Shirley Pacelli

O Instagram nasceu em 2009 e, depois de três anos, foi vendido por US$ 1 bilhão para o Facebook. O game Angry Birds tem versão Rio, Space e até Green Day, fora a comercialização, utilizando imagens do game, de ursinhos de pelúcia, agenda, chaveiros e dos refrigerantes mais vendidos da Finlândia. Em comum entre os dois fenômenos está o foco em dispositivos móveis. Se ainda não caiu a sua ficha, o mundo todo já percebeu que smartphones e tablets são o futuro do mercado web. Segundo uma pesquisa da Accenture, empresa global de consultoria de gestão, os brasileiros são líderes na intenção de compra de celulares inteligentes (78%). O Brasil e a África do Sul são os países em que mais se acessa a internet por dispositivos móveis.
SOB DEMANDA Com a popularização dos smartphones, Thales Augusto Ceolin Vieira, de 29 anos, sócio da empresa, conta que a uLevel começou a fazer apps sob demanda. De clientes, já tiveram tanto grandes empresas, como a Fiat, quanto uma pessoa que queria criar uma ferramenta para coletar informações em campo: o Open Data Kit. O programa, atualmente, é adotado na África na área de saúde e já foi usado no Haiti para ajudar a localizar pessoas desaparecidas.
Thales Ceolin conta que sentiu na pele o crescimento do mercado: com a maior demanda, foi preciso aumentar a equipe e quatro desenvolvedores foram contratados. A expectativa é de um aumento de 80% no faturamento em 2013. Para ele, os aplicativos de recreação ainda têm pouco apelo no país, enquanto os educacionais e profissionais são mais rentáveis. “Já tive experiência e a área de entretenimento está engatinhando ainda. Você não cobra pelo app e é difícil arrecadar algum dinheiro. Em contrapartida, cada download de um aplicação para neurocirurgiões pode valer até R$ 100”, explica. O empresário diz que aplicativos de sucesso, como o Easy Taxi (sistema que facilita localização de táxis, acessível em easytaxi.com.br), são só ferramentas dentro do negócio da startup, que lucra com as parcerias firmadas. No caso do Easy, com as cooperativas de taxistas.
PREÇO O custo do desenvolvimento de cada aplicativo varia de acordo com o trabalho. A equipe faz um protótipo do sistema e, em seguida, a contabilização dos chamados pontos de função. “É como se fossem, para o engenheiro, levantamentos do preço do metro quadrado de uma casa”, explica. Segundo ele, quando o cliente já sabe o que quer a produção sai mais em conta. Cada ponto de função pode custar entre R$ 200 e R$ 500. Uma versão móvel do Twitter, por exemplo, teria cerca de cem pontos, logo, custaria em média R$ 50 mil.
Sobre as opções de sistemas, Thales Ceolin conta que prefere o Android porque é uma plataforma mais fácil de se trabalhar, além de o Google oferecer apoio por meio de material extensivo de desenvolvimento na internet. “Mas como é um sistema mais aberto, há pessoas que reclamam que os títulos do Google Play têm pouca qualidade”, ressalva. Já a Apple tem um sistema de pré-aprovação e uma taxa maior de licença, que afasta os engenheiros de software.
PARA AUTODIDATAS
Algumas plataformas de entrada para o desenvolvimento mobile usam HTML5 e permitem que desenvolvedores menos experientes façam aplicativos, como o PhoneGap (https://phonegap.com) e o Sencha Touch (sencha.com/products/touch).
Treinamento em mobile:
» EIA: curso.eia.com.br
» Raros Labs: rarolabs.com.br
» Programas de extensão da UFMG: https://bit.ly/VgKHnc
Android ou iOS?
De início, nenhum dos dois. Para fazer um teste de viabilidade, você pode desenvolver em uma linguagem híbrida, como HTML5. Mas é preciso ter em mente que essa linguagem pode ser viável ou um completo fracasso, como no caso clássico do Facebook, que agora faz o caminho inverso e desenvolveu aplicativos nativos para cada plataforma. Programas criados para rodar em diversos sistemas podem apresentar bugs.
App na loja
Os custos de inscrição para ter seu aplicativo nas duas principais lojas virtuais são:
Google Play (Android)
» US$ 25. O desenvolvedor fica com 70% e o Google com 30% quando o aplicativo for pago.
https://bit.ly/HQSJaG
AppStore (iOS)
» US$ 99 dólares por ano.
O desenvolvedor fica com
70% e a Apple com 30% quando o aplicativo for pago.
developer.apple.com
Sistema web corporativo para a PF

