Empatia forçada

Os riscos psicológicos dos vídeos que humanizam alimentos e insetos

Imagens fofinhas geradas por IA podem ser divertidas e até educativas, mas podem causar confusão cognitiva e estresse emocional 

Publicidade
Carregando...

Em um mundo dominado pelas redes sociais, vídeos virais no Instagram e TikTok frequentemente capturam a atenção do público com conteúdos criativos e aparentemente inofensivos. Entre eles, destacam-se produções que humanizam objetos inanimados, como alimentos "falantes" que lamentam seu destino de serem fritos ou assados, ou pequenos animais e insetos – como aranhas, escorpiões, mosquitos e lagartixas – que "apelam" pela própria sobrevivência. 

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

Esses vídeos, muitas vezes gerados por inteligência artificial ou animações, misturam humor, empatia e mensagens subliminares sobre veganismo, direitos animais ou sustentabilidade. De acordo com especialistas em psicologia, essa prática de antropomorfismo – a atribuição de características humanas a seres não humanos – pode carregar riscos significativos para o bem-estar mental, especialmente em crianças e jovens. Exploramos esses perigos e verificamos se educadores e psicólogos estão debatendo o tema.



O antropomorfismo é uma tendência natural do cérebro humano de projetar emoções, intenções e comportamentos humanos em animais, plantas, objetos ou até fenômenos naturais. Essa prática ativa regiões do cérebro associadas ao comportamento social, ajudando as pessoas a se conectarem emocionalmente com o que veem. No contexto de vídeos nas redes sociais, isso cria engajamento: quem não ri de uma batata "gritando" ao ser frita ou sente pena de uma lagartixa "pedindo" para não ser esmagada? Esses conteúdos exploram nossa empatia inata, mas podem distorcer a percepção da realidade.

Psicólogos argumentam que, embora o antropomorfismo possa fomentar empatia – por exemplo, incentivando o respeito por animais – ele também leva a mal-entendidos. Em vídeos que humanizam alimentos ou pragas, como mosquitos implorando pela vida, o público pode desenvolver ansiedade ao associar ações cotidianas (como cozinhar ou eliminar insetos) a "crueldade". Para crianças, isso é particularmente problemático: estudos mostram que exposições a representações antropomórficas em filmes ou animações afetam como elas generalizam conhecimentos biológicos, levando a projeções errôneas de traços humanos para animais reais.

Riscos psicológicos

 
 
 
Ver essa foto no Instagram
 
 
 

Um post compartilhado por Coisas Que Falam Aqui (@coisasquefalamaqui)

De acordo com pesquisas, os riscos vão além do entretenimento inofensivo. Aqui estão os principais, baseados em estudos psicológicos e comportamentais:

1. Mal-entendidos sobre comportamentos animais e objetos: Humanizar insetos ou animais pequenos pode levar a ações inadequadas. Por exemplo, vídeos que mostram aranhas ou escorpiões como "amigáveis" ignoram seus instintos reais, incentivando interações perigosas que resultam em mordidas ou picadas. Psicólogos alertam que isso distorce a compreensão de processos biológicos naturais, como predador-presa, e pode gerar medo irracional ou, ao contrário, subestimação de riscos. No caso de alimentos "falantes", isso pode criar culpa desnecessária ao comer, associando nutrição a "morte" de algo vivo, o que afeta hábitos alimentares, especialmente em contextos de promoção ao veganismo.

2. Impacto no bem-estar emocional: Crianças expostas a esses vídeos podem confundir ficção com realidade, desenvolvendo visões antropocêntricas – ou seja, vendo o mundo apenas pela lente humana. Um estudo recente indica que antropomorfismo em mídias educativas leva a pior retenção de fatos biológicos e transferência inadequada de conhecimento. Além disso, conteúdos que retratam sofrimento (como animais "apelando" pela vida) podem causar estresse emocional ou ansiedade, semelhante ao que ocorre com vídeos de animais em sofrimento disfarçados de humor.

3. Desinformação: Com o avanço da IA, vídeos falsos de animais humanizados proliferam, distorcendo percepções sobre conservação e ecologia. Psicólogos observam que isso reforça narrativas fictícias sobre estruturas sociais animais, levando a equívocos sobre amor maternal ou inteligência, o que afeta atitudes de preservação. Em adultos, pode promover comportamentos como adotar animais selvagens como pets, resultando em obesidade ou ansiedade em animais de estimação devido a interações excessivamente humanas.

4. Riscos específicos para insetos e pragas: Vídeos que humanizam mosquitos ou escorpiões podem desencorajar o controle de pragas, ignorando riscos à saúde humana, como transmissão de doenças. Por outro lado, debates sobre entomofagia (consumo de insetos) destacam benefícios sustentáveis, mas psicólogos notam barreiras culturais e emocionais, como nojo, que esses vídeos tentam superar – nem sempre de forma ética.

Educadores e psicólogos estão debatendo o assunto?

Sim, o tema está em debate ativo entre profissionais da educação e psicologia. Em fóruns acadêmicos e mídias, especialistas discutem os prós e contras do antropomorfismo em conteúdos digitais. Por exemplo, antropólogos como Holly Dunsworth, da Universidade de Rhode Island, criticam como o antropomorfismo em vídeos virais leva a mal-entendidos biológicos e comportamentos inadequados. Educadores em biologia alertam para o impacto em animações infantis, onde predadores são retratados como vilões, distorcendo dinâmicas ecológicas e incentivando encontros perigosos com a vida selvagem.

No contexto vegano, psicólogos como Melanie Joy exploram a "psicologia da carne", debatendo como humanizar animais de fazenda ou alimentos pode transformar negação em conscientização, mas também gerar reações defensivas. Em redes como o X (antigo Twitter), discussões recentes criticam vídeos de IA que humanizam animais, alertando para distorções na percepção pública. Outros posts questionam a promoção de insetos como comida, vendo-a como manipulação cultural. Educadores em universidades, como o professor Michael Crossley, da Universidade de Delaware, integram debates sobre insetos na alimentação, mas enfatizam a necessidade de educação realista para evitar confusões.

Organizações como a Born Free Foundation e revistas científicas como Frontiers in Psychology publicam artigos sobre como o antropomorfismo em mídias sociais pode comprometer o bem-estar animal e humano. O consenso é que, enquanto promove empatia, o excesso pode levar a desinformação, especialmente em uma era de conteúdos gerados por IA.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Equilíbrio entre empatia e realidade

Esses vídeos humanizados podem ser divertidos e até educativos, mas os riscos psicológicos – de confusão cognitiva a estresse emocional – não devem ser subestimados. Psicólogos e educadores recomendam moderação: pais e professores devem contextualizar esses conteúdos, explicando a diferença entre ficção e biologia real. Com o crescimento das redes sociais como "junk food" informacional, é essencial fomentar uma visão equilibrada. Afinal, empatia é valiosa, mas baseada em fatos, não em ilusões virais. Se você consome esses vídeos, reflita: eles estão ajudando ou confundindo?

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay