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Estado de Minas

'Isso aqui não é a casa da mãe joana'

Um dia depois de demitir a diretoria de futebol e a comissão técnica, o presidente Sérgio Sette Câmara diz que o ano não acabou, que espera muito desse grupo e não cogita renunciar


postado em 29/02/2020 04:00 / atualizado em 28/02/2020 22:04

(foto: Pedro Souza/Atlético)
(foto: Pedro Souza/Atlético)


Em meio aos duros golpes das eliminações precoces na Copa Sul-Americana e da Copa do Brasil, o presidente Sérgio Sette Câmara tenta juntar os cacos no Atlético e motivar os jogadores para o restante da temporada 2020: “Nosso ano não acabou”, garantiu. Para isso, convocou o grupo alvinegro para uma longa reunião na tarde de ontem, na Cidade do Galo.

O encontro durou mais de uma hora e teve cobranças de ambos os lados. Durante entrevista coletiva, Sette Câmara revelou, em partes, o teor da conversa. O presidente atleticano pediu uma rápida reação do grupo para o Campeonato Mineiro e o Campeonato Brasileiro, competições que restam na temporada. Por outro lado, líderes do elenco deixaram claro o desejo de que a gestão do clube dê mais tempo a treinadores e diretores.

“Tive uma conversa agora, demorada, com o grupo. Foi uma conversa franca, sincera e de cobrança de resultado, de postura. Por outro lado, também fui cobrado no sentido de manter profissionais aqui com uma certa perenidade. Mostrei a eles que isso tem sido tentado, mas vai de encontro também aos resultados que o clube tem”, revelou Sette Câmara, que já demitiu seis treinadores e teve três diretores de futebol.

Volta de Dudamel? Ao longo da entrevista, o presidente não entrou em mais detalhes da conversa, mas negou que tenha recebido dos jogadores um pedido para que Dudamel voltasse ao comando técnico do time.  “Não me disseram nada lá dentro dessa história que saiu de que pediriam a manutenção do Dudamel. Isso não foi falado em momento nenhum por nenhum jogador lá. Ainda que fosse dito, seria rechaçado imediatamente. Isso aqui não é a casa da mãe joana. Quando a gente toma uma decisão, a decisão está tomada e ponto final. Isso jamais aconteceria”, continuou.

A queda para o modesto Afogados ainda na segunda fase da Copa do Brasil fez com que a alta cúpula do Atlético demitisse Dudamel e outros quatro homens de confiança levados ao clube pelo treinador.

Sette Câmara, que havia exaltado Dudamel seis dias antes de demiti-lo, justificou as saídas. Segundo ele, os resultados pesaram. Porém, não foi apenas o desempenho que pesou pela decisão. Sette Câmara entende que a relação de Dudamel com os jogadores não foi das melhores. “Nós vínhamos recebendo algumas informações por parte das pessoas que trabalham aqui no dia a dia de que não era uma questão de metodologia ou de cobrar determinado tipo de postura dos atletas, era mais do que isso. Alguns equívocos cometidos, exageros, questão de preparação física e cobranças que não se coadunam com a filosofia do futebol brasileiro”, disse.

O entendimento de Sette Câmara sobre o convívio entre jogadores e Dudamel foi contradito pelo integrante permanente da comissão técnica, James Freitas. Responsável por comandar o time contra o Boa Esporte amanhã, o auxiliar falou sobre o convívio com os venezuelanos: “Nossa relação foi ótima nesse período, como foi a relação deles (venezuelanos da comissão técnica) com os atletas, com o treinamento, com o dia a dia. Ele (Dudamel) é um cara muito enérgico, conduz muito bem o treinamento e as ações do dia. Nossa relação aqui foi muito boa. Posso dizer que, mesmo com pouco tempo de convivência, são amigos que a gente fez no futebol”.