Veterano na área, Arnaldo Gomes dos Santos Júnior, perito criminal, de 38 anos, lida com desenvolvimento desde 1992. Passou pela IBM, trabalhou com Visual Basic e Java Script até virar perito na Policia Federal (PF), em 2002. Há oito anos, ele identificou uma demanda e fez um sistema corporativo para a PF, que é utilizado por 2 mil pessoas em todo o Brasil. Esse sistema web de gestão de documentos deve ganhar versão móvel ainda no primeiro trimestre deste ano. Com ele, o perito poderá fazer laudos de onde estiver e acessar as informações do banco da PF. Diferentemente das funções normais de celulares, o aplicativo reúne todas as ferramentas, como câmera, GPS, gravador e relatório em uma só aplicação.
Sempre de olho nos lançamentos, Arnaldo já teve diversos palmstop e o primeiro iPhone, lançado em 2007, que nem chegou a ser vendido no Brasil. Hoje, já está de posse do tablet Google Nexus 7, que deverá custar a bagatela de R$ 1.299 por aqui, enquanto é vendido por US$ 199 (cerca de R$ 400) nos Estados Unidos. Apesar de ser casado com uma applemaníaca assumida, o perito é categórico ao dizer que acredita muito mais na concepção do Android. “O sistema casa bem com a seleção natural de inovação. Há um ecossistema em sua volta, que cria a concorrência: a evolução é aberta”, afirma. Por ser muito fechada, a empresa da maçã, para ele, não inova. O iPhone 3G e o 5 continuam com o mesmo sistema e o iPad 3, em comparação com o 2, ficou pior (bateria demora a carregar e dura menos).
Segundo Arnaldo Gomes, qualquer desenvolvedor que quer obter sucesso hoje em dia tem que pensar na plataforma móvel. Ele acredita que, apesar do receio inicial, é possível lucrar nessa área, mas não com a cobrança pelos aplicativos, e sim no modelo freemium, que disponibiliza uma versão gratuita, e outras, com mais vantagens adicionais, por meio de pacotes pagos. É assim que os criadores do Evernote, por exemplo, ganham dinheiro.
Falta mão de obra

Dos dois cursos que a escola oferece – iOS e Android –, o do Google sai ganhando com 70% da procura. O motivo, para Éder Oliveira, é que para desenvolver para a Apple o custo é maior: é preciso ter um Mac, a empresa cobra mais taxas na loja virtual e maior porcentagem sobre as vendas. Cerca de 1.236 alunos já participaram das aulas. Em média, há 100 alunos por curso, sendo a maior parte publicitários e estudantes de sistemas de informação. “Acredito que as agências de publicidade estão tendo demanda grande de dispositivos móveis e, em vez de contratar desenvolvedores, estão fazendo uma verticalização.”
Como professor, ele percebeu que muita gente que não é da área decidiu virar desenvolvedor repentinamente. “Isso é ruim para o mercado, os novatos cobram mais barato e não seguem as regras de qualidade. Além disso, a segurança fica ameaçada, porque eles podem fazer sistemas que requerem várias informações sigilosas do dono do aparelho, sem ele perceber, e gerar bugs”, revela.
Se você tem (ou acha que tem) uma ideia inovadora para um aplicativo e seu primeiro ímpeto é escondê-la do mundo, já começou dando um passo para trás. Para o professor, é preciso primeiro resguardar seus direitos registrando patente no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (https://bit.ly/XwfzdL). Depois, é preciso divulgá-la rapidamente o quanto puder, tanto para atestar sua viabilidade quanto para encontrar parceiros e investidores.
