Durante o BBB 26, a participante Ana Paula Renault, de 44 anos, compartilhou um medo íntimo: a possibilidade de não conseguir engravidar naturalmente. A declaração, feita em um momento de vulnerabilidade dentro da casa, rapidamente repercutiu nas redes sociais e trouxe à tona uma angústia silenciosa vivida por muitas mulheres que adiam a maternidade e se veem diante das incertezas sobre a fertilidade.
A fala da participante evidencia uma realidade cada vez mais comum. A decisão de ter filhos está, hoje, cada vez mais dissociada do relógio biológico. Muitas mulheres priorizam estabilidade profissional, relacionamentos sólidos e segurança emocional antes de pensar em engravidar. Nesse contexto, o planejamento reprodutivo e o acesso à informação tornam-se fundamentais.
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Segundo o ginecologista Wilson Jaccoud, especialista em reprodução humana e diretor médico da Fert-Embryo, o receio exposto por Ana Paula reflete uma preocupação legítima e crescente.“O tempo é o principal fator quando falamos em fertilidade feminina. A mulher já nasce com sua reserva ovariana definida, que diminui e envelhece ao longo da vida. A qualidade dos óvulos cai de forma mais acentuada após os 35 anos, por isso o planejamento reprodutivo e a informação precoce são essenciais”, explica.
Entre as alternativas disponíveis atualmente, o congelamento de óvulos tem se consolidado como uma importante ferramenta de autonomia reprodutiva. O procedimento permite que a mulher preserve óvulos em idade mais jovem para utilizá-los futuramente, ampliando as chances de gravidez quando decidir ser mãe.
“O ideal é congelar os óvulos antes dos 35 anos, quando a qualidade e a quantidade são melhores. Isso não significa que mulheres com 38 ou 40 anos não possam realizar o procedimento, mas é preciso uma orientação realista. Em muitos casos, será necessário mais de um ciclo para obter um número considerado seguro de óvulos congelados”, afirma o especialista.
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O processo de congelamento de óvulos dura, em média, de 12 a 15 dias e envolve avaliação médica, exames hormonais e de imagem, estimulação ovariana com medicações injetáveis e a coleta dos óvulos por meio de um procedimento rápido, realizado sob sedação leve. Após a coleta, os óvulos maduros são congelados pela técnica de vitrificação, um método ultrarrápido que garante altas taxas de sobrevivência após o descongelamento.
Apesar de ser uma ferramenta importante, o especialista reforça a necessidade de alinhar expectativas. “O congelamento de óvulos não é uma garantia de bebê, mas sim uma forma de preservar o potencial reprodutivo. Esses óvulos ainda precisarão ser fertilizados em laboratório e gerar embriões viáveis no futuro. Ainda assim, a principal vantagem é que a mulher pode utilizar óvulos mais jovens, aumentando significativamente as chances de gravidez em comparação a uma tentativa natural em idade mais avançada”, explica.
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Nos últimos anos, o Brasil registrou crescimento expressivo na busca pelo procedimento. Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mostram que o número de ciclos de congelamento de óvulos em mulheres de 35 anos quase dobrou entre 2020 e 2023, passando de 2.193 para 4.340 — um aumento de 97,9%. No mesmo período, o total de óvulos congelados no país cresceu 96,5%, saltando de 56.700 para 111.413.
Para o especialista, a exposição do tema em um programa de grande audiência ajuda a quebrar tabus e amplia o acesso à informação. “O mais importante é que a mulher tenha conhecimento sobre sua fertilidade e possa decidir com autonomia. A decisão de congelar óvulos é pessoal e deve ser livre de julgamentos. O papel da medicina reprodutiva é oferecer informação e ferramentas para que cada mulher trace sua própria jornada de maternidade, no seu tempo e da sua maneira”, afirma.
Ao compartilhar seu receio, Ana Paula contribui para trazer à luz uma discussão necessária sobre fertilidade, planejamento e as possibilidades oferecidas pela medicina reprodutiva, reforçando que informação e acompanhamento especializado são aliados fundamentais para quem deseja ser mãe — agora ou no futuro.
