“Os resultados reforçam a necessidade de ampliar estratégias de rastreamento, melhorar o acesso ao sistema de saúde e investir em campanhas de conscientização. Sem isso, a tendência é que o impacto do câncer colorretal continue crescendo no país”, complementa o presidente da SBCP.

Prevenção

Ainda não se sabe o real motivo do aumento da incidência do câncer colorretal na população mais jovem, mas a crescente prevalência da obesidade, o comportamento sedentário, os padrões alimentares ocidentais e as alterações na microbiota intestinal destacam-se como possíveis causas.

“O aumento de casos em pessoas mais jovens reforça que a prevenção não deve se limitar à idade. Estilo de vida saudável com atividade física, consumo de mais alimentos in natura e menos ultraprocessados e avaliação médica diante de sintomas suspeitos são fundamentais em qualquer fase da vida”, destaca a diretora de comunicação da SBCP, Ana Sarah Portilho.

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O câncer colorretal não costuma apresentar sintomas em estágios iniciais, quando sua chance de cura é mais alta. Entre os principais sintomas da doença estão:

  • Alteração do hábito intestinal, como diarreia ou constipação persistentes
  • Mudança no formato das fezes (fezes mais finas ou em fita)
  • Sangue nas fezes, que pode ser vermelho vivo ou escuro
  • Dor ou desconforto abdominal persistente
  • Sensação de evacuação incompleta
  • Gases, inchaço ou cólicas frequentes
  • Cansaço excessivo ou fraqueza, muitas vezes relacionados à anemia
  • Perda de peso sem causa aparente
  • Diminuição do apetite
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