“Ano não acabou” Em meio às turbulências neste início de ano, Sette Câmara tenta “salvar a temporada” do Atlético. Fora dos torneios mata-mata, o time alvinegro tem apenas mais uma disputa de maior importância até o fim do ano: o Campeonato Brasileiro. 

“Tivemos um ano ruim em 2019, mas conseguimos ainda manter a situação financeira do clube equilibrada. Foi o que nos deu uma ‘gordura’ para fazer uma montagem de elenco melhor para este ano. Quero crer que este elenco, ao menos no papel, é o melhor dos três anos em que estou aqui no clube. Acho que ele tem que entregar muito mais do que vem entregando”, disse Sette Câmara.
“Muita gente diz: ‘Nosso ano acabou’. Não, nosso ano não acabou. Nós temos o Campeonato Mineiro, vamos lutar para sermos campeões. E temos o Campeonato Brasileiro. Acredito que o Atlético possa ter sim um excelente ano no Campeonato Brasileiro. Tenho certeza que este grupo aí vai dar a volta por cima”, completou.

Defesa ao modelo de gestão Apesar de ter reconhecido erros que cometeu ao longo do mandato à frente do Atlético, Sette Câmara defendeu fortemente o modelo de gestão adotado desde o fim de 2017, quando foi eleito. Para isso, o presidente alvinegro fez referência ao momento financeiro do arquirrival Cruzeiro.

“Nós recebemos o Atlético numa situação muito pior do que o nosso adversário lá estava no ponto de vista financeiro. Mas nós não fizemos loucuras, não saímos fazendo contratações como muita gente pede e insiste para serem feitas, criando expectativas que não se realizam e que depois viram frustrações. E nós é que somos os alvos de críticas por conta disso”, disse.

Ao longo da resposta, Sette Câmara fez menção à crise celeste. “Torcedor, pode ter certeza que nós lutamos e trabalhamos por ele. O torcedor está chateado. Sei que eu, como dirigente e torcedor que sou, também sofri muito com o que ocorreu. Mas aqui no Atlético nós não vamos ‘cruzeirar’. Significa dizer que aqui nós não vamos fazer nenhum tipo de loucura, nenhum tipo de contratação que esteja acima das condições do clube. Não vamos deixar acontecer no Atlético o que aconteceu do lado de lá”, disse.

Ameaças e permanência Sette Câmara relatou ainda que tem sofrido ameaças durante o momento de crise do Atlético. “Aqui não tem um bandido. A sensação que dá é que eu cometi um crime hediondo e estou condenado a prisão perpétua. Tudo bem que a torcida esteja com raiva e tal, mas ameaça de morte, ameaça a pessoas da família... Não tenho medo disso não. Isso aí pode vir, eu encaro mesmo. Isso é coisa de bandido. Nunca deixei de enfrentar minhas dificuldades e meus problemas pessoais, ainda mais aqui à frente do clube”, disse.

A respeito da enxurrada de protestos de atleticanos que pedem a sua saída, Sérgio Sette Câmara garantiu que não levará isso em consideração, já que pretende cumprir o mandato até dezembro e, conforme apurado pela reportagem do Estado de Minas/Superesportes, tentar a reeleição – o presidente não confirmou isso publicamente.

“A primeira coisa que quero dizer a todos os que estão me atacando: vou permanecer aqui, cumprir o meu mandato, queiram ou não. Ninguém me tira. Fui eleito legitimamente pelo Conselho. Não tem um ‘a’ a respeito da minha postura enquanto gestor. Sou uma pessoa honesta, tenho um excelente vice-presidente que também trabalha muito pelo clube”, disse.

Questionado se ‘teme’ terminar o primeiro mandato sem títulos, Sette Câmara negou. “Temo deixar o clube em frangalhos, temo cair para a Segunda Divisão, temo ter algum tipo de problema interno em relação a questões financeiras e aspectos de honestidade. Ganhar títulos, é claro, é muito importante. Gostaria demais – e ainda quero –, ainda sonho em poder conquistar este ano”, finalizou.

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