Vinho e enxaqueca: entenda a relação entre álcool e as crises
O vinho tinto é frequentemente relatado como gatilho de crises, mas não em todas as pessoas
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A cena é comum: uma taça de vinho em um jantar e, horas depois, uma dor de cabeça latejante e incapacitante. Para muitas pessoas que sofrem de enxaqueca, essa associação não é coincidência. Mas afinal, o vinho e outras bebidas alcoólicas são gatilhos de crises, causadores ou apenas um mito reforçado pelo senso comum?
“O álcool é um dos gatilhos mais frequentemente relatados por pacientes com enxaqueca. Em estudos internacionais, entre 20% e 30% dos pacientes com enxaqueca referem piora das crises após consumo de bebidas alcoólicas, sendo o vinho tinto o mais mencionado”, explica o neurologista Tiago de Paula, especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina.
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“No entanto, a relação não é uniforme: enquanto alguns pacientes desenvolvem crises poucas horas após ingerir álcool, outros não apresentam nenhuma relação entre o consumo e a as crises de enxaqueca”, explica o especialista.
Por que acontece?
A hipótese mais aceita para explicar essa relação é que substâncias presentes no álcool funcionam como gatilhos em cérebros predispostos. “A tiramina e histamina (em especial no vinho tinto) podem influenciar na liberação de neurotransmissores ligados à dor. Os taninos e sulfitos, usados na conservação do vinho, também são apontados como possíveis irritantes. Além disso, o álcool favorece desidratação e distúrbios no sono, dois fatores sabidamente associados a crises de enxaqueca. Esses dois últimos motivos explicam por que outras bebidas alcóolicas além do vinho estão ligadas às crises”, diz.
Mas o neurologista esclarece que o álcool não causa enxaqueca: “A doença é neurológica, com predisposição genética e mecanismos complexos. O que ocorre é que ele atua como gatilho, ou seja, pode precipitar uma crise em quem já tem enxaqueca. Da mesma forma que outros fatores desencadeantes (estresse, jejum, alterações hormonais, certos alimentos), o vinho ou outras bebidas alcoólicas não provocam a doença do zero, apenas ativam o processo em cérebros suscetíveis”, explica.
Tiago destaca que o gatilho de álcool é muito frequente e pode ficar mais forte na mesma pessoa, dependendo da fase da vida e da progressão da doença. “Mas à medida que o tratamento correto é feito, os gatilhos vão perdendo a força de maneira progressiva. Por isso, mais importante do que identificar os gatilhos é tratar a doença”, enfatiza.
Em pacientes em tratamento, a recomendação costuma ser moderação ou abstinência, dependendo da sensibilidade individual. Além de potencializar crises, o álcool pode interagir com medicamentos usados no tratamento da enxaqueca, como os anticonvulsivantes.
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“De qualquer maneira, para pacientes com enxaqueca, apenas se afastar dos gatilhos não será suficiente. É necessário tratar a enxaqueca com os medicamentos que têm ação na fisiopatologia da doença. Não é incomum que, com o tratamento adequado, o vinho possa ser reintroduzido com moderação.”