BAIXA VISÃO E CEGUEIRA

Dia Mundial do Glaucoma: como é conviver com a doença no dia a dia

Oftalmologista explica os tipos de glaucoma, sintomas e tratamentos; estudante que nasceu com a condição relata dificuldades cotidianas e formas de adaptação

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O Dia Mundial do Glaucoma, lembrado nesta quinta-feira (12/3), é focado na conscientização sobre a doença, apontada como a principal causa de cegueira irreversível no mundo. Segundo a oftalmologista do Hospital Oftalmos, Carolina Rottili Daguano, “o glaucoma é uma neuropatia óptica, ou seja, uma doença no nervo óptico causada pelo aumento da pressão intraocular”.

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A doença pode se manifestar em alguns tipos, sendo os mais comuns o glaucoma primário de ângulo aberto (GPAA) e o glaucoma primário de ângulo fechado (GPAF), que se apresenta de forma mais agressiva e aguda.

Além desses, há os glaucomas secundários, mais raros, causados por inflamações oculares, retinopatias, tumores, traumas e cirurgias; e os glaucomas juvenil, infantil e congênito, que ocorrem em recém-nascidos e bebês. É o caso de Paulo César, de 20 anos, diagnosticado com o GPAA ao nascer e, hoje, com cegueira em um dos olhos (visão monocular) e baixa visão no outro, com 17 graus de miopia. 

Para se ter uma ideia, uma pressão intraocular normal varia de 10 a 21 milímetros de mercúrio (mmHg). No olho do estudante, o valor geralmente é de 24mmHg, mas já chegou a 32mmHg.

Como identificar?

Segundo a médica, os sintomas já podem estar presentes ao nascimento ou até os três primeiros anos de vida, apresentando características como aumento do globo ocular, perda da transparência da córnea, que leva ao aspecto azulado do olho, vermelhidão ocular, fotofobia e lacrimejamento.

“O diagnóstico de cada tipo de glaucoma deve ser realizado por meio de uma consulta oftalmológica completa, direcionada para o caso e acompanhada de exames complementares, como gonioscopia, campimetria, retinografia e tomografia de coerência óptica”, aponta.

O tratamento também difere em cada caso e tem como principal objetivo a redução e o controle da pressão intraocular, estabilizando a doença. Para isso, estão disponíveis métodos como colírios hipotensores, laser e cirurgias antiglaucomatosas.

Convivendo com a doença

Uma pessoa com baixa visão enxerga menos que 30% da visão normal ou tem campo visual muito reduzido. Quem tem a condição, pode usar o cordão de girassol, símbolo internacional que indica deficiências não aparentes.

Para Paulo, um dos principais desafios é a compreensão das pessoas sobre o que significa sua deficiência. “Muitas vezes, as pessoas associam deficiência visual apenas à cegueira total”, comenta. “No ônibus, por exemplo, já fui questionado ou até repreendido por outras pessoas, que pedem para que eu levante por não perceberem que eu também tenho direito àquele espaço.”

Muitas limitações do glaucoma não são imediatamente visíveis. “Caminhar em lugares movimentados, atravessar a rua ou perceber o que acontece ao redor exige muito mais atenção, porque eu tenho dificuldade de perceber coisas vindo pelas laterais”, relata. “Já aconteceu de eu quase ser atropelado porque não percebi um carro vindo pela lateral. A motorista ainda me xingou, sem entender que eu tenho uma deficiência visual.”

As consequências da doença se manifestam em tarefas comuns do dia a dia, como partir certos alimentos, cozinhar ou lidar com objetos pequenos. “São atividades possíveis, mas que exigem mais tempo, mais atenção e muitas adaptações”. Ele também tem fotofobia, uma sensibilidade intensa à luz. “Em ambientes muito claros ou com iluminação forte, meus olhos se cansam rapidamente e minha visão piora bastante.”

Estudante de publicidade e propaganda, Paulo costuma ter dificuldades durante as aulas. “Quando os materiais não estão adaptados, acompanhar textos ou apresentações pode ser muito mais difícil.” Para lidar com esses problemas, é preciso adaptar os programas e ferramentas digitais usados no curso. “Ajustes de contraste, ampliação de textos, mudança de cores e outras configurações são fundamentais para que eu consiga acompanhar as atividades.”

Paulo, que tem glaucoma primário do angulo aberto, acredita que cada pessoa traz uma maneira própria de perceber o mundo
Paulo, que tem glaucoma primário de ângulo aberto, acredita que cada pessoa tem uma maneira própria de perceber o mundo Arquivo pessoal

Felizmente, o jovem tem professores, colegas e amigos que entendem suas necessidades. “No início, algumas pessoas não entendem bem minhas limitações, percebem como pequenas adaptações e atitudes fazem diferença no dia a dia. Isso mostra que inclusão também passa muito pela empatia e pela disposição de compreender o outro.”

“Minha deficiência faz parte de quem eu sou, mas não define tudo o que eu posso ser. Como qualquer outra pessoa, eu também tenho sonhos, interesses, planos para o futuro e muitas coisas que ainda quero construir”, comenta. “Estar na universidade e estudar comunicação me fez perceber que meu caminho não precisa ser limitado pelo que eu não consigo fazer, mas ampliado por tudo aquilo que ainda posso descobrir e aprender.”

“No fundo, acho que o que toda pessoa com deficiência deseja é algo muito simples: ser vista de forma completa”, diz.

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* Estagiária sob supervisão da editora Ellen Cristie.

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